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domingo, 18 de novembro de 2012

Poucas chances para a paz -ADRIAN HAMILTON


Há uma explicação simples para a decisão de Israel de aumentar a aposta em Gaza. É só porque tem superioridade militar e sabe que não haverá consequências, ao menos em termos internacionais.

Barack Obama virou para o lado, dizendo que mais ou menos entende por que Israel está fazendo isso, mas que esperava que eles tentariam evitar mortes de civis. O chanceler britânico William Hague deixou claro qual o lado que a Grã-Bretanha escolhera, declarando que “o Hamas tem a responsabilidade maior pela atual crise”. Mesmo o Egito, ao condenar o ataque israelense, foi cuidadoso na resposta, uma vez que não são poucos os palestinos em Gaza que gostariam de ver o Hamas receber uma derrota humilhante.

A única consequência real foi a morte de três israelenses. Mas isso também poderia servir aos propósitos do premier Benjamin Netanyahu. Quanto mais o conflito se agravar, mais dura será a resposta israelense e mais Israel vai se sentir como uma nação atacada a dois meses de o premier enfrentar uma eleição.

E assim a coisa segue, como quando Israel desistiu da ocupação da Faixa de Gaza em 2005. E assim vai continuar a ser, sem dúvida, por um longo tempo. Isso porque, apesar de toda a dor, um grau de hostilidade relativamente baixo é tolerável e mesmo politicamente bom para ambos os lados. Com a paz, o apoio ao Hamas pode cair entre os palestinos desesperados por um futuro melhor. Com guerra, eles vão se juntar ao Hamas como a única organização capaz de enfrentar Israel. Mas a paz também não é interesse de Israel, que desistiu da ocupação de Gaza não porque queria uma Palestina separada viável, mas porque sabia que não poderia continuar a ocupação direta de um povo que poderia ultrapassá-lo em tamanho. Controlar as fronteiras, frear o comércio, matar líderes é uma forma de ocupação por outros termos. O conflito contínuo em Gaza ajuda a garantir que a divisão entre a Autoridade Nacional Palestina e o Hamas aumente e que a perspectiva de um Estado palestino viável fique cada vez mais distante.

Lançar bombas também é útil para um governo que cada vez mais enfrenta isolamento com a Primavera Árabe, a eleição de um presidente da Irmandade Muçulmana no Egito a um Hamas que recebeu apoio e visita do chefe do Qatar. Uma escalada de hostilidades neste momento coloca um ponto final em qualquer pressão por negociação sobre a Palestina. Obama pode ser simpático à ideia de renovar as conversas, mas ele não vai intervir quando não há possibilidade de sucesso.

Para que haja uma chance de paz, são necessários um Israel que a queira e uma Palestina unida o suficiente para dá-la. Não há muita chance de nenhuma das duas coisas ocorrerem. O que está mudando é o contexto internacional. Quando os palestinos forem à ONU no fim do mês buscar um status de observador, Israel vai perceber que tem poucos amigos e menos ainda que o apoiem com entusiasmo. Atacar Gaza não vai ajudar em nada.

Adrian Hamilton é colunista do “Independent”

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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Sobre a Relação Histórica entre Escola e Sistema Produtivo: Desafios Qualificacionais

Lucídio Bianchetti* e Isilda Campaner Palangana** Fonte:http://www.senac.br/informativo/bts/262/boltec262d.htm

Em depoimento ao repórter Álvaro Almeida da Revista ISTOÉ, Antoninho M. Trevisan, proprietário da Trevisan Auditores, explicitou, em uma frase, uma idéia que está se tornando paradigmática na relação escola-empresa: "As empresas serão cada vez mais escolas, e as escolas cada vez mais empresas".1  Nesta manifestação não se encerra apenas um jogo ou trocadilho de palavras e expressões. Embora recente, esta nova perspectiva na relação entre essas instituições está se tornando hegemônica.

No interior das escolas e universidades, seja através das críticas ferrenhas daqueles que se opõem a essa vinculação linear ou das adesões rápidas e acríticas daqueles que só vêem sentido na existência do sistema educativo na sua aderência direta e imediata ao mundo da produção, o assunto e iniciativas estão na ordem do dia. Argumentos a favor e contra não faltam aos defensores dessas diferentes posturas. Aqueles que criticam essa vinculação estreita entre as instituições, alertam para os perigos do atrelamento das funções educacionais aos interesses pragmáticos, imediatos e utilitaristas do mercado. Esse colocar-se a reboque descaracterizaria a existência e as funções de escolas e universidades. Por sua vez, os defensores de um estreitamento nessas relações apontam a necessidade de as instituições educativas se tornarem coetâneas e partícipes do momento atual, em que, de um lado, a entrada e permanência dos trabalhadores no chamado mercado de trabalho está a exigir deles uma elevação na sua qualificação e, de outro, a qualidade e a competitividade de produtos e serviços tornam imperioso um incremento na quantidade e qualidade da educação de produtores e consumidores.

Aparentemente alheios a essas discussões — que muitas vezes consideram metafísicas, academicistas — os empresários, através dos seus órgãos de representação ou dos teóricos que os subsidiam, defendem abertamente essa vinculação imediata; estabelecem parcerias diretamente com escolas e universidades, com o Ministério da Educação e Secretarias estaduais e municipais de Educação e, no limite, criam escolas no interior das empresas, transformando as próprias empresas em "organizações qualificantes".2

De nossa parte reafirmamos que este debate, que coloca em posições antagônicas diferentes atores sociais, a) longe está de ser consensual; b) evidencia, embora de forma conflituosa, a aproximação de dois sistemas - o educacional e o produtivo - que historicamente vieram se constituindo como instituições com identidades próprias, particulares, estanques; c) torna compulsória a necessidade de posicionamentos explícitos e de ações decididas de todos os envolvidos nos processos educacional e produtivo. Empresários e pesquisadores, pergunta Silvia Velho, "desconhecidos ou inimigos ontem, hoje parceiros"?3

Através desta intervenção, pretendemos contribuir com o debate sobre essa relação entre escola/universidade e o setor produtivo. Antes de entrar na especificidade deste tema, contudo, faremos uma retomada de como as ciências, os campos do conhecimento e, mais particularmente, as disciplinas vieram se constituindo. Isto é indispensável para que se entenda em que momento histórico a ciência é desafiada a dar respostas concretas a necessidades emanadas do setor produtivo e de que forma se dá esta aproximação.

UMA BREVE RETROSPECTIVA

Até o séc. III a.C., a filosofia era a única ciência-disciplina: o alfa e o ômega em termos de conhecimento humano. O surgimento da matemática, com Euclides, no séc. III a.C., embora derivada diretamente da Filosofia, inaugura aquilo que conhecemos hoje como divisão das ciências ou divisão dos campos do conhecimento.4

A história mostra que, com o passar do tempo, esta divisão vai se aprofundando. Um dos pontos mais altos deste processo, sem dúvida, é o surgimento de uma nova área ou campo de estudos e pesquisas, neste final do século XX, denominado "história das disciplinas escolares", como se pode observar na produção de alguns autores5 , pelo fato de, nos dias atuais, existirem milhares de disciplinas e estarem surgindo outras.

Muitas foram as tentativas de totalização e retotalização do conhecimento sob uma espécie de ‘guarda-chuva’ ou de um ‘imperialismo epistemológico’ de uma determinada ciência, apresentando-se como hegemônica. Basta ter presente o papel desempenhado pela filosofia no período greco-romano; pela filosofia teologizada na Idade Média e, entre outras, pela física e biologia nos períodos Moderno e Contemporâneo.

Da clássica divisão, no interior da filosofia, em ética, estética, moral, lógica etc., passando pela organização curricular do trivium e quadrivium da escolástica e chegando à infinidade de disciplinas existentes hoje, percebemos como gradativamente foi ocorrendo o desenvolvimento de novos campos de estudos e pesquisas em proporções cada vez mais geométricas, quanto mais próximos chegamos ao tempo em que estamos vivendo.

Feitas estas constatações torna-se imperioso questionar: que fatores foram determinando o surgimento das disciplinas? Que fatores explícitos e implícitos determinaram e determinam a organização curricular? Em outras palavras, de onde emanam as exigências que acabam repercutindo no nível escolar, no sentido de determinar quais são as disciplinas e, mais especificamente, quais devem ser os conteúdos a serem ensinados, a fim de que a criança possa ser ‘formada e assimilada’ pela sociedade onde está inserida e, mais especificamente, no setor de produção no qual, em princípio, deverá se engajar? Qual é e como se dá a inter-relação dos diversos setores e instituições que compõem a sociedade?

Uma primeira constatação implica admitir que

a produção do conhecimento se faz com autonomia relativa, dependendo do saber acumulado e das condições técnicas para a operação com ele. Antes dessa autonomia relativa, porém, a produção do conhecimento se insere na própria dinâmica da sociedade em que se realiza, atendendo as demandas, aos estímulos e aos desafios que as propostas de organização e de transformação desta sociedade colocam. As problemáticas ideológicas que caracterizam um dado tempo numa dada sociedade demarcam um campo dentro do qual o conhecimento se produz, qualquer conhecimento, inclusive o conhecimento científico, não só enquanto reprodução, como também enquanto criação do saber novo.6

Uma segunda constatação, como corolário da primeira, é a de que o processo de conhecimento, desde sua criação, seleção, organização e distribuição, está relacionado com os processos sociais mais amplos. Portanto, a questão não se esgota na escola. Isto ajuda a entender por que a linha divisória no histórico da problematização que envolve a organização curricular vai se dar a partir do momento em que a escola deixa de ser vista apenas como o meio de que a casta ou classe dirigente se utiliza para reproduzir-se. E foi assim que, enquanto somente os filhos do grupo dominante freqüentaram a escola, reinou a paz no seu interior.

De acordo com Mariano F. Enguita, "os primeiros sistemas escolares que surgem na história do ocidente têm pouco a ver com a economia, respondendo a fatores e fins políticos, religiosos e militares".7  O fato de passar a ter vínculos estreitos com a economia também, gradativamente, vai demandar uma exigência prevista no ideário liberal como um direito e condição para todos se tornarem cidadãos, que é o direito à educação.

Podemos afirmar que quando esta possibilidade-necessidade se coloca, acaba a paz no reino do escolar. Muito tempo se passou até que medidas efetivas fossem tomadas no sentido do reconhecimento da necessidade de educação/escolarização para todos. Trata-se de uma luta que apresenta diferentes nuanças como foi e continua sendo, por exemplo, a luta inicial pela universalização do direito de ampliação do número de vagas, isto é, pela quantidade de oportunidades, chegando aos dias atuais em que à primeira se agrega a questão da qualidade.

No fundo o que está em jogo é a distância entre um ensino-aprendizagem meramente instrumental e aquele que visa a formação do cidadão. A questão apresentada desta forma pode revelar um antagonismo que na prática não existe ou não deveria existir. Ocorre que se passaram muitos séculos antes que esse antagonismo pudesse se constituir. E, quando ocorreu, foi um imenso avanço em relação à situação anterior, uma vez que a constituição do antagonismo pressupõe possibilidades de igualdade. Mas com certeza hoje ainda estamos muito aquém do que se poderia esperar e desejar em termos do alcance da chamada eqüidade social.

Até o momento em que a revolucionária burguesia se torna a classe hegemônica, podemos afirmar que existia apenas a escola única, voltada à formação e manutenção dos grupos dirigentes. Com a burguesia a questão se modifica, pois esta coloca na ordem do dia a proposta da universalização da educação e, primeiro explícita, depois veladamente, introduz o dualismo no sistema educacional. No plano pedagógico do Pe. Manoel da Nobrega está claramente proposta a bifurcação entre o ensino de humanidades e viagem à Europa para os mais capacitados e o ensino profissional-agrícola para os outros.8  Na Didática Magna de J. A. Comenius, embora referindo-se à "arte universal de ensinar tudo a todos",9  ele fala de gradações. Assim, a escola materna e a primária seriam para todas as crianças; a escola de latim, para alguns e a academia somente para uns poucos. Em A. Smith,10 aparece a proposta de educação em doses homeopáticas para os pobres. No entanto, quando explode a chamada "questão social", proximamente na metade do século passado, a proposta do dualismo irrompe sem disfarces. A educação para os trabalhadores é vista como desnecessária e perigosa. "Pelo que posso verificar, é um mal a maior dose de educação recebida pelos trabalhadores nos últimos anos. É perigoso porque os torna independentes". Assim está redigida uma das conclusões do relatório da comissão de emprego de crianças, da década de 60 do século XIX.11

Porém, talvez ninguém tenha sido mais cristalino do que Destutt de Tracy, quando mostra que os filhos da classe operária precisam adquirir desde cedo o conhecimento, as habilidades e destrezas a que estão predestinados pela própria condição de classe, ao passo que os filhos da classe erudita, em especial os filhos dos donos dos meios de produção, devem dedicar-se a estudar durante muito tempo, nas escolas de renome, para que seja assegurada a continuidade dos bens e do poder. Daí decorrerem dois sistemas de ensino muito distintos. Conforme palavras do próprio Destutt de Tracy, citado por Frigotto:

Estes são fatos que não dependem de qualquer vontade humana, pois decorrem, necessariamente, da própria natureza dos homens e da sociedade. Ninguém está em condições de poder mudá-los. Portanto, trata-se de dados invariáveis, dos quais devemos partir. Concluamos, então, que em todo Estado bem administrado e no qual se dá a devida atenção à educação dos cidadãos, deve haver dois sistemas completos de instrução, um não tendo nada em comum com o outro.12

Do exposto não é difícil concluir que a tese da educação para todos, desde que respeitados certos limites, foi mantida, pela burguesia em ascensão, durante um longo tempo. Hoje essa relação trabalho/educação, predominantemente, permanece escamoteada num discurso abstrato de sociedade democrática, onde o trabalho aparece como meio que cria e assegura riquezas, indistintamente, para todos os homens.

Acontece que, na realidade escolar, este conflito demorou para efetivamente se instaurar, pois até fins do século passado a preocupação da escola reduzia-se quase que exclusivamente às humanidades clássicas. "Uma educação que fosse fundamentalmente matemática ou científica não deveria ser, antes do começo do século XX, plenamente reconhecida como uma verdadeira formação do espírito", afirma A. Chervel13 . É somente a partir de um certo momento do desenvolvimento do capitalismo, qual seja, quando manter a produção implica poder contar com mão-de-obra especializada, que o econômico passa a ser o fator mais poderoso na orientação das mudanças ocorridas no sistema escolar em seu conjunto e, particularmente, nas atividades específicas de sala de aula.

Desde os primeiros momentos em que a classe trabalhadora acessa a escola, até os dias atuais, as demandas por determinado ‘produto’ da escola sofrem um processo de transformação que passa do ler-escrever;

ler-escrever-contar;

ler-escrever-contar-fazer, para: ler-escrever-contar-fazer-saber o que e para que está fazendo.

Em outros termos, podemos falar que vai longe a época na qual a leitura e a escrita serviam para deleite ou eram um fim em si mesmas: hoje não passam de pré-requisitos, no que se refere aos trabalhadores, para ingressar ou manter-se no mundo do trabalho. Estas transformações trazem novos desafios à escola ou, como diz A. Chervel: "As coisas se passam de forma diferente quando à escola são confiadas finalidades novas, ou quando a evolução das finalidades desarranja o curso das disciplinas antigas"14 .

Para Tomaz T. da Silva o desafio é ainda maior:

Numa sociedade em que cada vez mais o conhecimento e a informação tornam-se eles mesmos mercadorias e cujo controle significa poder e dominação, sabemos muito pouco sobre como esse controle é estabelecido, em primeiro lugar, e como as instituições educacionais estão implicadas nesse processo. Naturalmente sabemos menos ainda sobre como vincular o currículo com esse novo ambiente, de forma a romper com o processo pelo qual o monopólio e o controle do conhecimento técnico e científico reforça e modifica a dominação social.15

DA FÁBRICA À ESCOLA (com previsão de retorno!)

A questão que se impõe agora é procurar entender como a escola, com funções tão definidas e claramente diferenciadas antes da Revolução Industrial, foi se tornando permeável às demandas do sistema produtivo, a ponto de hoje a própria empresa emergir "como a quinta instituição formal de educação na sociedade", como afirma B. Bertoni.16

Octávio Ianni, no livro Sociedade Global,17  refere-se ao capitalismo como um processo civilizatório, cuja introdução e desenvolvimento dependem da produção material e espiritual. É por essa ótica que se entende a importância assumida pela escola enquanto uma das instituições desse sistema, tanto no que se refere a sua forma de funcionamento como os seus ‘outputs’.

O período em que predominou a produção manufatureira foi uma espécie de ‘vestibular’ ao qual a humanidade foi submetida a fim de adequar-se à forma própria de produção capitalista, em um determinado período. A fragmentação do saber e a imposição de um ritmo extra-organismo de trabalho eram indispensáveis para a produção maquinofatureira. Porém, se "a burguesia foi capaz de gerar forças produtivas mais variadas e potentes do que todas as gerações precedentes juntas em conjunto", como afirmam Marx e Engels,18  as relações de produção continuavam a apresentar pontos de estrangulamento conspiratórios à acumulação do capital.

Sem dúvida, um divisor de águas na tentativa de superação da resistência dos trabalhadores e da potencialização da produção e lucros foi o taylorismo e, em seguida, o fordismo. Todo o conjunto de estudos, observações, pesquisas e experimentos levados a efeito por F. W. Taylor (1856-1915) corporificaram a chamada gerência científica, cujo objetivo era racionalizar o processo produtivo. E, apesar da resistência dos trabalhadores, do ponto de vista capitalista o taylorismo foi um sucesso.19

A supremacia do referido paradigma requer que a fragmentação do processo produtivo ganhe status de cientificidade. Cada gesto, cada função, são estudados e, a partir disso, decide-se. Há uma concepção de por quem, como e em que tempo (interiorização do cronômetro) uma tarefa deve ser executada. O princípio básico da gerência científica é a fragmentação do processo de trabalho: concepção e direção das tarefas de execução. Uns pensam, outros executam. E para estes, o tipo ideal é o homem-boi ou homem-gorila.

Com Taylor e H. Ford (1863-1947),

a ciência perde a autonomia relativa de que gozava em tempos anteriores, transformando-se em apêndice do capital. As competências, os conhecimentos, as investigações científicas e técnicas se tornam produtivas e funcionais relativamente à orientação e prioridades particulares do crescimento do capital monopolista; tanto as técnicas quanto as ciências passam a trazer embutido o interesse do capitalismo na sua orientação, na sua especialização, na sua prática e até na sua linguagem. A ciência se desenvolve atualmente dentro dos quadros delimitados pelo capital e, reciprocamente, o capital passa a depender cada vez mais fortemente da tecnologia e do desenvolvimento das ciências.20

Isto ajuda-nos a entender as relações que passam a ser estabelecidas entre a produção material e os processos de produzir, organizar e transmitir o conhecimento, bem como as afirmações de: a) H. Japiassu segundo as quais as ciências nascem e evoluem em circunstâncias historicamente bem determinadas21  e b) J. D. Bernal, no livro Ciência na história, ao afirmar que o trilho seguido pela ciência é o trilho seguido pelo comércio e pela indústria.22

O sucesso do paradigma taylorista-fordista pode ser percebido à medida que essa verdadeira técnica de subsunção do trabalho ao capital foi gradativamente ultrapassando os muros da fábrica, invadindo outros espaços do social, penetrando nos mais ocultos e diferentes setores. Um destes setores, sem dúvida, é a escola. E isto vai trazer repercussões uma vez que esta passa a preparar para o trabalho numa perspectiva na qual a questão do cognitivo, do conhecimento permanece relegada a um segundo plano. A prioridade é educar no trabalhador as atitudes, as disposições, as formas de comportamento, conduta e aceitação das relações sociais imperantes.

Não por acaso, em termos formais, logo passou a manifestar-se uma espécie de homogeneização - inclusive no nível do organograma e das denominações aos cargos-funções, tanto na organização das fábricas quanto das escolas, como se pode observar abaixo:

Fábrica
Escola
Diretor Diretor
Supervisor Supervisor
Assistente Social Orientador Educacional
Psicólogo Psicólogo
Operários Professores
produtos Alunos
outputs
Mercado


REPERCUSSÕES NA ORGANIZAÇÃO CURRICULAR

A história nos mostra que uma classe domina a outra na medida em que consegue estender seu domínio sobre todos os setores da sociedade, tornando-se assim hegemônica. Impõe sua forma de ser, pensar, enfim produzir a existência dos homens. A burguesia tornou-se hegemônica a partir do momento que sua teoria e sua prática se fundiram. De acordo com O. Ianni:

Visto assim, em perspectiva histórica ampla, o capitalismo é um modo de produção material e espiritual, um processo civilizatório revolucionando continuamente as condições de vida e trabalho, os modos de ser de indivíduos e coletividades, em todos os cantos do mundo.23

É pressupondo a existência desse ‘invólucro’ que precisamos analisar as instituições constituintes e constituídas da sociedade. Em nosso caso, interessa mais especificamente a relação entre economia e educação.

A fábrica e a escola, na sua forma de constituir-se, ser e em suas finalidades, mantêm especificidades. No entanto, a existência destas instituições, bem como das outras que compõem a sociedade, justifica-se, do ponto de vista da classe hegemônica, enquanto corroboram para mantê-la e reforçá-la. É dessa perspectiva que se compreende o fato de determinados métodos e técnicas serem aceitos enquanto outros são rejeitados. O que está em jogo, no nosso caso específico, é a realização da lógica do capital.

O taylorismo, enquanto técnica racionalizadora da produção e organização do trabalho, é paradigmático. Com a nova técnica houve uma potencialização tanto no processo como nos resultados do trabalho. Porém, a resistência dos trabalhadores e o conservadorismo de alguns industriais/empresários sinalizaram a necessidade de que essa técnica fosse irradiada para outras instituições, a fim de que o ingresso no mundo do trabalho, daí para a frente, se desse ‘naturalmente’. E assim inaugura-se um capítulo novo na relação entre mundo da produção e escola. "A paixão por imitar e servir às empresas — afirma M. F. Enguita — chegou ocasionalmente a extremos grotescos".24

Porém, antes de apreender a forma como o taylorismo adentra a escola, precisamos ter presentes algumas de suas características. No horizonte de Taylor, a preocupação sempre esteve voltada para a divisão e subdivisão de tarefas-funções. Isso desde o aspecto amplo, da divisão técnica e social do trabalho, no que se refere às fases de planejamento, execução e avaliação, até a subdivisão, no nível micro, de uma mesma tarefa. O pressuposto básico era que qualquer trabalho, independentemente da sua complexidade, submetido às regras da gerência científica, podia ser reduzido a um conjunto de tarefas simples, demandando idênticas habilidades dos executantes. A referência ao mono domesticado se amolda à rígida prescrição de tarefas estanques a serem executadas. "O que peço a ele, observa Taylor a respeito do seu operário-modelo, ‘não é que produza mais por sua própria iniciativa, mas que execute pontualmente ordens dadas nos mínimos detalhes’".25

Iniciativa, autonomia e criatividade, do ponto de vista do taylorismo, não eram qualidades desejáveis num trabalhador. Manifestações desta natureza atentariam contra o projeto centralizador, imperante em qualquer organização, levando pessoas, situações e produtos a escaparem do controle dos donos-gerentes. E, por várias décadas, a paz e a prosperidade habitaram o interior das fábricas e das relações hierarquizadas. A emergência do fordismo, com a linha de montagem, coroou esse ciclo do capital. Até que, há umas quatro décadas, o paradigma taylorista-fordista passou a emitir sinais de esgotamento. E assim, comprovando a constatação de Marx e Engels de que "a burguesia só pode existir se constantemente revolucionar os meios de produção e, portanto, as relações de produção e, com elas, todas as relações sociais",26  passa a ser gestado um novo paradigma no/para o mundo do trabalho, o qual provocará transformações e novas demandas às outras instituições sociais, particularmente à escola.

No entanto, antes de avançar nesta direção, vamos verificar como o taylorismo "penetrou nos mais ocultos recônditos", como vimos acima, e quais as decorrências disso.

Talvez ninguém tenha superado F. Bobbit — "considerado o pai da teoria do currículo"27  — no seu obstinado projeto de introduzir os princípios do taylorismo na organização do processo educacional. Fazendo eco aos pressupostos teóricos de F. W. Taylor, F. Bobbit afirmava que "a vida humana, embora variada, consistia na execução de tarefas específicas" e que "qualquer trabalho, por mais complexo que seja, pode ser reduzido a um conjunto de trabalhos simples".28  Esses pressupostos, válidos para qualquer área da vida humana, serviram de base para a elaboração dos onze princípios subjacentes à proposta curricular de Bobbit:

1. Fixar as especificações e padrões do produto final que se deseja (o aluno egresso); 2. fixar as especificações e padrões para cada fase de elaboração do produto (matérias, anos acadêmicos, trimestres, dias ou unidades letivas); 3. empregar os métodos tayloristas para encontrar os métodos mais eficazes a respeito e assegurar que fossem seguidos pelos professores; 4. determinar, em função disso, as qualificações padronizadas exigidas dos professores; 5. capacitá-los em consonância com isso, ou colocar requisitos de acesso tais que forçassem as instituições encarregadas disso a fazê-lo; 6. erigir uma formação permanente que mantivesse o professor à altura de suas tarefas durante sua permanência no trabalho; 7. dar-lhe instruções detalhadas sobre como realizar seu trabalho; 8. selecionar os meios materiais mais adequados; 9. traduzir todas as tarefas a realizar em responsabilidades individualizadas e exigíveis; 10. estimular sua produtividade mediante um sistema de incentivos; e 11. controlar permanentemente o fluxo do "produto parcialmente desenvolvido", isto é, o aluno.29

A partir das contribuições de Bobbitt e R. Tyler, surge a concepção tecnológica de currículo,30  cuja característica básica é a adoção de esquemas estruturados e altamente controladores no interior da escola, redundando numa brutal burocratização. Como afirma E. Paixão, "encaravam currículo como um instrumento planejado cientificamente para prever e controlar a escola em todas as dimensões".31

O pragmatismo utilitarista perpassa, assim, o ser e o fazer da escola. Adequação tornou-se termo em voga. No sentido geral a adequação, a correspondência, deveria ser simétrica entre a atuação da escola e os interesses e necessidades do mundo do trabalho e, em particular, entre as características, habilidades e interesses de uma pessoa e sua possível ocupação. O grande objetivo passou a ser a concretização do the right man on the right place (o homem certo no lugar certo), conceito tão caro à teoria e prática da orientação vocacional-profissional, cuja origem está presente nas propostas de Frank Parsons, o idealizador e organizador do primeiro gabinete de orientação profissional,32  na cidade de Detroit, EUA, em 1908.

Em suas pesquisas e observações F. Taylor submeteu a fábrica a uma radiografia visando identificar nos mínimos detalhes as suas partes constitutivas, tanto no que se refere à sua organização quanto ao processo de trabalho. Através da "análise de tarefas", F. Bobbitt e seus seguidores submeteram a escola ao mesmo processo. Cada atividade ou tarefa foi dividida e subdividida nos seus mínimos componentes constitutivos e/ou comportamentos desejáveis, pré-condições para um planejamento racionalizado.

Em termos de organização burocrática da escola, coube a Ellwood P. Cubberley a sugestão e o esforço para introduzir nessa instituição a figura correspondente ao especialista em organização do trabalho, especialista em eficiência do taylorismo, o qual deveria estudar todas as fases do processo educacional e sugerir às autoridades escolares e públicas meios de tornar a escola mais ‘eficiente’.33

Na especificidade da organização do currículo, contudo, ninguém foi mais representativo do que B. Bloom34  e colaboradores, na sua missão de detalhar/definir e classificar objetivos, nos diferentes domínios das manifestações humanas, seja físico, cognitivo, social ou profissional, dos alunos.

As decorrências dessas inovações educacionais, subsidiárias das inovações no mundo do trabalho, nos EUA e em outros países do Primeiro Mundo,35 e as repercussões tardias no Brasil são por demais conhecidas. Todo o aparato teórico-prático mobilizado em torno e a partir da tecnologia educacional tem sua origem na taylorização do processo educacional. Ensino por objetivos, enfoque sistêmico, tecnicismo educacional, eficácia, eficiência, modelo cibernético etc. foram temas, expressões e práticas que impregnaram o universo pedagógico.

Ainda em relação ao Brasil, pode-se perceber que os últimos anos da década de 60 e início da de 70 marcam o ponto mais alto da tentativa de transferência dos princípios empresariais aos educacionais, consubstanciados na tendência tecnicista que passou a predominar na escola, especialmente a partir da vigência da Lei 5.692/71.36 Subjacente a todas
essas modificações estava a teoria do capital humano. Modelar, neste aspecto, é o Parecer 252/69. M. Gadotti o considera um "verdadeiro estrangulamento da educação... A formação do pedagogo, que já era incipiente, deixou de ser ‘tomada de consciência’ dos problemas educacionais para ser treinamento".37  Essa mudança, segundo Luís C. Freitas, "fragmentou a formação do educador acompanhando a onda tecnicista que valorizou os especialistas no controle do processo e na garantia da sua eficiência". A conclusão deste autor é enfática: "A pedagogia está loteada" e tais são os desacertos que "há um tipo de argumento liquidacionista que critica o curso de pedagogia".38

O behaviorismo fornecia o suporte teórico para esta revolução no campo educacional. O aluno passou a ser visto como um ser passivo, moldável. O professor, um executor de tarefas prescritas. A educação, um processo inteiramente predizível e planejável, objetivo que facilmente poderia ser concretizado na medida em que a educação foi colocada ‘a reboque’ da economia. O currículo, um instrumento cientificamente planejado, passa a ter que desempenhar a função de prever e controlar a escola em suas diferentes dimensões. E finalmente, a escola passa a ser concebida como um meio imprescindível à adequação do homem à ordem econômica e social vigente.

Sucintamente poderíamos dizer que passa a ocorrer uma atenção privilegiada com a preparação para a vida/trabalho com base em novos parâmetros. Como a preocupação era com especificidades e o voltar-se para o realmente existente, isto é, para funções cristalizadas, desencadeou-se a organização de uma infinidade de currículos de acordo com as características de cada região, comunidade e escola. Até a legislação, especialmente a Lei 5.692/71,39 previa a adequação às características e especificidades regionais. As autoridades educacionais canalizam seus esforços à adaptação, adequação e ajuste ditados por e para especificidades. A idéia era de racionalidade, afunilamento, ponto de chegada. Tudo estava prescrito. Nada de criatividade, iniciativa, autonomia; enfim, nada que fugisse ao controle.

DO KNOW HOW AO KNOW WHY: Implicações

As transformações decorrentes da chamada terceira Revolução Industrial passaram a impor novas exigência ao trabalhador, tanto para aquele que estava por ingressar no mundo do trabalho, quanto para aquele que nele quisesse se manter e, principalmente, para o excluído que quisesse (re)ingressar. Estas novas exigências acabaram repercutindo na escola, em forma de novas demandas, na sua forma de atuar e na qualificação dos seus alunos-egressos-futuros-trabalhadores.

A partir dessas novas exigências um (estranho) consenso40  passa a manifestar-se intensamente em toda a sociedade, englobando empresários, trabalhadores, governantes, intelectuais que se consideram progressistas: a importância e necessidade da educação. Não aquela educação que deu suporte ao trabalhador adequado ao taylorismo-fordista. Agora há uma convergência sobre a necessidade de uma educação geral, que capacite o trabalhador a se defrontar com um mundo do trabalho dinâmico, em constante transformação. Isto é, passa-se a desejar uma formação quantitativa e qualitativamente diferente e superior à anterior.

Conforme C.Offe:

O espectro do conteúdo da qualificação da força de trabalho sofre uma mudança de forma: deve ser apreendida não uma capacitação concreta do trabalho, mas a própria capacidade de apreensão de sempre novos conteúdos relativos ao trabalho. O ponto central da demanda de qualificação encontra-se na formação de capacidades cognitivas que se distinguem por um alto grau de generalidade e, conseqüentemente, pela fácil transferibilidade de uma tarefa para outra.41

Talvez ninguém tenha sintetizado melhor do que Davydov, citado por L. R. de S. Machado, as decorrências dessa nova fase da escola: "Os conteúdos e métodos de instrução escolar, estabelecidos anteriormente à atual revolução científico-técnica, não satisfazem essas novas exigências".42  Se antes o mundo do trabalho e a escola estavam em sintonia quanto à exigência de um trabalhador que cumprisse funções preestabelecidas, a questão agora é contar com um trabalhador-consumidor, com qualificações básicas, muito criativo, capaz de planificar ações, comunicar-se, trabalhar em equipe, enfim, que possua habilidades múltiplas, maleabilidade intelectual. "A imprevisibilidade provocada pela rapidez das mudanças demandaria uma formação básica sólida e capacidade de antever problemas", conclui a mesma autora.

Estas mudanças estão provocando a necessidade de que o planejamento educacional e a organização curricular sejam revistos. A este processo de revisão devem ser submetidas também as relações que predominaram até recentemente entre as ciências em geral e as disciplinas em particular. Ocorre que, para contar com um trabalhador com as características exigidas pelo novo momento, é imperioso abandonar aquela concepção de currículo cuja característica está assentada numa ampla diversidade de conteúdos, porém pouco aprofundados, e assumir a necessidade de voltar às disciplinas básicas, que se supõe possibilitam a aquisição e/ou desenvolvimento daquelas competências requeridas pelo trabalho flexível, automatizado e integrado. Ou, ainda, de conformidade com G. N. de Mello, trata-se de levar a termo um "planejamento curricular sóbrio",43 porém com objetivos cognitivos bastante ambiciosos. Já no que se refere à relação entre ciências/disciplinas, falar hoje do quanto a interdisciplinaridade é imprescindível deixou de ser um deleite intelectual ou um modismo. O aporte ou a colaboração de todas as disciplinas para formar o novo trabalhador é uma imposição do novo momento histórico e não algo que depende apenas da vontade das pessoas.

BUSCANDO PONTOS DE APROXIMAÇÃO SEM TRANSIGIR

Um resgate histórico das relações entre as instituições educacionais e o mundo do trabalho mostra alguns movimentos bem distintos, sendo que o destaque fica por conta de duas posições claramente polarizadas: em um extremo a posição de que a escola/universidade e as empresas têm funções muito específicas, nada tendo a ver entre si; em outro o predomínio do posicionamento de que as instituições educativas devem estar atreladas às necessidades imediatas que emanam do setor empresarial. Enquanto os representantes dessas instituições trocam farpas e acusações, de costas viradas uns para outros, por melhores que sejam os seus argumentos um segmento que deveria ser parte diretamente interessada nessa disputa pouco é ouvido, não participa do debate, é excluído. Estamos referindo-nos a uma ampla categoria composta por: estudantes-futuros-trabalhadores; um contingente enorme de trabalhadores que estudam; milhões de jovens e adultos que deveriam estar ou ter passado pelos bancos escolares; trabalhadores que lutam para se manter incluídos no chamado mercado de trabalho; desempregados que lutam para construir uma qualificação que os habilite a voltar à condição de ocupar uma vaga existente ou construir o seu próprio posto de trabalho.

Para esta categoria que abrange milhões de jovens e adultos, trabalhadores e estudantes, essa disputa tem um sabor escolástico. O fato de quase não serem consultados, de não participarem do debate não significa apenas que estão sendo excluídos de uma discussão: significa uma exclusão que dificulta ou lhes barra o caminho da construção das qualificações necessárias para enfrentar os imensos desafios de um momento em que a luta para ingressar, manter-se e regressar à escola/universidade e a batalha para ingressar, manter-se e ser reabsorvido pelo chamado mercado de trabalho ocorrem não mais em tempos e espaços geográficos e cronológicos diferentes. São concomitantes, aqui e agora, on line. As novas tecnologias da informação e da comunicação, na condição de suporte e intermediação do novo e veloz mundo do trabalho que está se redesenhando, exigem envolvimento e participação de todos.

Neste novo momento, a educadores, empresários e muito menos a estudantes e trabalhadores, não interessam instituições de costas viradas umas para as outras, qualquer que seja sua natureza. Por outro lado, também não interessam instituições que, a partir dos posicionamentos dos seus donos ou responsáveis, vejam as outras instituições como meras extensões ou subsidiárias para alcançar os seus fins imediatos. Nesta perspectiva, quando P. Dracker fala da "escola responsável"44 — naquela preocupação pragmática e utilitarista de quem quer atrelar a instituição escola às imediatas necessidades das empresas — ou quando P. Senge escreve uma obra com o título "A quinta disciplina: arte, teoria e prática da organização de aprendizagem",45 no discurso pode parecer que efetivamente as empresas estão sendo transformadas em organizações qualificantes. E não há por que não possam preocupar-se com a formação dos trabalhadores. No entanto, se a escola e a universidade não forem preservadas naquilo que lhes é específico, do qual não podem abrir mão e cuja responsabilidade lhe é exclusiva, dificilmente teremos um trabalhador qualificado e um cidadão cumpridor de deveres mas intransigente na exigência de que os seus direitos sejam respeitados. Preocupar-se com a qualificação do trabalhador-cidadão significa não sucumbir aos reclamos imediatos de uma formação pontual, pragmática, imediatista, cuja meta é o retorno que o trabalhador dará à empresa. Se predominar esta perspectiva, falar em empregabilidade ao invés de qualificação não é uma mera troca de palavras: é a tradução de uma prática que busca tornar a empresa coetânea ao espaço-tempo que estamos vivendo, onde o lucro é o único fim.

Da parte da escola/universidade, o desafio é ser uma instituição contemporânea aos problemas e necessidades atuais, sem contudo perder de vista valores que não podem ser olvidados para a preservação da integralidade da pessoa humana e na busca de concretização da utopia: um lugar que ainda não existe, mas que não pode ser apagado do horizonte. Na criação de interfaces com o mundo do trabalho e na preservação e luta para concretizar o que lhe é específico, está resumido o grande desafio das instituições educativas hoje.

NOTAS

1 ALMEIDA, Álvaro. Éramos sete. Revista ISTOÉ, São Paulo, n. 1551, p. 100-101, 23 jun., 1999.

2 FOGAÇA, A.; SALM, Cláudio. Qualificação e competitividade. In: VELLOSO, J. P. dos R.; ALBUQUERQUE, R. C. de. Modernidade e pobreza. São Paulo: Nobel, 1994.

3 VELHO, Silvia. Relações universidade-empresa: desvelando mitos. São Paulo: Autores Associados, 1996. p. 101.

4 Conforme Jacob Bazarian, "antigamente a filosofia incluía todos os conhecimentos humanos. À medida que estes se desenvolviam, iam se tornando ciências autônomas sobre determinado aspecto da realidade". Cf. BAZARIAN, J. Introdução à Sociologia: as bases materiais da sociedade. São Paulo: Alfa-Ômega, 1982. p. 51.

5 É o caso de: SANTOS, Lucíola L. de C.P. História das disciplinas escolares: perspectivas de análise. In: Teoria & Crítica. Porto Alegre, n. 2, p.21-9, 1990 e CHEVEL, André. História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. In: Teoria & Crítica. op. cit.

6 LIMOEIRO, Mirian C. Reflexões sobre ética e construção do conhecimento. [S.l:s.n.] Conferência apresentada no decorrer da XVII Reunião Anual da ANPEd, em Caxambu, MG, 1994, Versão Preliminar (mimeo). p. 1.

7 ENGUITA, Mariano F. A face oculta da escola: educação e trabalho no capitalismo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989. p. 129.

8 RIBEIRO, Maria L. S. História da educação brasileira: a organização escolar. 5 ed. São Paulo: Moraes, 1984.
p. 28.

9 COMENIUS, João A. A didática magna. 3 ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989.

10 Célebre frase de A. Smith, contida no livro A riqueza das nações. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

11 Assim está redigida uma das conclusões do relatório da comissão de emprego de crianças. Cf. MARX, Karl. O Capital. Crítica da Economia política. 11 ed. São Paulo: Difel, 1987, l. 1, v. I. p. 459.

12 Citação de um texto de Destutt de Tracy feita por FRIGOTTO, Gaudêncio. Tendências pedagógicas hoje: Educação e trabalho. Revista Prospectiva. Porto Alegre, AOERGS, n. 15, p. 45-52, 1986. p. 47.

13 CHEVEL, André. (1990) op. cit. , p. 180.

14 Id. Ibid., p. 191.

15 SILVA, T. Tadeu. O que produz e o que reproduz em educação: ensaios de Sociologia da Educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992. p. 91.

16 BERTONI, Bartira. Reengenharia humana: preparando o indivíduo para a mudança. Salvador: Casa da qualidade, 1994. p. 131.

17 IANNI, Octávio. Sociedade global. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.

18 MARX, K; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Global, 1986. p. 23.

19 RAGO, L. M.; MOREIRA, E. F.P. O que é taylorismo. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1984. Col. Primeiros Passos, n. 112.

20 OLIVEIRA, J. C.; ALBUQUERQUE, Rui, P.L. Notas sobre a relação ciência, técnica e sociedade. Ciência e Cultura, São Paulo, v. 33, n. 6, p. 821-825, 1981. p. 824.

21 JAPIASSU, Hilton. Nascimento e morte das ciências humanas. 2 ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.

22 BERNAL, J.D. Ciência na história. Lisboa: Livros Horizonte, 1976.

23 IANNI, O. (1992) op. cit., p. 59.

24 ENGUITA, M.F. (1989) op. cit., p. 127.

25 Cf. FRIEDMANN, Georges. O trabalho em migalhas. São Paulo: Perspectiva, 1983. p. 134.

26 MARX, K. ; ENGELS, F. (1986) op. cit., p. 21.

27 Cf. GRANDE, M. A. R. de L. Educação escolar: finalidades e objetivos. São Paulo: Saraiva, 1979. p. 36.

28 Cf. MAZOTTI, Tarso B. Educação como tecnologia: ensaio sobre as transformações do trabalho docente. São Carlos: UFSCar, 1979. Tese. Mimeo. p. 66-68.

29 Princípios curriculares explicitados por F. Bobbit. Citado em ENGUITA, M.F. (1989) op. cit., p. 127.

30 Nesta perspectiva, currículo é "um instrumento que reúne o conjunto de métodos que deverão ser usados para alcançar os objetivos propostos (...), engloba os procedimentos que podem preparar os alunos para desempenhar uma função específica na sociedade". Cf. PAIXÃO, Elza M. C. Epistemologia e Currículo. São Paulo: USP, 1987. Tese, Mimeo. p. 24.

31 Id. Ibid., p. 25.

32 Cf. NAVILLE, Pierre. Teoria da orientação profissional. Lisboa: Estampa, 1995.

33 Cf. ENGUITA, M.F. (1989) op. cit.

34 Estamos fazendo referência à extensa obra de Benjamin Bloom sobre a taxionomia dos objetivos educacionais, envolvendo a cognição, afetividade e psicomotricidade.

35 Devemos falar do ex-Segundo Mundo também, uma vez que não podemos esquecer o fascínio exercido pelo taylorismo sobre Lênin.

36 BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Leis básicas do ensino de 1. e 2. graus: leis n. 4.024/61 e 5.692/71. 2. ed. atual. Brasília, 1984. 30 p.

37 GADOTTI, Moacir. Revisão crítica do papel do pedagogo na atual sociedade brasileira. Educação & Sociedade. São Paulo, v. I, n. 1, p. 5-16, set. 1978. p. 6.

38 FREITAS, Luís C. A questão da interdisciplinaridade: notas para a reformulação dos cursos de Pedagogia. Educação & Sociedade. São Paulo, ago. 1989. p. 118 e passim.

39 BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. (1984) op. cit.

 40 Não fossem tão antagônicas as classes que compõem a sociedade atual; não fossem tão conflitantes os interesses que as permeiam, certamente nada nos levaria a estranhar a unanimidade que perpassa os posicionamentos e propostas a respeito da quantidade de educação necessária, bem como a qualidade exigida. Não tivéssemos claro também o que está em jogo quando se fala na necessidade de mais e melhor educação, da mesma forma não precisaríamos ficar surpresos diante da mudança de ênfase de uma educação afunilada, voltada estreitamente para uma profissão, em oposição a uma educação geral e, principalmente, ao abandono de uma pregação que sinalizava para as funções da escola como a de preparar as novas gerações em vista do futuro, para uma preparação em vista do presente, do agora, e um agora permeado de muita urgência. "O empresariado, sob pressão da renovação tecnológica, desembocou em posições que tradicionalmente têm sido reivindicadas pelos trabalhadores". Ou ainda: "Politicamente pode ser irônico: em curto espaço de tempo vemos bandeiras do movimento dos trabalhadores como a escola única e a qualificação geral, passarem às mãos das empresas em particular e do capital em geral". Cf. PAIVA, Vanilda. O novo paradigma de desenvolvimento: educação, cidadania e trabalho. Educação e Sociedade. São Paulo, v. 14, n. 45, p. 309-326, ago. 1993. p. 322. e Id. Produção, qualificação e currículo. Educação & Sociedade. São Paulo, Papirus, n. 37, 1990. p. 107.

41 OFFE, Claus. Sistema educacional, sistema ocupacional e política da educação. Contribuição à determinação das funções sociais do sistema educacional. Educação & Sociedade. São Paulo, n. 35, p. 9-59, 1990. p. 35.

42 MACHADO, Lucília R. de S. Formação geral e especialização unilateral: fim da dualidade com os reajustes na base material do capitalismo? Caxambu, MG, 1994. Mimeo. p. 2, 12. Comunicação apresentada na XVII Reunião Anual da ANPEd

43 MELLO, Guiomar N. Cidadania e competitividade. Desafios educacionais do terceiro milênio. 2 ed., São Paulo: Cortez, 1994. p. 41.

44 DRUCKER, Peter. Sociedade pós-capitalista. São Paulo: Pioneira, 1993.

45 SENGE, Peter M. A quinta disciplina. Arte, teoria e prática da organização de aprendizagem. 15 ed. São Paulo: Best Seller, 1990.

* Lucídio Bianchetti é Pedagogo, Mestre em Educação pela PUC/RJ. Doutor em História e Filosofia da Educação pela PUC/SP. Professor Adjunto do Departamento de Estudos Especializados em Educação, no Centro de Ciências da Educação, da UFSC. E-mail: lucidio@brasilnet.net

** Isilda Campaner Palangana é Pedagoga, Mestre em Psicologia da Educação pela PUC/SP. Doutora em História e Filosofia da Educação pela PUC/SP. Professora Adjunta do Departamento de Teoria e Prática da Educação, da Universidade Estadual de Maringá, PR. E-mail: ajpalanga@sercomtel.com.br

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domingo, 8 de janeiro de 2012

A conquista da quietude

Por Dorrit Harazim (texto editado)


“Não é de hoje que profissionais de áreas criativas tentam conciliar a sedutora tirania da era digital com pelo menos um nanossegundo de tempo, espaço e silêncio para pensar.
Três anos atrás, nos Estados Unidos, um doutorando da Universidade da Carolina do Norte inventou um programa que permite ao usuário bloquear o acesso de seu computador à internet por um período de até oito horas. O marketing do software, espertamente batizado de Freedom (liberdade), tinha alvo certo. “Freedom te liberta das distrações, te devolve o tempo [de que você precisa] para escrever, analisar, criar”, proclamava o anúncio.
Em apenas uma geração, o estado de exaltação diante do inebriante ganho de tempo e expansão do conhecimento proporcionado pela era digital começa a ser mitigado por quem se sente sufocado ou distraído pelas demandas ininterruptas da conectividade.
Em recente ensaio sobre a urgência de uma desaceleração em benefício de se ter mais tempo e espaço para pensar, o escritor e ensaísta britânico Pico Iyer observa que a revolução da informação veio sem manual de instrução. E portanto ainda não sabemos fazer uso adequado dessa ferramenta que alterou o ritmo de nossas vidas. Iyer aproveita para recorre a Blaise Pascal, que atribuía todos os problemas do ser humano á nossa incapacidade de ficarmos sozinhos e calados num quarto. “Distração é a única coisa que nos consola de nossas misérias, embora seja ela a maior de nossas misérias”, filosofou o pensador francês já no século 17.
Victor Hugo, autor de clássicos como “Os miseráveis”, tinha por hábito escrever nu; cabia a seu mordomo esconder as vestimentas do patrão para impedi-lo de sair às ruas antes de concluído o tempo que ele se alocara para escrever.
Na área da educação, dúvidas também se amontoam. Poucos meses atrás, Diana Senechal, membro do Conselho de Ensino público de Nova York, soou o alarme ao analisar o desempenho dos alunos de primeiro ano das faculdades públicas da cidade: 75% precisavam de aulas de reforço. Em um estudo recente, “A república do ruído, Senechal fala da perda de quietude por parte dos estudantes – a perda da capacidade de pensar e refletir de forma independente sobre um tema, em meio a tantos aparelhinhos que piscam, vibram, chamam, cujas minitelas se alternam ininterruptamente e geram um vazio semelhante à saciedade.
“Os alunos não aprendem mais a lidar com momentos de dúvida, eles se habituaram a produzir algo o tempo todo. Somos uma nação grudada em smartphones e telas de computador, checando e-mails e alimentando tweets.”
Senechal não advoga jogar IPads e IPhones no lixo nem prega o isolamento sem rumo; apenas reivindica uma vida tecnológica que contemple a formação de ideias e a prática da quietude.
Algumas grandes corporações buscam alternativas para prevenir, entre os seus funcionários, o que é conhecido como uma sigla – a ITSO, ou “incapacidade de desligar”, em inglês. Para as quatro letras adquirirem status de mais uma síndrome do mundo moderno, sujeita a tratamento médico e processos trabalhistas, é um pulo.

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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Inimigo deletado

escrito por Dorrit Harazim, O Globo, 30/10/2011, p.6.

“Neste mundo, só impostos e a morte são inevitáveis”, já disse Benjamim Franklin. Mesmo assim, o mundo preferia ter sido poupado de assistir a morte de Muamar Kadafi. Não por ter sido um assassinato a sangue quente – afinal, a humanidade convive com uma fornida história de justiçamentos políticos. Mas por ter ocorrido sem filtros, de forma crua, feia e fétida. Plasticamente ofensiva a todos os nossos sentidos, em resumo.
Tudo, na forma como Kadafi foi abatido, causou engulho. Tivesse o seu corpo sido varado por obra de um improvisado pelotão de fuzilamento, ou mesmo enforcado on-line, como Saddam Hussein cinco anos atrás, a repulsa geral talvez tivesse sido menor. Mas o conjunto da obra, naquela quinta-feira 20 de outubro, esteve vários tons acima do suportável. Difícil foi diferenciar vítima e algozes, naquele chão batido de Sirte. Ademais, o bestial espetáculo adequadamente mal filmado.
Corte para outra execução, ocorrida três semanas antes, no lêmen. O clérigo Anwar al-Awlaki, cidadão americano e principal propagandista em língua inglesa da rede terrorista al-Qaeda, foi pulverizado por um avião não tripulado, que alvejou o comboio em que ele se deslocava. Não teve direito a processo, julgamento, condenação.
A operação foi executada pelo Comando de Operações Especiais dos Estados Unidos (também responsável pela morte de Osama bin Laden em maio passado), em conjunto com a CIA. Operação cirúrgica, silenciosa, invisível – exceto para o secreto grupo de executores, aquartelados a três oceanos e dois continentes de distância.
Coube à jornalista Jane Meyer, em reportagem para a revista “New Yorker”, a primazia de um mergulho no mundo fantástico dos chamados drones, ou Veículos Aéreos Não Tripulados (UAV, sigla em inglês). Meyer assistiu à transmissão em tempo real de imagens que mostravam Baitullah Mehsud, um dos mais procurados terroristas do Talibã. Mehsud estava sendo filmado na casa do sogro, no Paquistão, numa noite de verão de 2009. Mais precisamente na laje da casa, onde podia ser visto reclinado, ao lado da mulher e de um tio médico.
As imagens feitas pela câmera infravermelha de um drone, e captadas a mais de três quilômetros de altitude, eram cristalinas. Em determinado momento via-se o terrorista, que era diabético e estava com o pâncreas arrebentado, receber uma injeção intravenosa. As imagens não tremem um milímetro sequer quando o avião lança dois mísseis Hellfire acionados da sede da CIA. E quando a espessa nuvem de fumaça se dissipa, é possível ver o que restou do terrorista: um torso. Outras 11 pessoas morreram, entre as quais sua mulher, sogro, sogra e onze guarda-costas.
O caso do americano al-Awlaki não foi muito diferente, e com ele morreu um segundo cidadão americano, contra quem não havia qualquer acusação. Ambos foram executados por robôs voadores capazes de encurralar e obliterar o inimigo com um simples apertar de botão à distância. Tudo perfeitamente clínico, cirúrgico, eficiente e invisível. O oposto da barbárie em Sirte.
A estreia dos UAVs no cenário da guerra global ao terrorismo ocorreu pouco depois dos atentados às Torres Gêmeas de 2001. Eram, na época apenas 50 unidades voadoras. Hoje o inventário do Pentágono lista 7 mil dessas aeronaves não tripuladas, numa variedade de formas e tamanhos impressionante. A ponto de a Força Aérea dos Estados Unidos já estar treinando mais pilotos de drones do que pilotos de aviões militares convencionais.
As quase 50 páginas que compõe o memorando secreto autorizando a execução de um cidadão americano, sem julgamento prévio, foram confeccionados um ano atrás e são o resultado de meses de deliberações jurídicas na Casa Branca de Barack Obama.
Embora um decreto presidencial de Obama tenha vetado assassinatos de líderes políticos que não estejam em guerra com os Estados Unidos, ele não proíbe a execução de alvos legítimos em caso de conflito armado.
A conclusão do documento produzido pela Advocacia Geral do Departamento de Justiça é que o clérigo poderia ser legalmente assassinado caso não fosse viável capturá-lo por ele se encontrar em meio a seguidores armados hostis. Ademais, o risco de despachar comandos terrestres para a operação e o risco de um imbróglio diplomático no lêmen acabaram justificando a opção da morte por videogame.
A turba de matadores improvisados de Muamar Kadafi também poderia argumentar que não seria viável mantê-lo vivo depois de capturado por Sirte ainda estar infestada de seguidores armados dispostos a morrer pelo “Irmão Líder”.
Que guerras civis não têm regras nem lei, e abrigam acertos de contas selvagens, é sabido. Por isso são acompanhadas com tanto opróbrio, medo e choque. Encrenca nova é um estado de direito declarar uma guerra sem fronteiras. E em nome dela sair matando inimigos mundo afora. Sem sequer manchar os dedos.

Dorrit Harazim é jornalista

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domingo, 23 de outubro de 2011

Jô Soares fala sobre a Globo

Mais uma contribuição do blog de um jornalista do Jornal do Brasil Davis Sena Filho.
Jô Soares (que parece ter mudado de opinião) fala sobre os bastidores sujos da TV Globo.

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A Líbia, o colonialismo imperialista e as trapaças da imprensa (privada)

Recebi este texto por email e acabei achando a referência dele no blog do seu autor Davis Sena Filho. Não concordo com tudo que o autor aborda em seu texto, mas é de fácil leitura e segue mais ou menos a linha que defendo aqui no blog também. Vale a pena dar uma lida.

Estou a ver o Jornal Nacional da TV Globo. A matéria, de quase cinco minutos, é sobre a Líbia e seu presidente, Muammar Kadafi. Assistir ao JN é a mesma coisa que assistir ao principal jornal da CNN ou da Fox News, ou seja, ter o direito de ouvir e ver matérias totalmente parciais e dedicadas ao establishment internacional ocidental, no que é relativo à defesa dos interesses geopolíticos e de controle das riquezas de países que não são alinhados aos Estados Unidos e à União Européia.
William Bonner e Fátima Bernardes representam bem. Realmente se esforçam para cumprir os compromissos. As palavras que saem de suas bocas crispadas são assertivas e seus olhares são duros tanto quanto as ordens de seu chefe, Ali Kamel, “mentor” ideológico da grande imprensa televisiva nativa e cumpridor de suas obrigações quando se trata de defender os interesses econômicos, financeiros, publicitários e políticos da família Marinho, proprietária de um dos maiores grupos midiáticos do mundo e compromissada até a alma com os interesses do capitalismo mundial — a famosa plutocracia.
Bonner e Bernardes fazem sua parte: a de empregados bem-remunerados que estão ali para dar o recado a quem quer que seja, tanto para o governo brasileiro, bem como àqueles que, de maneira programática, discordam da construção de um Brasil que os magnatas proprietários de mídias cruzadas (rádio, televisão, imprensa impressa, internet e até mesmo o setor fonográfico) querem para eles e para os segmentos sociais e econômicos que eles representam — os ricos e os muito ricos.
Os dois editores-chefes do Jornal Nacional — o nome do diário televisivo não advém do sentimento nacionalista dos Marinho e de seus editores e, sim, porque o extinto Banco Nacional era o principal patrocinador do jornal — só chamam o Kadafi de ditador e dão a entender que a aliança ocidental contra a Líbia é para salvar os líbios de décadas de feroz ditadura, sem, no entanto, explicar o que tem por trás dos interesses de países tão democráticos e civilizados, que, mesmo a ser assim, despejam milhares de bombas nas cidades líbias, sem se preocupar, na verdade, se haverão mortos e feridos.
Nos cinco minutos de notícias que ouço e vejo sobre os bombardeios e as “boas” intenções da França (país que lidera a agressão à Líbia), Inglaterra, Itália e Espanha, com o apoio irrestrito dos EUA e de Israel, William Bonner e Fátima Bernardes se revezam na ladainha que distorce os fatos e tenta manipular a consciência de quem os assiste. Contudo, é necessário satanizar o presidente líbio, que está há 30 anos no poder e se veste, para os padrões ocidentais, de forma excêntrica.
A imprensa comercial e privada somente “esquece” que os EUA e seus asseclas, que são os países europeus que controlam a União Européia, são aliados e cúmplices de ditaduras monárquicas terríveis e inenarráveis tais quais as da Arábia Saudita, do Kwait, do Qatar, dos Emirados Árabes Unidos, além da Jordânia, países que fazem parte da invasão multinacional à Líbia, com o apoio da ONU e da OTAN, órgãos de supremacia e de espoliação internacional controlados por apenas quinze países, sendo que cinco estão a não permitir que outros países façam parte do Conselho de Segurança da ONU.
A Arábia Saudita, por exemplo, invadiu o Bahrein, quando a população daquela ilha saiu às ruas para protestar contra o monarca que governa aquele arquipélago desde 1971. A monarquia saudita, de forma preventiva, resolveu reprimir os protestos antes que eles se alastrassem para o maior exportador de petróleo do mundo, que é a Arábia Saudita. Enquanto isso, o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, o Irã e a Coréia do Norte são, hipocritamente, considerados regimes políticos do mal. E para isso a cooperação da imprensa comercial e privada é primordial.
Eu até entendo o papel dessa imprensa venal. Afinal eu a conheço e por isso sei do que se trata. Todavia, não consigo compreender como uma classe média, média alta (exemplifico a brasileira) entra nessa e repete as mesmas coisas que ouviu ou leu por meio de revistas como a Época, a Veja, além dos jornais televisivos de canais abertos e fechados, bem como de impressos conservadores e direitistas de alto escalão econômico de O Globo, Folha de S. Paulo, Estadão, Zero Hora e Correio Braziliense, somente para ficar nos cinco maiores do País.
Acho realmente incrível como tanta gente, de origem universitária e profissional competente embarca nessa trapaça. Porque informação parcial, manipulada e distorcida e até mentirosa é a mais pura e real trapaça. É o antijornalismo, porque somente um lado tem voz enquanto o outro é totalmente censurado pela imprensa, que luta contra o marco regulatório do setor, mas que defende, com unhas e dentes a liberdade de imprensa e de expressão — só que somente para a voz da imprensa, é claro. Os caras da grande imprensa privada confundem — não sei se é de propósito — liberdade de expressão com liberdade de imprimir. Liberdade de imprimir é apenas um direito industrial e empresarial. É realmente ridículo e lamentável.
Voltemos à Líbia. Esses países monárquicos têm as sociedades mais rígidas do mundo, porque as populações regidas pelos monarcas não tem seus direitos civis garantidos, bem como as mulheres vivem em uma situação de total subordinação social no que é relativo aos direitos de ir e vir, de poder trabalhar, de mostrar o rosto, de votar e até mesmo de dirigir um simples automóvel. São ditaduras aliadas, historicamente, aos europeus ricos e aos EUA. Seus dirigentes políticos freqüentam o pico da pirâmide social mundial e também suas festas no high society. São super-capitalistas, que controlam as bolsas de valores (a jogatina) em âmbito mundial.
Fátima Bernardes e William Bonner não são os únicos a satanizar líderes de países invadidos por potências ocidentais que querem ter acesso às energias como os vampiros querem ter acesso ao sangue humano. Quem tem o controle das diferentes fontes de energia e dos meios de comunicação e informação têm muito poder e é dessa forma que se dão as cartas para controlar as riquezas do planeta. Acontece que o apoio das comunidades, das sociedades em âmbito planetário é essencial para que o processo de pirataria e rapinagem seja efetivado, concretizado, e, conseqüentemente, os governantes dos países ricos ocidentais possam conseguir manter o alto padrão de vida do mundo ocidental branco, à custa de humilhação e da miséria de povos que milenarmente lutam por autodeterminação e independência.
A verdade nua e crua — é importante ressaltar: a invasão à Líbia teve como desculpa a defesa dos direitos humanos. Depois do 11 de setembro, os EUA e seus cúmplices (Israel, Inglaterra, França do direitista Sarkozy, Espanha, Itália, Alemanha e Japão, os dois últimos países ocupados pelos EUA desde 1945) passaram a realizar, a seu bel-prazeres, invasões preventivas e assim passaram a bombardear países que não são alinhados aos ocidentais belicosos e potencialmente inimigos de mandatários que não são associados aos interesses ocidentais. Muammar Kadafi é um ditador, e grande parcela da população quer sua saída. Contudo, a questão discutida nesta tribuna é que os países invasores ocidentais nunca tiveram essa preocupação, apenas usam esse subterfúgio para, enfim, colocar suas mãos nas riquezas líbias, sem ter resistências governamentais como o fazia o presidente líbio.
Desde 2001, os EUA, juntamente com a Inglaterra e Israel, países que são praticamente entes da federação norte-americana, efetivaram um processo draconiano em todo o planeta no que tange à segurança. Para poder invadir, matar e pilhar, os EUA e seus federados utilizam a desculpa esfarrapada “da defesa dos direitos humanos”, atitude essa que eles não seguem e não obedecem. Os estadunidenses violaram direitos humanos básicos. Invalidaram o habeas corpus, seqüestraram pessoas, as prenderam sem acusação formal, torturam e seu governo, na pessoa de George Walker Bush, defendeu essas ações e condutas em público.
Bush e seus falcões (aves de rapinas) afirmaram, sem ao menos ficar com os rostos vermelhos, que a tortura acontecida, por exemplo, nas masmorras de Guantânamo e Albugray era legítima, portanto necessária. Eles rasgaram todas as leis internacionais de direitos humanos e deram uma banana para a humanidade, que lutou séculos e séculos para conquistar esses avanços sociais e do direito à vida. Isto tudo, como não poderia deixar de ser, com a cumplicidade e a subserviência da grande imprensa comercial e privada, que, inclusive, autocensurou-se, como o fizeram a Fox News e a CNN, somente para exemplificar estas.
O País, um dos precursores da democracia e dos direitos humanos passou a defender a barbárie por meio dos fundamentalistas cristãos e do mercado, que são os pais da formulação e da efetivação do neoliberalismo no mundo, por intermédio do Consenso de Washington de 1989. O neoliberalismo fracassou pois derreteu, como sorvete em asfalto quente. Mas a geopolítica dos europeus e dos yankees continuou com o neoliberalismo bélico e por causa desse tenebroso processo a Líbia é no momento a bola da vez.
Ao contrário do que apregoa a imprensa privada, a Líbia, em termos africanos, tem Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elevado. Em 2010, seu IDH era 0,755. Por sua vez, 84% da população é alfabetizada. A esperança de vida é alta, pois os líbios vivem em média 74 anos. O Produto Interno Bruto (PIB) em 2009 era de US$ 62,4 bilhões. Além do mais, o PIB per capita era de US$ 9.750. O governo líbio promoveu ainda uma reforma agrária que deu dez hectares, trator e implementos agrícolas a cada família. Como se observa, a Grande República Socialista Popular Árabe da Líbia, como o nome explicita, é país socialista. Esta é a questão. O Iraque, de Saddan Hussen, também tinha uma realidade política e ideológica parecida com a da Líbia. Saddan, inclusive, era aliado dos EUA e do ocidente, quando, equivocadamente, entrou em guerra com o seu vizinho Irã. Mas esta é outra história, também manipulada pela grande imprensa e pelos governos colonialistas ocidentais.
A Líbia é, por enquanto, um país socialista, com característica política e cultural árabe. Com quase sete milhões de habitantes, esse país do norte da África é a maior potência petrolífera do continente africano. O país de Kadafi supera a Argélia e a Nigéria e tem, em seu solo, 46,5 bilhões de barris. São reservas, indelevelmente, comprovadas. É muita riqueza. O Egito, que é considerado um país muçulmano moderado e visto como uma potência africana e obediente aos EUA tem reservas dez vezes menores do que as da Líbia. Com esses números e com essas realidades, caro leitor, torna-se possível compreender a invasão da Líbia pelos bárbaros da Europa, com a aquiescência e cumplicidade dos bárbaros do norte das Américas. Nada é à toa, apesar da imprensa e de seus editores-chefes e dos barõe, que dão ordens a eles..
O motivo verdadeiro da invasão é este: o presidente Muammar Kadafi avisou às petroleiras internacionais (francesas, italianas, inglesas, alemãs e estadunidenses) que a moleza iria acabar, e que resolveu negociar novos contratos com os Brics (Brasil, Rússia, índia e China. A África do Sul vai ser país membro, mas ainda não assinou o protocolo de ingresso). Negociar com os Brics todo mundo quer, até os ricos, porque é a nova potência emergente em escala mundial, além de serem países que não estão a sofrer com a crise mundial. Pelo contrário, esses países têm mercados internos poderosíssimos, que, inclusive, foram responsáveis por inclusão social de seus povos, bem como importadores de produtos dos países ricos ocidentais, que puderam, por causa disso, amenizar suas perdas e prejuízos. Só os “especialistas” de prateleira da Globo News e do Instituto Millenium não perceberam essa insofismável realidade, de propósito e má-fé, evidentemente. Por isso que o presidente Lula foi à televisão e mandou o povo brasileiro comprar. E parte da imprensa, sempre irresponsável e ideológica, o criticou, ainda mais quando o presidente trabalhista disse que a crise no Brasil seria uma marolinha. E foi.
A invasão do país de Kadafi não tem princípios humanitários como quer fazer crer a imprensa comercial e privada, com o objetivo de “validar” e “legalizar” o massacre do povo Líbio pelas forças estrangeiras imperialistas, que apóiam grupos líbios armados que são chamados pelos jornalistas ocidentais comprometidos com o establishment de rebeldes, quando na verdade são traidores do país onde nasceram. Nunca vi rebeldes ter canhões, tanques e mísseis de longo alcance. Nunquinha. Só faltava ter aviões. Aí seria demais. Imagina. Como os nossos Bonner e Bernardes iriam explicar aos incautos tanta desfaçatez e manipulação das mídias para “legalizar” a invasão militar a um país que era o mais desenvolvido da África, juntamente com a África do Sul. Nem o avião tucano do Jornal Nacional conseguira convencer o público, aquele que ainda crê nesse tipo de jornalismo.
O povo da Líbia tinha acesso ao ensino público, à saúde e à casa própria de forma gratuita. Os recém-casados recebiam ajuda pecuniária do governo, além de uma casa para morar. Quando o mundo ocidental o chama de ditador, na verdade esse mundo é cúmplice de dezenas e dezenas de ditadores, que são considerados, de acordo com os interesses de momento, do “bem” ou do “mal”. Os EUA fomentaram um golpe militar no Brasil, e muitos brasileiros apoiaram a derrubada de João Goulart, um presidente constitucional, pois eleito pelo povo. Se o Brasil, por intermédio do Itamaraty, apoiasse a resolução 1.973 da ONU que permite a invasão da Líbia, como depois os governos brasileiros iriam ter moral se, por exemplo, os países colonialistas piratas resolvessem abocanhar o pré-sal? Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem contigo. Não é isso?

Davis Sena Filho

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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Pensando o ódio

O Ódio no Brasil – Leandro Karnal from cpfl cultura on Vimeo.



Uma das melhores palestras que já vi, levando-se em conta que Karnal não utiliza nenhum elemento visual. Vale a pena assistir.

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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Origem de alguns ditados populares

Fonte


MOTORISTA BARBEIRO:
- Nossa, que cara mais barbeiro!
No século XIX, os barbeiros faziam não somente os serviços de corte de cabelo e barba, mas também, tiravam dentes, cortavam calos, etc, e por não serem profissionais, seus serviços mal feitos geravam marcas. A partir daí, desde o século XV, todo serviço mal feito era atribuído ao barbeiro, pela expressão “coisa de barbeiro”. Esse termo veio de Portugal, contudo a associação de “motorista barbeiro”, ou seja, um mau motorista, é tipicamente brasileira.

TIRAR O CAVALO DA CHUVA:
- Pode ir tirando seu cavalinho da chuva porque não vou deixar você sair hoje!
No século XIX, quando uma visita iria ser breve, ela deixava o cavalo ao relento em frente à casa do anfitrião e se fosse demorar, colocava o cavalo nos fundos da casa, em um lugar protegido da chuva e do sol. Contudo, o convidado só poderia pôr o animal protegido da chuva se o anfitrião percebesse que a visita estava boa e dissesse: “pode tirar o cavalo da chuva”. Depois disso, a expressão passou a significar a desistência de alguma coisa.

GUARDAR A SETE CHAVES:
No século XIII, os reis de Portugal adotavam um sistema de arquivamento de jóias e documentos importantes da corte através de um baú que possuía quatro fechaduras, sendo que cada chave era distribuída a um alto funcionário do reino. Portanto eram apenas quatro chaves. O número sete passou a ser utilizado devido ao valor místico atribuído a ele, desde a época das religiões primitivas. A partir daí começou-se a utilizar o termo “guardar a sete chaves” pra designar algo muito bem guardado.

ONDE JUDAS PERDEU AS BOTAS:
Existe uma história não comprovada, de que após trair Jesus, Judas enforcou-se em uma árvore sem nada nos pés, já que havia posto o dinheiro que ganhou por entregar Jesus dentro de suas botas. Quando os soldados viram que Judas estava sem as botas, saíram em busca delas e do dinheiro da traição. Nunca ninguém ficou sabendo se acharam as botas de Judas. A partir daí surgiu à expressão, usada pra designar um lugar distante, desconhecido e inacessível.

À BEÇA:
- O mesmo que abundantemente, com fartura, de maneira copiosa. A origem do dito é atribuída às qualidades de argumentador do jurista alagoano Gumercindo Bessa, advogado dos acreanos que não queriam que o Território do Acre fosse incorporado ao Estado do Amazonas.

DAR COM OS BURROS N’ÁGUA:
A expressão surgiu no período do Brasil colonial, onde tropeiros que escoavam a produção de ouro, cacau e café, precisavam ir da região Sul à Sudeste sobre burros e mulas. O fato era que muitas vezes esses burros, devido à falta de estradas adequadas, passavam por caminhos muito difíceis e regiões alagadas, onde os burros morriam afogados. Daí em diante o termo passou a ser usado pra se referir a alguém que faz um grande esforço pra conseguir algum feito e não consegue ter sucesso naquilo.

OK:
A expressão inglesa “OK” (okay), que é mundialmente conhecida pra significar algo que está tudo bem, teve sua origem na Guerra da Secessão, no EUA. Durante a guerra, quando os soldados voltavam pras bases sem nenhuma morte entre a tropa, escreviam numa placa “0 Killed” (nenhum morto), expressando sua grande satisfação, daí surgiu o termo “OK”.

PENSANDO NA MORTE DA BEZERRA:
A história mais aceitável pra explicar a origem do termo é proveniente das tradições hebraicas, onde os bezerros eram sacrificados pra Deus como forma de redenção de pecados. Um filho do rei Absalão tinha grande apego a uma bezerra que foi sacrificada. Assim, após o animal morrer, ele ficou se lamentando e pensando na morte da bezerra. Após alguns meses o garoto morreu.

PRA INGLÊS VER:
A expressão surgiu por volta de 1830, quando a Inglaterra exigiu que o Brasil aprovasse leis que impedissem o tráfico de escravos. No entanto, todos sabiam que essas leis não seriam cumpridas, assim, essas leis eram criadas apenas “pra inglês ver”. Daí surgiu o termo.

RASGAR SEDA:
A expressão que é utilizada quando alguém elogia grandemente outra pessoa, surgiu através da peça de teatro do teatrólogo Luís Carlos Martins Pena. Na peça, um vendedor de tecidos usa o pretexto de sua profissão pra cortejar uma moça e começa a elogiar exageradamente sua beleza, até que a moça percebe a intenção do rapaz e diz: “Não rasgue a seda, que se esfiapa”.

O PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER VER:
Em 1647, em Nimes, na França, na universidade local, o doutor Vicent de Paul D`Argenrt fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel. Foi um sucesso da medicina da época, menos pra Angel, que assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via. Disse que o mundo que ele imagina era muito melhor. Pediu ao cirurgião que arrancasse seus olhos. O caso foi acabar no tribunal de Paris e no Vaticano. Angel ganhou a causa e entrou pra história como o cego que não quis ver.

ANDAR À TOA:
Toa é a corda com que uma embarcação reboca a outra. Um navio que está à toa é o que não tem leme nem rumo, indo pra onde o navio que o reboca determinar.

QUEM NÃO TEM CÃO CAÇA COM GATO:
Na verdade, a expressão, com o passar dos anos, se adulterou. Inicialmente se dizia quem não tem cão caça como gato, ou seja, se esgueirando, astutamente, traiçoeiramente, como fazem os gatos.

DA PÁ VIRADA:
A origem do ditado é em relação ao instrumento, a pá. Quando a pá está virada pra baixo, voltada pro solo, está inútil, abandonada decorrentemente pelo Homem vagabundo, irresponsável, parasita.

NHENHENHÉM:
Nheë, em tupi, quer dizer falar. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, os indígenas não entendiam aquela falação estranha e diziam que os portugueses ficavam a dizer “nhen-nhen-nhen”.

VAI TOMAR BANHO:
Em “Casa Grande & Senzala”, Gilberto Freyre analisa os hábitos de higiene dos índios versus os do colonizador português. Depois das Cruzadas, como corolário dos contatos comerciais, o europeu se contagiou de sífilis e de outras doenças transmissíveis e desenvolveu medo ao banho e horror à nudez, o que muito agradou à Igreja. Ora, o índio não conhecia a sífilis e se lavava da cabeça aos pés nos banhos de rio, além de usar folhas de árvore pra limpar os bebês e lavar no rio as redes nas quais dormiam. Ora, o cheiro exalado pelo corpo dos portugueses, abafado em roupas que não eram trocadas com freqüência e raramente lavadas, aliado à falta de banho, causava repugnância aos índios. Então os índios, quando estavam fartos de receber ordens dos portugueses, mandavam que fossem “tomar banho”.

A DAR COM O PAU:
O substantivo “pau” figura em várias expressões brasileiras. Esta expressão teve origem nos navios negreiros. Os negros capturados preferiam morrer durante a travessia e, pra isso, deixavam de comer. Então, criou-se o “pau de comer” que era atravessado na boca dos escravos e os marinheiros jogavam sapa e angu pro estômago dos infelizes, a dar com o pau. O povo incorporou a expressão.

ELES QUE SÃO BRANCOS QUE SE ENTENDAM:
Esta foi das primeiras punições impostas aos racistas, ainda no século XVIII. Um mulato, capitão de regimento, teve uma discussão com um de seus comandados e queixou-se a seu superior, um oficial português. O capitão reivindicava a punição do soldado que o desrespeitara. Como resposta, ouviu do português a seguinte frase: “Vocês que são pardos, que se entendam”. O oficial ficou indignado e recorreu à instância superior, na pessoa de dom Luís de Vasconcelos (1742-1807), 12° vice-rei do Brasil. Ao tomar conhecimento dos fatos, dom Luís mandou prender o oficial português que estranhou a atitude do vice-rei. Mas, dom Luís se explicou: Nós somos brancos, cá nos entendemos.

ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA, TANTO BATE ATÉ QUE FURA:
Um de seus primeiros registros literário foi feito pelo escritor latino Ovídio (43 a.C.-18 d.C), autor de célebres livros como A arte de amar e Metamorfoses, que foi exilado sem que soubesse o motivo. Escreveu o poeta: “A água mole cava a pedra dura”. É tradição das culturas dos países em que a escrita não é muito difundida formar rimas nesse tipo de frase pra que sua memorização seja facilitada. Foi o que fizeram com o provérbio portugueses e brasileiros.

JURO DE PÉS JUNTOS:
- Mãe, eu juro de pés juntos que não fui eu.
A expressão surgiu através das torturas executadas pela Santa Inquisição, as quais o acusado de heresias tinha as mãos e os pés amarrados (juntos) e era torturado pra dizer nada além da verdade. Até hoje o termo é usado pra expressar a veracidade de algo que uma pessoa diz.

CASA DE MÃE JOANA
Significado: Onde vale tudo, todo mundo pode entrar, mandar, etc.
Histórico: Esta vem da Itália. Joana, rainha de Nápoles e condessa de Provença (1326-1382), liberou os bordéis em Avignon, onde estava refugiada, e mandou escrever nos estatutos: “que tenha uma porta por onde todos entrarão”. O lugar ficou conhecido como Paço de Mãe Joana, em Portugal. Ao vir para o
Brasil a expressão vivou “Casa da Mãe Joana”. A outra expressão envolvendo Mãe Joana, um tanto chula, tem a mesma origem, naturalmente.

SEM EIRA NEM BEIRA
O cidadão não tem eira nem beira. Isso quer dizer que o indivíduo está sem dinheiro, desapercebido.
Pois eira, na verdade, tratava-se de um detalhe no acabamento dos telhados de antigamente.
Possuir a eira e a beira era sinal de riqueza e de cultura. Os tempos passaram, no entanto sempre os homens buscam revelar sinais externos de poder e riqueza. É claro que hoje os acabamentos nos telhados não significam muito. Talvez o maior sinal exterior de riqueza seja o automóvel. Se for um importado, está com tudo em cima. Se for uma brasília, bom, aí o cara está sem eira nem beira.

CHEGAR DE MÃOS ABANANDO
Os imigrantes, no século passado, deveriam trazer as ferramentas para o trabalho na terra. Aqueles que chegassem sem elas, ou seja, de mãos abanando, davam um indicativo de que não vinham dispostos ao trabalho árduo da terra virgem. Portanto, chagar de mãos abanando é não carregar nada. Ele chegou de mãos abanando ao aniversário. Significa que não trouxe presente ao pobre aniversariante, que terá de se satisfazer apenas com a presença do amigo.

VÁ SE QUEIXAR AO BISPO
No tempo do Brasil colônia, por causa da necessidade de povoar as novas terras, a fertilidade na mulher era um predicado fundamental. Em função disso, elas eram autorizadas pela igreja a transar antes do casamento, única maneira de o noivo verificar se elas eram realmente férteis. Ocorre que muitos noivinhos fugiam depois do negócio feito. As mulheres iam queixar-se ao bispo, que mandava homens atrás do fujão.

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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O desencanto mora na sala de aula

Alunos das escolas públicas têm mais vontade de aprender do que os colegas da rede privada. Falta de empenho está ligada à pressão por resultados

por CECÍLIA LOPES/MARTA AVANCINI

Fonte: http://www.revistadarcy.unb.br/



Escola colorida, computador na sala de aula e cadeira confortável não são determinantes para que crianças e adolescentes tenham vontade de estudar. Pesquisa da Universidade de Brasília mostra que os alunos da rede pública, acostumados com instalações precárias, possuem mais motivação para aprender do que os estudantes de instituições privadas, onde a infraestrutura impecável é parte do valor cobrado nas mensalidades.

a conclusão que desafia estereótipos está em pesquisa de mestrado defendida pela pedagoga Mônica Cavalcanti. Ala investigou a percepção de 222 alunos do distrito Federal

- 135 de colégios públicos e 87 de escolas privadas - do 5º ano do ensino fundamental. Ao analisar as respostas, percebeu que os alunos das escolas públicas possuem mais "motivação intrínseca" para se dedicarem aos livros.

a "motivação intrínseca" é a vontade de aprender propriamente dita, o gosto pelo conhecimento.

Um estudante com alto nível de motivação intrínseca é aquele que se diverte resolvendo problemas de matemática ou que frequenta a biblioteca da escola por prazer.

O resultado surpreendeu até a autora. Ela acreditava que a infraestrutura das escolas particulares elevaria a motivação dos alunos. "O estudo mostra que o gosto pelo conhecimento está relacionado com a maneira com que as crianças são educadas pela família e com as situações de estímulo propiciadas pela escola", afirma Mônica.

A "motivação extrínseca", o desejo de receber um elogio, um presente ou qualquer outro tipo de reconhecimento, também foi avaliada na pesquisa. Mas nesse caso os níveis de motivação dos dois grupos não apresentaram diferenças significativas.



Falta de interesse

A falta de interesse pela escola está presente em situações cotidianas. as professoras contam que estudantes de colégios particulares chegam a culpar as empregadas quando esquecem o material didático ou as tarefas pedidas pelos professores. "Eles têm dificuldades em lidar com responsabilidades, estão acostumados a serem servidos", declara Nancy de Fátima silva, assessora do Núcleo Psicopedagógico do 2° ao 5° ano do Colégio marista, também professora da rede pública.

A proteção dos pais acaba inibindo a motivação dos estudantes da rede particular. "Eles sabem que vão ter tudo. São meninos e meninas que não precisam sequer sentir vontades", relata a professora Kátia Regina Pereira, que leciona no colégio marista de Brasília e também na rede pública do DF.

Amábile Pacios, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe/DF) e dona da escola Dromus, concorda: "eles não precisam correr atrás de nada, são crianças e adolescentes que têm tudo na mão." Na escola pública, o cenário que precisa ser enfrentado é outro: a ausência familiar. Os pais se envolvem pouco no cotidiano da escola e, muitas vezes, não se organizam para cobrar qualidade de ensino.

A pesquisa também investigou a percepção dos estudantes sobre o clima de criatividade em sala de aula. E aqui, de novo, as escolas públicas bateram as particulares. Os estudantes da rede pública consideram suas classes mais criativas e possuem uma percepção mais positiva de sua autonomia e do estímulo que recebem para a produção e expressão de ideias.

A presidente do Sinepe acredita que isso acontece porque a rede privada está focada na grade curricular. Os professores são pressionados para cumprir o currículo, o que os afasta de aulas improvisadas. Já na escola pública, a flexibilidade é maior.

A autora do estudo concorda: "Os colégios privados enfatizam o conteúdo em detrimento do estímulo à motivação e à criatividade". Para Mônica, a expectativa dos pais e alunos é a aprovação em concursos ou vestibulares, por isso a pressão por resultados.

Cristiano Muniz, professor da Faculdade de Educação da UnB, explica que as escolas privadas sacrificam o lado lúdico do aprendizado porque estão mais preocupadas com o desempenho dos estudantes. "O modelo de educação está provocando um desinteresse generalizado. É preciso buscar alternativas".



Lições de motivação

A boa notícia é que a motivação intrínseca pode ser desenvolvida por meio de um ambiente criativo e de relações que despertem o interesse de aprender, um processo em que o papel do professor é fundamental. "A motivação intrínseca para aprender não é inata" explica Denise Fleith, professora do Instituto de Psicologia da UnB e orientadora de Mônica. "As teorias e estudos mais recentes articulam criatividade e motivação. É uma via de mão dupla", afirma Denise.

A pesquisadora Evely Burochovitch, da Faculdade de Educação da Universidade de Campinas (Unicamp), destaca que as estratégias didáticas do professor são determinantes para desenvolver o desejo de aprender no aluno. Evely sugere dar um retorno correto e informativo aos estudantes, dosar o grau de dificuldade das tarefas e fazer com que eles se sintam capazes.

Um clima acolhedor em sala de aula também ajuda a despertar o sentimento de pertencimento nos alunos e a vontade de aprender.

"As escolas públicas pesquisadas são estimulantes", analisa Mônica. "elas possuem um ambiente favorável ao desenvolvimento do aluno, que se sente protegido e ouvido", continua a pesquisadora. São, em síntese, escolas onde as crianças se sentem valorizadas.

A coordenadora do grupo de estudos e Pesquisas em Psicologia na educação da UnB, Teresa Cristina Siqueira Cerqueira, chama atenção para outro aspecto relacionado à formação do professor: o planejamento. "A aula deve ser clara, e a maneira como os conteúdos são apresentadas deve despertar o interesse do aluno, o que requer organização e preparação prévia", explica.



Baixo desempenho

Na hora de checar o boletim, a pesquisa reforçou o que já era sabido. As escolas públicas ainda estão atrás das particulares. Submetidos a testes de Português e Matemática, os estudantes da rede privada obtiveram notas maiores do que seus colegas da rede pública. Em escrita, 46% dos estudantes das instituições particulares obtiveram as melhores pontuações contra 20% das públicas, e em aritmética, 47% da rede privada, contra 24,4% da pública. No fim das contas, o desafio continua sendo conjugar criatividade, motivação e resultado.



A BOA NOTÍCIA É QUE A MOTIVAÇÃO PODE SER DESENVOLVIDA EM UM AMBIENTE CRIATIVO, QUE INCENTIVA A AUTONOMIA DOS ESTUDANTES



Ensinando professores

Na escola Classe 304 Norte, a liberdade criativa estimula o desempenho dos alunos. A escola recebeu 6,6 no Índice de desenvolvimento da educação básica em 2009, o que a coloca entre as dez melhores escolas do DF.

Os alunos da 304 Norte participam ativamente do trabalho pedagógico. Os estudantes opinam sobre os temas que serão desenvolvidos em classe. "Eles dizem se querem estudar sobre dinossauros ou sobre plantas. A partir daí trabalhamos os conteúdos previstos no currículo", conta a diretora da escola, Roberta Farage.

A 304 Norte também é um laboratório para o desenvolvimento de novas práticas pedagógicas. O projeto Reeducação Matemática existe há seis anos e tenta desmistificar uma das disciplinas mais temidas pelos estudantes. "Tentamos fortalecer a autonomia do aluno, por meio de uma relação menos desigual entre docentes e estudantes", explica Cristiano Muniz, professor da Faculdade de educação da UnB que coordena o projeto.

A metodologia consiste em respeitar as maneiras alternativas que os estudantes encontram para solucionar problemas matemáticos. "Os professores não devem exigir que os alunos dêem as respostas da maneira como eles acham corretas", defende. "Eles devem refletir se a nossas fórmulas são capazes de preparar as crianças de hoje para as situações e os problemas do futuro".



Conheça a Metodologia da Pesquisa

O trabalho de mestrado comparou a rede pública e a particular com base nos seguintes instrumentos de avaliação:



Ascala de Avaliação da Motivação para Aprender

Elaborada por Edna Neves e por Evely Boruchovitch em 2007, a escala é composta por 31 itens que investigam a vontade dos alunos em estudar e aprender e suas alegações para se dedicarem, ou não, aos estudos. A motivação intrínseca é avaliada por 17 itens, e a extrínseca por 14. O estudante poderá responder: sempre, às vezes ou nunca.



Teste Clima para a Criatividade em Sala de Aula

Desenvolvida por Denise Fleith e por Eunice Alencar em 2005, é composta por 22 itens que identificam a percepção dos alunos de 4º e 5º ano do ensino fundamental em relação a cinco fatores que podem favorecer, ou não, o desenvolvimento e a expressão da criatividade em sala de aula. São eles: suporte da professora à expressão de ideias dos alunos, autopercepção do aluno com relação à criatividade, interesse do aluno pela aprendizagem, autonomia do aluno e estímulo da professora à produção de ideias do aluno. Dentro de cada fator existem itens relativos à questão. O estudante poderá responder: nunca, poucas vezes, algumas vezes, muitas vezes e sempre.



Teste de Desempenho Escolar

Desenvolvido por Lilian milnitsky Stein em 1994, o exame mede as capacidades fundamentais em escrita e aritmética do 2º ao 7º ano do ensino fundamental. A avaliação de escrita é composta por 45 palavras que foram ditadas em ordem crescente de dificuldade ortográfica. O teste de aritmética é composto por 38 itens subdivididos em parte oral, relacionada a cálculos mentais de adição e subtração; e parte escrita, constituída de operações fundamentais e cálculos matemáticos em ordem crescente de dificuldade. Todos os conteúdos correspondem aos ministrados do 1º ao 7 º ano do ensino fundamental.



Que é a pesquisadora: Mônica Cavalcanti é graduada em Pedagogia pela Universidade de Brasília. Tem pós-graduação lato sensu em Psicopedagogia pela Universidade Gama Filho e mestrado em Desenvolvimento Humano e Educação pelo Instituto de Psicologia da UnB. Trabalha na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEDF) como coordenadora do Programa de Atendimento ao Estudante com Altas Habilidades/Superdotação (AEE-AH/SD).

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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Para que servem as avaliações de alunos e professores?

Sentido das provas no Brasil ainda é questionável.
Exames deveriam ajudar a melhorar o ensino e o aprendizado.




Uma questão que parece não ter uma resposta clara é para que serve uma avaliação. Ao menos na área da educação formal. Avaliar é um recurso que é usado constantemente, até para decidirmos a roupa que será usada em determinado dia. Por alguns critérios, como temperatura e tipo de compromisso, optamos por uma vestimenta ou outra. Isso, para que as coisas tenham chance de funcionar de maneira mais certeira.

Na escola, a prova sempre foi um instrumento usado para se decidir quanto um aluno aprendeu: determina-se com ela o valor da aprendizagem. E muitas vezes para por aí. Informa-se o aluno se ele sabe muito, o suficiente, pouco ou nada – tendo ele que se virar sozinho (ou com apoio da família) para mudar a situação caso ela não ande bem. Em alguns casos, não vai além de colocá-lo no lugar daquele que não aprende mesmo. Para os que vão bem, a recompensa é a nota.

E as avaliações têm continuado: Prova Brasil, Enem, Saresp e outras mais que vão surgindo e avaliam o aluno. Agora, alguns estados brasileiros têm usado as notas dessas provas para avaliarem também os professores. Incluíram outros critérios como número de faltas dos docentes, aprovação dos alunos, o nível socioeconômico e outros. Cada estado acaba usando os seus próprios.

Para os professores que se saem bem, há um reconhecimento bastante significativo em todos os estados. E merecido, diga-se de passagem – algum tipo de bônus financeiro. Significativo e merecido por ser uma classe, o professor da rede pública, que ganha mal e com péssimas condições de trabalho.

Aqui há um problema – o professor que é selecionado, responde a uma coordenação, direção, delegacia de ensino, secretaria de educação etc... só tem um salário melhor se provar que ensina bem. A lógica deveria ser diferente: o professor deve ter um salário suficiente para que possa exercer seu trabalho de formação de pessoas em condições dignas (espacial, de segurança etc), atualizar-se, informar-se e se sustentar. Sendo orientado (como em qualquer trabalho) pelas diversas instâncias que existem. Para aí sim ser avaliado e cobrado naquilo que vai mal.

E assim como com os alunos que tiram notas ruins, com os professores nessas condições não acontece nada. Ou melhor, deixam de ganhar o bônus extra.

Parece que com a educação no Brasil não vale a ideia de se aprender com a experiência. Querem fazer com os professores o mesmo que com seus alunos, mantendo o estado das coisas, ou seja, educação pública de baixa qualidade. E cada um que corra atrás de seu prejuízo.

Ainda não sei para que servem essas avaliações em nosso país. Há investimentos que não resultam em melhorias. Para os que vão bem – ótimo, para os outros...

Está na hora de fazer acontecer nesse setor do país. Que se tem que avaliar alunos e professores, não há dúvida. Mas com a finalidade de se tomar conhecimento sobre as necessidades reais para que todos possam aprender e ensinar em condições dignas.

Isso não quer dizer métodos milagrosos e que deem conta de todos: alunos e professores. Mas que ambos sejam responsáveis naquilo que lhe dizem respeito, com a possibilidade de agirem como seres pensantes e não meros reprodutores de uma ideologia falida.

Para isso, se faz necessária uma ação real do governo, que ele realmente use dessas avaliações para saber onde é preciso melhorar na educação, para que as coisas aconteçam concretamente, com sua direção e valorização do setor, e não por conta de cada um. Só assim ocorrerá uma mudança.

Afinal, deveria ser para isso que existe a avaliação.

(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)

Fonte: G1 - Globo.com

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