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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Peça de teatro - Sobreviventes

Aos alunos do Delce Horta e todos aqueles que se interessarem em encenar...



CENÁRIO
         Apenas um banco estará presente em cena. O vazio e a penumbra do ambiente devem provocar a sensação de luto e concentrar as atenções para as personagens. A iluminação deve ser feita apenas por um spot.

PRÓLOGO
         A cortina se abre e no palco está o narrador. Ele deve fazer a ponte entre o presente e o passado, deixando claro o objetivo da peça. Sua voz deve ser firme e forte, transmitindo toda a emoção que marca o espetáculo.

Narrador: No início deste ano de 2015, o jornal francês Charlie Hebdo sofreu um ataque covarde que matou 8 jornalistas em sua sede, em Paris, além de outras pessoas, um atentado que chocou o mundo. O que os matou se resume em uma palavra – INTOLERÂNCIA. Sim, isso tirou a vida deles. O “crime” cometido foi usar a liberdade de expressão para fazer charges em referência à religião islâmica, assim como faziam com tudo e todos. Alguns extremistas decidiram que deveriam dar um basta, impor respeito, ou medo, talvez, afim de evitar novos desenhos.
Eu e o mundo perguntamos como um simples desenho é capaz de gerar tanto ódio.
Nas manifestações em repúdio a este ataque, nas ruas e nas redes sociais, este foi o cartaz que mais se viu [mostrar a placa com os dizeres: Je suis Charlie]. Quer dizer: eu sou Charlie, em francês. Todas essas pessoas queriam dizer que elas tomavam partido do jornal, defendendo a liberdade de expressão e condenando a intolerância demonstrada com as mortes.
O ódio que marca o que acabei de falar é recorrente na História. Poderíamos citar inúmeros fatos em que a humanidade se viu diante de uma grande brutalidade. Alguma pode se equiparar, mas dificilmente será maior do que aquilo que você vai assistir agora.
Serão 4 histórias de vida, morte e renascimento. E vocês sairão daqui com uma missão.


 ATO 1
Uma música começa a tocar. A cortina está fechada e se abre lentamente. As personagens estão atrás de uma divisão no palco. Deverão estar vestidos de preto. A música diminui até não se ouvir. Ainda sem entrar no palco as personagens começam a falar.

Ester: No início da década de 1930, o nazismo tomava conta de um país arrasado pela primeira grande guerra e pela Crise de 29.

Rute: Os judeus foram considerados culpados pela situação difícil.

Rebeca: A Alemanha estava fragilizada, e o discurso de Hitler conquistou o apoio necessário para chegar ao poder.

Aleksander: E o ódio nazista estimulava a perseguição aos judeus. Sabem o resultado disso?

Ester: 6 milhões!

Rute: 6 milhões de judeus!

Rebeca: 6 milhões de judeus foram assassinados!

Aleksander: 6 milhões de judeus foram assassinados pelos nazistas.


ATO 2
            Novamente uma música é ouvida. A primeira personagem entra no palco através de uma abertura no pano que o divide. A música diminui até parar. Nesta primeira parte, todas as 3 alunas entrarão juntas no palco e cada uma contará uma parte da história da Ester.

A primeira aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Ester 1: Meu nome é Ester. Sou austríaca e judia. Eu tinha mais ou menos 30 anos quando o nazismo conquistou o poder na vizinha Alemanha. Nesta época eu já era professora, profissão que me formei desde o 18 anos. Quando era pequena me lembro de brincar no quadro negro com as outras crianças. Sempre gostei muito de estudar. Cresci sabendo que ensinar era a minha vida. [satisfação no rosto, orgulho] Achava que a educação era o bem mais precioso que uma pessoa podia ter. Ninguém tira um conhecimento de você, nós carregamos a vida toda o que aprendemos.

Meus pais eram muito bons comigo. Eles já estavam perto da casa dos 60 anos. Deus sempre nos ajudou e possuíamos uma boa condição de vida. O mesmo acontecia com o restante da família.

Eu era a única mulher entre os filhos. Confesso que era um pouco mimada [esboça um sorriso] Meus quatro irmãos sentiam ciúmes de mim. Coisa de irmão que se sente rejeitado. Acho que acontece em todas as famílias. Mal sabiam eles que iríamos passar por uma rejeição mil vezes pior.

A primeira aluna volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
A segunda aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Ester 2: Pela minha profissão, eu já tinha conhecimento sobre o nazismo, sabia das suas ideias e sempre alertei a minha família quanto aos seus perigos. Meus pais tinham muitas riquezas no país e não aceitavam sair de lá. Acabei ficando também. Mas sempre falava que um dia a situação iria ficar séria para o nosso lado, que o Hitler era antissemita, não gostava dos judeus. Ninguém achava que ele teria coragem de fazer o que fez. [fisionomia fica bem séria]
Lembro que as coisas aconteciam muito rápido. Parece que as pessoas foram hipnotizadas. Começou toda aquela discussão de raça ariana. Os povos germânicos, como os alemães, eram considerados de uma raça superior. Diziam, repetindo Hitler, que a Alemanha deveria formar um império com os povos de raça pura. As raças inferiores deveriam ser exterminadas para não contaminar as gerações arianas. [fica nervosa, balança a cabeça negativamente]
E mesmo eu sendo austríaca, o mesmo país de Hitler, era colocada no mesmo grupo das aberrações, já que eu era judia. Vejam só [continua a discordar com a cabeça]... aberração! Como pode o fato de eu ser judia significar que sou inferior? De onde é que estes loucos tiram estas ideias? Somos todos de uma só raça – a raça humana. Todas as outras diferenças entre nós são culturais. Qual é a diferença entre uma pessoa com cabelo e outra careca? Qual é a diferença entre um alto e um baixinho? Não há nada que possa comprovar a superioridade de um ou de outro. [pequena pausa] Aberração! Aberração são os que pensam desta maneira.
Ah, meu povo! [olha para o nada, desiludida] Fomos perseguidos durante séculos. Não merecíamos! Quantas gerações deixaram de nascer por causa do ódio. Pra que tanto ódio? Até que ponto o ser humano é capaz de chegar!
Quando o Hitler anexou meu país, começou a surgir um monte de leis. Fui proibida de dar aulas, cassaram o meu diploma de professora. Tiraram o que havia de mais importante na minha vida. Diziam que uma judia não tinha nada a ensinar ao povo alemão. Perdi a minha profissão! O que eu faria dali em diante?
Uma outra lei proibia o relacionamento entre alemães e judeus. A justificativa? Não se podia permitir que filhos impuros nascessem. Somente pais arianos poderiam gerar filhos arianos. [olhar saudoso] Eu lembro que tinha um vizinho alemão, muito bonito, que eu era apaixonada. Ele retribuía alguns sorrisos. Não sei se gostava de mim. Mas minhas esperanças terminaram nesta época. Se fossemos pegos namorando, nós dois seríamos presos. Um absurdo!
Os nazistas também passaram a nos obrigar a somente andar nas ruas identificados como judeus. Uma estrela de Davi tinha que ser colocada como braçadeiras em nossas roupas. [passa a mão pelo braço] Quando passava algum soldado nazista na calçada que estávamos, éramos obrigados a passar pela rua.
E como os soldados gostavam de maltratar os judeus! Um dia, estava passando numa rua com dois primos e meu irmão. Quando os soldados nos viram, começaram a nos arrastar para o meio da rua... nisso juntou um monte de pessoas para ver o “espetáculo” [falando com ironia] Fizeram os meninos tirarem suas camisas e com elas limparem o chão. Nunca havia sentido tanta vergonha na minha vida. Todos nos chamavam de porcos, imundos e riam, riam muito, se divertiam com a nossa humilhação.
Certa época, Hitler ordenou que ficássemos em guetos. Era sempre a pior região da cidade, suja, abandonada. Agora seria a casa de milhões de judeus.
Éramos retirados de casa sem que pudéssemos ter tempo de arrumar nossas coisas. Não podíamos levar móveis, jóias e outros bens materiais. Claro que muitos escondiam e conseguiam levar. Meu pai juntou todo o dinheiro que tinha em casa. O que estava no banco acabou nas mãos do governo. Um roubo!
Uma das lembranças mais tristes que tenho deste momento é quando nossa família andava pela rua em direção ao gueto. Colegas da época da escola, vizinhos, ex-namorados, amigos, não importa que vínculo tivesse com os judeus, todos assistiam com alegria a nossa tragédia. Muitos nos xingavam, outros aproveitavam para invadir nossas casas e lojas para roubar o que podiam. Parece que eles estavam aliviados, agora não faltaria mais casa e empregos para os verdadeiros arianos. [suspiro profundo] Até que ponto o ser humano é capaz de chegar!

A segunda aluna volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
A terceira aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Ester 3: Quando chegamos ao gueto eu já estava no meu limite. Não entendia como havíamos chegado naquela situação. O que iriam fazer conosco?  Haveria como sofrer mais do que já tínhamos sofrido?

No mesmo dia em que nos obrigaram a ir para o gueto, fui falar com um oficial nazista. Assim que cheguei perto dele recebi a ordem para sair. Insisti que tinha uma coisa importante para falar com ele. No mesmo instante, ele retirou uma arma do uniforme e apontou pra mim. Não tive medo, tinha que insistir, pois sabia que talvez fosse o único momento que conseguiria falar com um oficial. Disse que era professora, que no gueto havia muitas crianças e seria uma atitude bondosa da parte dele autorizar o funcionamento de uma escola para os menores. [pequena pausa] Ele me olhava, ainda com a arma apontada para mim, quando esboçou um sorriso. Pensei que estava conseguindo convencer e continuei a falar. [pausa]

[baixa a cabeça] Foram minhas últimas palavras [pausa] Só me lembro de ainda ter ouvido: vermes não aprendem nada!

[emocionada, sem choro] Não me arrependi de ter feito aquilo. Já havia sofrido muito. Não aguentaria mais aquilo. Minha vida era o ensino. Sem ele não tinha razão para viver. Nunca mais eu tive numa sala de aula, mas coloquei na cabeça que poderia continuar ensinando, mesmo sem vida. Pois o que me tiraram é feito de carne e osso, perdi o meu corpo. [aumenta a voz] A minha memória eles não podem matar. Continuo ensinando, para quem quiser aprender. Ensino que o preconceito e a intolerância levam ao ódio e que o ódio leva a morte.  Ensino... a paz... simplesmente.
Eles podem ter me matado, mas eu ainda vivo! [em voz alta, firme]

As 3 alunas voltam para a coxia lentamente, enquanto a música sobe.

ATO 3
            A música continua. A segunda personagem entra no palco através de uma abertura no pano que o divide. A música diminui até parar. Nesta primeira parte, todas as 3 alunas entrarão juntas no palco e cada uma contará uma parte da história da Rute.

A primeira aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Rute 1: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Eu sou a Ruth. Sou polonesa e judia. Tinha 12 anos quando a guerra começou. Eu era apenas uma estudante, assustada em ver o meu país ser invadido pelos nazistas.

Minha mãe morreu no meu nascimento. O médico chegou a dizer que havia muito risco no parto, que talvez a vida dela corresse perigo. Mas ela não pensou duas vezes. Deu sua vida por mim. Sempre que me lembrava dela, olhando algumas fotos antigas, [faz o gesto como se estivesse vendo a foto] imaginava como seria tê-la ao meu lado. Queria tanto ser como qualquer menina, vendo sua mãe se maquiar, se vestir, arrumar o cabelo, tudo pra depois imitar. [pausa] Eu nunca tive isso.

Fui criada pelo meu avô. Meu pai saiu um dia pra trabalhar e nunca mais voltou. Eu era bebê e não me lembro. Até hoje não se sabe se ele morreu ou fugiu pra outro lugar. Acho que no fundo o meu avô sabe a verdade, mas pensa que sou muito nova para entender estas coisas.

Meu avô? [fala com satisfação] É a única pessoa que tinha. Era a minha família. Ele me ensinou tudo. Só nunca tinha me dito que as pessoas podiam ser ruins, fazer maldades. Isso ele nunca tinha me ensinado, eu aprendi sozinha.

A primeira aluna volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
A segunda aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Rute 2: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Um dia meu avô me acordou com pressa, estava pálido, nunca tinha visto ele daquele jeito. Saímos de casa tão rápido que nem tive tempo de pegar a Sofia, minha boneca preferida.
Fiquei bem assustada com tudo aquilo. Nós andávamos em fila para um lugar longe, com um muro alto. Passávamos por cima de uma passarela pra chegar do outro lado. As pessoas chamavam de gueto o lugar que seria a minha casa dali em diante.
No início, tínhamos que achar um lugar pra ficar. Como éramos só eu e meu avô, não foi difícil achar um quarto. Ficávamos juntos com uma família de cinco pessoas. Entre eles tinha uma bebezinha muito fofa. Não lembro bem o nome dela, até porque eu só conseguia lembrar da minha boneca quando olhava pra ela. O bebê ficou sendo a minha Sofia. A Sofia de verdade!
Meu avô já estava bem idoso e tinha um problema nas pernas, não sei bem o que era, mas às vezes ele reclamava de muitas dores.
Como ele não podia trabalhar, recebíamos a menor quantidade de alimentos. Muitas vezes era um pão velho, duro e esverdeado. [faz cara de nojo] Não cheirava bem, mas comíamos de tanta fome. Outras vezes era batata que recebíamos. Meu avô cozinhava e comíamos como se fosse a melhor das comidas. Era melhor que o pão.
De vez em quando os nazistas passavam gritando para que todos os adultos saíssem de casa. Eram as seleções para trabalhos fora da cidade. Nestes momentos eu ficava gelada, morria de medo de levarem meu avô. Todos nós ficávamos em silêncio, espremidos em um esconderijo atrás do armário. Sempre dava certo.
Estas seleções de trabalho eram bem estranhas. Os caminhões que levavam os judeus voltavam sempre vazios, ninguém nunca voltava pra ver a família. E sempre precisavam de mais gente. Estranho porque eu ouvia as pessoas reclamarem que não tinha emprego. [fala tentando entender a situação]
Algumas pessoas diziam que não era trabalho. Falavam que era pra enganar os judeus, pra gente não se revoltar... na verdade, todos eram levados para um negócio de campo de concentração. Não sei bem o que era, mas devia ser ruim. Ninguém queria ir pra lá. E olha que viver no gueto era horrível.
Como a comida era rara, muitas pessoas passavam fome. Eu mesma sentia dores no estômago de vez em quando. [colocando a mão na barriga] Tinha gente que não aguentava e morria. Nas ruas, todos os dias se viam gente morta, apodrecendo pelo caminho. A fome matou muitos judeus no gueto. Elas se deitavam na rua e perdiam as forças para levantar. Uma coisa muito triste. Sem contar as doenças que se pegava por estar tão fraco. As pessoas emagreciam até ficarem somente pele e osso.
Com os corpos nas ruas, vinham também as pragas. Ratos e baratas eram comuns nos guetos. Não tinha uma pessoa que não tivesse contato diário com estes bichos. Pulgas e piolhos invadiam as casas. As crianças eram as maiores vítimas. Eu mesma tive o meu cabelo cortado por causa dos piolhos. [passa as mãos no cabelo]
Passado um bom tempo nesta condição, chegou a pior dia da minha vida. [rosto fica bem triste] Numa destas passagens dos nazistas, mandando que as pessoas se apresentassem, o meu avô estava na rua. Tinha ido buscar comida. Ele já estava bem magro, parecia outra pessoa, perdeu uns 30kg. Quando foi abordado, disse que não podia trabalhar, mostrando as pernas com problema. O soldado não pensou duas vezes... [pausa] meu avô não teve chance de reagir. [pausa]  Assisti aquela cena da janela. Vi minha família terminar naquele dia.

A segunda aluna volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
A terceira aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Rute 3: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Depois da morte do meu avô, confesso que não tinha mais vontade de viver. Não tinha mais ninguém. Ainda me distraía com a Sofia, mas não era a mesma coisa que ter alguém da família por perto.

Passados alguns meses, começaram a levar todos embora dos guetos. Eu, a Sofia e a sua família ficávamos escondidos. Uma destas vezes, uma equipe de soldados invadiu a nossa casa. A Sofia chorava muito e seus pais taparam a sua boca com um pano. Enquanto isso os nazistas reviravam as coisas, buscando algum sinal de vida. Qualquer barulho naquele momento seria mortal. Quando eu olhei para o bebê, vi o seu rostinho ficando roxo. [pausa] Estava morta! [pausa] Morreu sufocada com o pano. [pausa] Na hora eu não me contive e deixei escapar um gemido, quase um grito. No mesmo instante os pais da Sofia também taparam o meu rosto. Ainda ouvia os soldados quebrando tudo do lado de fora. Comecei a ficar tonta sem o ar pra respirar. [pausa] Aos poucos o som foi diminuindo, diminuindo, até que não ouvimos mais nada. Neste momento, ainda sufocada decidi sair. Um soldado que havia voltado me viu e me levou.

Tudo aconteceu tão rápido que não consigo nem dizer quanto tempo durou a viagem, só sei que quando eu me vi já estava no que eles chamavam de Campo de Concentração. Mal cheguei e os soldados começaram a fazer filas, todas de meninas novas como eu. Disseram pra nós que estávamos fedendo. Um deles ainda gritou: [imitando um soldado] “Judeus sempre fedem”. E falaram que prepararam um banho pra nós.

Aquilo era meio estranho pra mim. Eu não devia primeiro conhecer onde eu iria ficar? Eu estava muito cansada pra tomar banho. Só pensava em dormir. Mas fomos todas nós para o tal banho. Chegamos a uma grande sala, fria e sem janelas. Só conseguia ver alguns buracos no teto e um negócio que só podia ser a ducha onde saía a água.

Quando nos trancaram, estávamos lá, todas nuas, olhando uma pra outra. Cada segundo que passava aumentava a nossa angústia. Eu olhava para o chuveiro e nada de sair água. De repente ouvimos um barulho. [pausa] Logo depois uma fumaça começou a sair do teto. Era um cheiro muito ruim e começamos a gritar e correr para a porta. Eu olhava em volta e via o desespero. Quando eu fecho os olhos, [fecha os olhos]  ainda posso ver a cara da morte. Ela me olhava e sorria. Não pude fugir dela. [pausa]


Não quero que sintam pena de mim. Sou forte! A vida me fez assim. O que eu quero é que a minha memória não se apague. [pausa] Eles podem ter me matado, mas eu ainda vivo! [em voz alta, firme]

As 3 alunas voltam para a coxia lentamente, enquanto a música sobe.

ATO 4
            A música continua. A terceira personagem entra no palco através de uma abertura no pano que o divide. A música diminui até parar. Nesta primeira parte, todas as 3 alunas entrarão juntas no palco e cada uma contará uma parte da história da Rebeca.

A primeira aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Rebeca 1: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Meu nome é Rebeca, sou italiana e judia. Tinha 36 anos quando fui para o país do meu marido. Ele era um alemão comerciante de tecidos. Antes de começar a namorá-lo, costurava para suas lojas. Fomos ficando apaixonados um pelo outro. Ele sempre dizia que eu era a melhor costureira da Europa. Acho que ele falava isso pra me agradar.

Tivemos uma filha linda, que tinha 8 anos naquela época. Sara era o nome dela, mas só chamávamos de Sarinha. Era o xodó da casa. [com alegria] Adorava ler. Ela viajava quando eu contava histórias antes de dormir.
Vivíamos como uma família feliz. Meu marido era ótimo pra mim. Estávamos muito bem. Pena que aquela alegria iria durar tão pouco.

A primeira aluna volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
A segunda aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Rebeca 2: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Poucos dias depois de chegarmos à Alemanha, fomos surpreendidos com a notícia de que estaria proibido o casamento entre judeus e alemães. Ficamos sem saber o que fazer. Tínhamos muito medo. Pensávamos em voltar pra Itália. Mas como eu iria conseguir passar pela fronteira? Os judeus já estavam sendo enviados para os guetos.
Alguém nos denunciou, talvez um vizinho, e um dia os nazistas bateram em nossa porta. Meu marido disse que era alemão e até mostrou seus documentos. Os soldados, mesmo desconfiados, já se viraram pra ir embora quando ouvimos um grito do lado de fora: “A mulher é judia”! [com a voz modificada]
Fui levada à força junto com a Sarinha. Foi a última vez que eu vi o meu marido. [pausa] A última vez que ele viu a filha. [baixando a cabeça]
Fomos levadas ao gueto, mas ficamos por pouco tempo. Nos colocaram em caminhões, depois em trens superlotados. Não nos diziam para onde iríamos. Eu só pensava em proteger a minha menina.
A viagem de trem foi uma tortura. Uma pequena janela para todo o vagão. Era insuficiente para a entrada de ar, e difícil de respirar. Durante dias, passamos a conviver com o mal cheiro do lugar. Todas as nossas necessidades eram feitas ali, no mesmo lugar que comíamos. [cara de nojo]
Na verdade, comer era força de expressão. Durante todo o trajeto só nos deram sopa. Sopa de mato em meio a urina, fezes e outros dejetos humanos. Não! Não tentem imaginar! Mesmo que queiram, não se compara ao que eu vivi.
Quando chegamos, fomos separados. Homens para um lado e mulheres para o outro. Mesmo assim, ainda selecionavam os que pareciam ter boa saúde. Doentes, idosos e crianças muito pequenas não sobreviviam ao primeiro dia no campo de concentração.
Eu era magra, com aparência de frágil, e minha filha podia facilmente ser descartada por seu tamanho. Só um milagre nos salvaria naquele momento.
E ele aconteceu. Um dos oficiais que faziam a seleção era um cliente do meu marido, conhecia e admirava o meu trabalho como costureira. Sem falar comigo, para que os outros nazistas não pensassem que havia algum sentimento de pena por parte dele, ordenou que eu e a Sara fossemos levadas para o alojamento dos oficiais. Nós trabalharíamos para ele.
Aquela era uma exceção. A maioria, quase todas as pessoas que participavam, direta ou indiretamente do nazismo, tinha ódio dos judeus. Nós éramos considerados um inseto, nos matar era algo normal, como quem esmaga uma barata que invade a sua casa. [fala com espanto]
O mais difícil foi passar por tudo aquilo com a Sara. Eu faria de tudo pra não deixar ela sofrer. Falava até que tudo aquilo era um filme. Um faz de conta como nas historinhas que lia pra ela antes de dormir. Todos nós estávamos ali pra atuar num papel.
Quando ela ouvia os tiros ou escutava alguém chorando, gritando, dizia pra mim que não gostava de fazer aquele filme, que já estava na hora de voltar pra casa, estava com saudades do pai. [emocionada, sem choro] Eu só falava que o filme já ia terminar, faltava pouco. Faltava pouco!
Eu sabia que não estava morta ainda porque trabalhava pra um oficial. Tinha que aceitar tudo pra não ver a minha filha vulnerável.
Sofia não sabia, mas quando ela dormia o oficial que havia salvado as nossas vidas também tirava um pouco dela. Eu era violentada diariamente. Se existe um inferno, não deve ser pior do que aquela vida. [com a voz embargada]

A segunda aluna volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
A terceira aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Rebeca 3: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Quando o oficial que me abusava foi transferido, não sabia se me alegrava ou se ficava triste. Por um lado ele me humilhava, me fazia sofrer, mas eu sabia que a minha filha estava viva. Com a saída dele, poderia a qualquer momento sair do alojamento e voltar para o campo. E lá eu sabia que não duraria um dia.

E o que ocorreu não foi diferente disso. Depois de uns dias, nos levaram para uma sala fechada. Eu sabia que era uma câmara e que saía um gás venenoso que matava as pessoas. Mas quem chegava achava que era um local pra tomar banho. Era isso que os nazistas diziam, que eles iriam tirar a sujeira do gueto e da viagem. Tiravam as nossas roupas, cortavam os nossos cabelos e pediam todos os objetos de valor, com a promessa de que devolveriam no final do “banho”.

Acontece que, naquele dia, havia algum problema com a câmara de gás. Acho que era por excesso de uso. Nos levaram para um grande paredão. Sabia o que iria acontecer. Presenciei vários fuzilamentos naqueles tempos de alojamento.

Sara estava muito nervosa, ficou chocada com toda aquela situação. Quando estávamos chegando perto da parede, falei baixinho pra ela: [pausa] “Sarinha, se acalme, está será nossa última cena. [respira fundo] Eles vão nos matar e nós vamos fingir que estamos mortas. [bem emocionada] Depois disso, vamos embora daqui. Saímos deste campo de concentração para entrar no coração de muitas pessoas. Porque eles podem nos matar, mas ainda viveremos”!

As 3 alunas voltam para a coxia lentamente, enquanto a música sobe.

ATO 5
            A música continua. A quarta personagem entra no palco através de uma abertura no pano que o divide. A música diminui até parar. Nesta primeira parte, todos os 3 alunos entrarão juntos no palco e cada uma contará uma parte da história do Aleksander.

O primeiro aluno dá um passo à frente e começa a falar, enquanto os outros permanecem parados, de cabeça baixa.

Aleksander 1: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Eu sou o Aleksander. Nasci e fui criado na Alemanha. Mas o fato de ser um alemão não importava muito para os nazistas. Sendo de família judaica eu não tinha nacionalidade, era somente judeu.

Meus pais tinham mais ou menos uns 40 anos quando eu saí de casa, ainda adolescente. Eles eram lavradores e não aprovaram a ideia. Eu era apaixonado por música, aprendi a tocar violino com um tio. Fui tentar a vida na cidade, pois sabia que no campo não ia ter futuro com a música. Ia tocar pra quem? Para os bois? [sorrindo] Não! Eu sonhava grande. E segui o meu sonho.

Tocava em restaurantes da cidade... vivia de favores na casa de parentes e amigos. Não era fácil, mas a atém que me alimentava bem. E com o pouco que ganhava dava pra comprar as outras coisas e viver bem. Mas o que me agradava mesmo era ver as pessoas se emocionarem com a minha música. No entanto, rapidamente aquilo tudo iria desmoronar.

O primeiro aluno volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
O segundo aluno dá um passo à frente e começa a falar, enquanto os outros permanecem parados, de cabeça baixa.

Aleksander 2: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Passei uns 5 anos da minha vida tocando violino na cidade. Até que veio a ordem para os judeus irem para os guetos. Fui um dos primeiros a chegar. E a sair também. Eu estava com uns 19 ou 20 anos, cheio de saúde. Logo que me viram disseram que iriam me levar para outro lugar. Estavam precisando de trabalhadores. Fazer o que? Os judeus não tinham escolha!
Fiz parte do primeiro grupo de judeus a chegar ao pior dos campos de concentração. Logo que saí do trem que nos levou, a primeira coisa que vi foi uma imensa chaminé, naquele momento inativo. Um soldado olhou pra mim e disse: [com voz diferente] “Gostou rapaz! Pois a chaminé é a única saída daqui.” [pausa] Somente depois que a chaminé começou a funcionar que entendi o que o soldado quis dizer com aquela frase.
Não sei se foi sorte ou azar, mas o fato de ter sido um dos primeiros a chegar me manteve vivo naquele campo. O preço? Vivenciar coisas que eu jamais imaginei que uma pessoa era capaz de fazer com o seu semelhante.
Meu trabalho era no forno e funcionava assim: [pausa] os judeus chegavam ao campo de concentração e os que eram considerados incapazes de trabalhar eram separados. Os nazistas mentiam dizendo que iam ser levados para tomar banho e o jogavam na câmara de gás. Lá, uma substância venenosa tomava conta do ambiente. As pessoas gritavam e choravam desesperadas, até que em 15 minutos em média não havia mais ninguém vivo. Os corpos eram levados para outra sala, onde se finalizava a inspeção para ver se ainda existia algo que pudesse aproveitar do cadáver, como um dente de ouro. Ali, umas três pessoas, contando comigo, se revesavam colocando os corpos em carrinhos e levando-os direto para o forno. A chaminé, então, era a saída de quase todos os corpos. E eu fui obrigado a participar desta matança em escala industrial.
Diziam que a cremação era a melhor maneira de se desfazer dos corpos. Mais fácil, rápido, higiênico e que não ocuparia o espaço de covas.
Se não bastasse ter que conviver diariamente com isso, ainda presenciei outras atrocidades no campo.
Algumas pessoas eram selecionadas para servirem de cobaias em experiências, como se fossem ratos de laboratório. Cérebros eram trocados de crânio. Braços e pernas recebiam outros corpos. Uma das experiências queria saber quantas vezes um bebê suportaria ter ossos do seu corpo quebrados. [balançando a cabeça negativamente]
Os corpos dos judeus também serviam, para fazer obras de arte... arte para os nazistas, é claro. Esculturas com ossos e até abajur feito de pele humana eram produzidos nesta época. Não havia limites para a loucura! [pausa] Já alguns oficiais tinham hábitos bizarros. Do alojamento, praticavam tiro ao alvo. [pausa] Qual era o alvo? Os prisioneiros!
Ninguém tem noção do que foi viver nos campos de concentração. Viver não! Sobreviver! Diariamente perder um pedaço de dignidade, de respeito pela humanidade. Muitos não suportavam o trabalho forçado, a perda da família e se matavam. Outros morriam de frio, especialmente quando colocavam os judeus no meio da neve, sem roupas, de castigo. Se é que precisava dar algum outro castigo. Estar ali já era o pior deles.
E para ser justo, nos campos de concentração não havia somente judeus. Além dos presos políticos, estavam também negros, homossexuais, ciganos e testemunhas de Jeová. Mas,para continuar sendo justo, nenhum deles tinha o tratamento que nós tínhamos. Até mesmo estes prisioneiros nos humilhavam. Fomos perseguidos pelos próprios perseguidos!

O segundo aluno volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
O terceiro aluno dá um passo à frente e começa a falar, enquanto os outros permanecem parados, de cabeça baixa.

Aleksander 3: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Depois de alguns anos, começamos a receber notícias de que a Alemanha estava perdendo a guerra. Mesmo sendo alemão, pela minha situação, eu não podia deixar de ficar muito feliz. Talvez houvesse esperança de tudo aquilo terminar.

Os nazistas deram ordem para esvaziar os campos de concentração. Queriam eliminar os vestígios de tudo que praticaram. Mataram um bom tempo na capacidade máxima, na máquina de produzir cadáveres. No final, quando a saída era inevitável, abandonaram tudo. E nos levaram juntos.

Iniciamos, então, uma longa caminhada que acabou se transformando na grande Marcha da Morte. Quase 2 milhões de judeus morreram neste momento. Estávamos no inverno europeu. Não havia água, nem comida. Andando a pé por centenas de quilômetros, as pessoas iam ficando pelo caminho.

Depois de 2 semanas caminhando sem parar, em meio a estradas cobertas de neve, adoeci. Sentia que estava muito fraco. Eu ardia em febre. Sabia que se parasse de andar morreria. Isso acontecia com todos. [pausa] Mas meu corpo não agüentou. [pausa] Eu parei!

Não saí do campo pela chaminé... aquele soldado nazista estava errado. Não pude marchar, mas creio que cheguei ao meu destino. Apesar de meu corpo ter ficado ali pelo caminho, na verdade eu não parei. Continuo andando cada vez que minha história é ouvida. [pausa] Todo aquele sofrimento pode ter me matado, mas eu ainda vivo! [em voz alta, firme]

As demais personagens entram em cena. Ficam os 12 alunos em cima do palco, juntos.

ATO 6
Todas as personagens estão aliviadas. Seus objetivos foram alcançados, estavam libertos para que suas histórias chegassem ao conhecimento de todos, para que a memória deles transformasse o ódio de hoje em paz. A lição que fica é a de que devemos respeitar as diferenças, devemos ser tolerantes.

As 4 personagens (12 alunos) saem do palco em direção ao público, misturando-se a plateia. Enquanto isso a música toca ao fundo e diminui lentamente

Ester: Sobrevivemos enquanto somos lembrados.

Rute: Nosso sofrimento deve ser visto como uma lição.

Rebeca: Um aprendizado para que não se cometam os mesmos erros do passado.

Aleksander: Devemos tolerar as diferenças, respeitando a todos.

Ester: Não importa a cor!

Rute: Não importa a beleza!

Rebeca: Não importa a religião!

Aleksander: Diga não ao ódio!

Cada um dos atores entrega a placa que a identifica para um dos presentes na plateia. As 4 personagens falam juntas, em voz alta, tocando no ombro das pessoas e olhando bem nos seus olhos.

 - Não me deixe morrer!

Terminado, sobem novamente para o palco, ficam de frente para o público e as cortinas se fecham. Encerra-se o espetáculo


FIM

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domingo, 21 de dezembro de 2014

Mágica ou maquiagem?

Sou professor da rede estadual do Rio de Janeiro e gostaria de solicitar que alguém fizesse uma investigação sobre uma prática danosa à Educação, realizada com a intenção do governo obter melhores resultados no Ideb. Eu explico: o cálculo para se chegar ao índice leva em conta a nota da Prova Brasil dividida pelo fluxo escolar, isto é, o tempo que os alunos levam para passar de ano. Tanto a reprovação quanto a evasão escolar, como consequência, diminuem a nota do Ideb, mesmo que o desempenho na Prova Brasil tenha sido satisfatório. Bom, além de toda pressão que os professores já recebem para aprovar os alunos, muitas vezes sob a forma de assédio moral, as escolas agora tem uma nova maneira de maquiar os números. Há alguns anos que a rede estadual não contabiliza os alunos evadidos. Quando um aluno abandona a escola ele tem a matrícula cancelada (tecnicamente é suspensa, pois ele pode voltar a qualquer momento). Desta forma, ele não aparece no censo do MEC como evadido, o que aumenta a nota do Ideb da rede.
Indaguei sobre a situação na minha coordenadoria de ensino. A resposta foi apenas que houve uma mudança de nomenclatura. Mas obtive de uma inspetora escolar a informação que realmente esses alunos não entram no cálculo do Ideb. E no mais, ficam as perguntas: por que mudar a nomenclatura? Como diferenciar alunos evadidos de alunos que realmente tiveram a matrícula cancelada (por óbito, por exemplo)? Não é estranho que o fim da nomenclatura “Evadido” para alunos que abandonam a escola coincida com a saída do Rio de Janeiro do antepenúltimo lugar no ranking do Ideb para o quarto lugar? Mágica ou maquiagem?

Esta situação deve ser de conhecimento público. Cabe às autoridades explicarem para a população que os números refletem a realidade. Caso contrário, o malabarismo com os números (e nomenclaturas) vai virar moda entre os governos. 

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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O que não aprendemos na faculdade sobre o Conselho de Classe?

Não é a primeira vez que escrevo sobre esse momento final do ano letivo. Aliás, ultimamente não tenho escrito quase nada, a não ser quando estou tão estressado que apenas o desabafo nos teclados aliviam a tensão.
                Primeira coisa que me irrita: o professor passou o ano inteiro com o aluno e avaliou todo este tempo se ele está apto a progredir em sua disciplina. Quando o discente não atinge a nota, fazemos uma reflexão levando em conta vários aspectos. Se achamos que ele tem condições de seguir adiante, damos uma ajuda e fim de papo. Caso contrário, fim de papo também. Só que não! No Conselho de Classe irritante (como o que acabei de ter) o professor tem que justificar o que levou o aluno a ser reprovado, quase como se ele tivesse no banco dos réus se defendendo. Sei que existe professores e professores, mas quando você tem consciência do trabalho que faz (e a equipe diretiva/direção conhece bem) é profundamente humilhante esta posição. E mais, se a preocupação é com o aprendizado do aluno, por que passar o ano inteiro e deixar pra discutir nota. É parecido com aquele pai que aparece na escola só em dezembro querendo saber do professor por que seu filho está com nota vermelha.
Segunda coisa que me irrita: quando a equipe diretiva/direção (pelos motivos que todos sabem) insiste em algum aluno, o caso é aberto para o Conselho decidir. Mas como assim, então um professor de Português tem o direito de aprovar um aluno que reprovou em Matemática? Então o trabalho que um professor fez ao longo do ano é jogado fora? Não serviu de nada? Mais uma vez eu faço um parênteses por saber que existe casos e casos. Não estou falando daquele aluno brilhante que um professor não foi com a cara dele e por isso o reprovou. A regra do aluno aprovado pelo Conselho é para casos como esse. Estou falando de situações normais, ou seja, professores sérios e alunos com dificuldade ou que simplesmente não cumpriram suas tarefas ao longo do ano (isso sem considerar o número de chances que os alunos de hoje em dia têm com inúmeras recuperações. Na rede citada aqui, para cada avaliação há uma recuperação). Enfim, acho profundamente antiético um professor se intrometer no trabalho do colega e dizer que um determinado aluno deve passar. Fico explodindo por dentro quando eu vejo isso acontecer. E o pior é que sempre acontece. Caro colega, tenha algo em mente: alguns alunos não são os mesmos com todos os professores. E mais grave do que isso, alguns apresentam dificuldades apenas em certas matérias. Um aluno pode ter discalculia, por exemplo. Lembro de um destes Conselhos em que um professor conclamou que eu entrasse no clima natalino e fosse bondoso. É lamentável ver colegas com tamanha alienação. Nada dói mais na Educação quando vemos colegas que te conhece como profissional não ficarem ao seu lado em momentos como este. Pressão da equipe diretiva/direção eu já estou acostumado, mas fogo amigo é coisa que não suporto.             
Terceira coisa que me irrita: o jeitinho brasileiro presente em cada um de nós. Adoramos criticar os descaminhos de servidores públicos, sobretudo políticos. Para nós, isso é uma prática deles, não nossa. Nós somos honestos, seguimos todas as regras... será? Na Educação , o que não falta é exemplo de práticas nebulosas. Quem nunca deu um jeitinho para burlar o aulas previstas e dadas? E faltas? No meu caso, me recusei a dar zero para uma aluna que faltou todas as aulas do bimestre. Aliás, o sistema (on line) nem aceita neste caso. Pra mim, zero é nota. Como vou dar uma nota para uma aluna totalmente ausente? Solução da direção: Tira uma falta da aluna (para mentir que ela veio um dia) que o sistema vai aceitar o zero. Quando insisti que não faria isso, o diretor me ameaçou dizendo que minhas notas ficariam pendentes, que eu seria chamado no recesso e tomaria falta se mantivesse minha posição. Tá né, dinheiro não é tudo na vida! Tô esperando o desconto...

Enfim, tô cansado de tudo isso. Foram só duas turmas e amanhã ainda tem mais duas. Isso só numa escola. Na outra tem oito ainda esta semana. Todo ano é a mesma coisa, uma sensação de ir para um campo de batalha. Você sai exausto e profundamente frustrado, seja qual for o desfecho. Tudo isso por quê? Porque o maldito sistema cobra números, ou seja, aprovações. Todo o resto é apenas isso: resto. Seja um professor que não reprova e você não será aborrecido. Deviam ensinar isso nas faculdades de Licenciatura.

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terça-feira, 14 de outubro de 2014

Ok, eu desisto!


  
                 Faz tempo que não escrevo sobre Educação. Aliás, sobre assunto algum. Primeiro por motivos pessoais, mas sobretudo porque deixei de ver utilidade no que eu fazia.

                Contudo, não pense que mudei de ideia. Talvez esse breve texto seja mais um dos meus desabafos e não tem a intenção de ser um artigo acadêmico. Estou cansado!

                Lembro como se fosse hoje de um encontro que tive com a secretária de educação do município onde leciono. Alguns dias antes ela havia lido um texto que eu escrevi e foi publicado no jornal do sindicato local. Eu criticava o sistema educacional neurótico por números, realidade não só em Volta Redonda (RJ), mas no Brasil inteiro. Aliás, sistema este copiado de modelos de outros países e que já se mostraram um fracasso. Eu fechava aquele texto de modo extremamente pessimista, contrastando com o sentimento de poder mudar, com o qual eu havia saído da faculdade um pouco mais de um ano antes. A secretária, em algum momento da conversa/inquisição, me disse em claro tom de deboche que era uma pena um professor tão novo e que desistiu tão rápido. Naquele ano, sofri assédio moral na escola, fui transferido algumas vezes, fui parar na sala de informática e resisti. Afinal, queria provar pra mim mesmo que não desistia tão rápido.

                Passados 7 anos, não tão novo assim, posso afirmar sem temer julgamentos: eu desisti. Não tenho mais a menor expectativa de mudar o mundo, nem meu país, meu estado, minha cidade ou até mesmo minha escola. Simplesmente reconheço que não sou forte o bastante pra remar contra a maré.

                Na escola dos meus sonhos, o aluno é formado para ser feliz e não pra ganhar dinheiro. Ele desenvolve o respeito e a solidariedade, não a competição. Aprende a viver em comunidade e percebe que um país rico não se mede com um PIB. Não há disciplinas mais importantes do que outras. Essa escola tem grupos de teatro, de música, de vários esportes. Ela se abre para o mundo, recebendo pessoas de todos os tipos e formações e que possam compartilhar seu conhecimento e experiência em oficinas, fóruns e seminários. Na minha escola os alunos aprendem Química na cozinha, Biologia na horta, Geografia e História andando na cidade, Matemática na feira, Português em rodas de poesia, Artes nos museus, Educação Física na quadra de skate da praça mais próxima. Sala de aula? Pode ser embaixo da mangueira, como nos ensina Tião Rocha. A instituição é apenas um meio. O fim é a Educação.

                No ano passado, desci com uma turma para o pátio por uma aula, após um bimestre estressante, depois das avaliações, revisões, solução das dúvidas e apenas aguardando a recuperação, que seria na aula seguinte. Eu iria fazer uma atividade lúdica com eles, não só pra relaxar, mas para melhorar o relacionamento meu com a turma e entre eles também. Iria! Fui impedido de fazer a atividade e tive que retornar para a sala de aula. Eu havia esquecido, ou queria esquecer, que estava numa escola que cultua aquele ambiente sufocante entre quatro paredes como o único locus educacional do colégio. Que advoga a ideia de que mais tempo de aula é igual a maiores resultados, como se os professores e alunos fossem fabricantes de parafusos.

                Poderia aqui relatar mais inúmeros casos (alguns deles inclusive já viraram artigos e estão por aí no site) que, juntos, me fizeram declarar derrota. E não coloco a culpa apenas nos governos e nos diretores. Essa escola massificada, preparatório para avaliações e formadora de mão de obra para o mercado é o que a maioria dos professores e pais de alunos também querem. Talvez, de todos os atores envolvidos na educação, aquele que mais deseja uma nova escola seja o aluno, que não aguenta mais ficar 5 horas por dia numa instituição que parou no tempo.

                Por fim, vendo a escola de hoje eu não consigo deixar de lembrar de uma vez que fui ao médico com muita dor no braço e fui atendido por um profissional que em momento algum olhou pra mim. Preenchia formulários e fazia perguntas. Saí de lá com uma tala no braço e sem entender como chegamos ao ponto de ter veterinários mais atenciosos com seus pacientes. Aquele médico uma vez foi aluno e aprendeu na escola o que exercia em sua profissão. Afinal de contas, para ser um bom aluno basta ser bom no conteúdo. Por que para ser um bom médico seria diferente? Também me lembro do Sérgio Naya, aquele engenheiro que construiu um prédio com areia da praia. Era um bom aluno em Matemática, certamente, e quem sabe até ganhou uma medalha em uma destas Olimpíadas. E os políticos? Como bom oradores, talvez fossem bons alunos também. Mas de que vale estes conhecimentos se não são acrescidos de valores? Respeitar, ser solidário, entre outras coisas se aprende com o exemplo. E se a escola não estiver preparada pra isso, continuaremos a ver mensalões, Palace II e consultas médicas relâmpagos.

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terça-feira, 15 de outubro de 2013

15 de Outubro – comemorar o quê?

Hoje é o meu dia! Deveria estar feliz, não é? Mas não tenho tantas razões para comemorar. Muitos dizem que ser professor atualmente é ser herói, daqueles que mata um vilão pior do que outro, dia após dia. E o pior é que esta imagem do professor-herói nos remete ao senso comum de que a profissão é quase um sacerdócio.
Lembro-me bem do primeiro dia como professor. Uma colega bem experiente me chamou em um canto e falou baixinho: “Olha, se você está aqui pelo emprego não vai dar certo. Isso aqui é um chamado!”. Seis anos depois eu já compreendo bem o discurso por trás desta ideia. Assim como um religioso que aceita seu destino de servir ao santo dever de propagar a doutrina divina, o professor deve também aceitar o seu fardo. Sim, pois é uma dádiva atender a um chamado, mas junto dele vêm as provações. O professor que recebe tal “dom” deve se contentar com essa situação e, silenciosamente, cumprir o seu destino. 
Colegas, esqueçam toda essa conversa. Somos profissionais e devemos ser tratados como tal. Chega de aceitar os problemas como se fossem naturais do ofício. Chega de acumular funções para as quais não devemos exercer. Pergunte a um engenheiro se ele decora a casa depois de pronta ou usa o martelo para reparar um defeito durante a obra. Indague se um ortopedista faz um raio X e depois engessa um membro contundido do seu paciente. Por que nós, professores, temos que ser múltiplos? Por que temos que ser psicólogos para tratar dos traumas dos nossos alunos? Por que devemos ser policiais para resolver os conflitos dentro da escola? Por que devemos ser médicos para cuidar de uma criança adoecida na sala de aula? Por que devemos ser secretários e secretárias para preencher os inúmeros papéis da burocracia nojenta que nos impõem? Por que devemos ser pai e mãe dos discentes que não tem a mínima educação em casa? Enfim, no circo escolar, estamos sendo malabaristas, trapezistas, mágicos e, sobretudo, palhaços. 
Não temos nada para comemorar, porém muito o que refletir. Somos nós que reforçamos estas imagens na medida em que aceitamos como bons cordeiros os mais diversos papéis que nos são jogados. Muito mais do que aumento de salário eu quero ser RESPEITADO. Quero ser tratado como um profissional do ensino. O restante surge como consequência desta visão. 
Professores, hoje é o dia de deixar guardada a roupa de herói e a batina de sacerdote. Não, melhor do que isso – rasgue-a! O cenário atual beira ao intolerável. A sensação que temos é que nossa condição de trabalho piora a cada ano. Sou um pouco pessimista e acho que ainda vai ficar mais crítico, até que o caos exija uma mudança. Até lá, o que eu e você podemos fazer é, amanhã, aparecer na escola com nossa roupa “normal” e gritar para todos – RESPEITO, SOU UM PROFISSIONAL!

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domingo, 1 de setembro de 2013

Discussão Pedagógica ou Balanço Patrimonial?


Estou na sala de vídeo da minha escola. Os alunos saíram mais cedo, pois hoje é dia de discussão pedagógica. Os colegas brincam com o nome e falam que vamos discutir, discutir e só discutir. Ou seja, nada de soluções, como sempre. Fico na dúvida se penso o mesmo. Gosto de momentos de reflexão. Mas, por dentro, já imagino que não vai ser um dia tranquilo. Quem conhece a minha personalidade sabe da minha inclinação ao contraditório. Se todos dizem azul eu pergunto: “por que não amarelo”? Se todos dizem “amarelo” eu digo: “por que não vermelho”? Tem sido assim a minha vida toda.

Na tela do projetor eu vejo números. Não, tem algo diferente ali: gráficos! Hum, respiro fundo. São os dados de “aproveitamento da escola”. Uma colega levanta a voz e diz que tem que reprovar os alunos que não querem nada mesmo, disto ela não abre mão. Uma outra voz responde que não há nenhuma pressão para que os alunos sejam aprovados. Eu, mais uma vez por dentro, finjo que acredito.

Se existe uma coisa que os historiadores aprendem é que todas as formas de comunicação são, em última instância, discursos. E, como tais, elaborados para cumprir uma determinada finalidade. Nossas falas são cheias de discursos, explícitos e implícitos. Pessoas que dizem sinceramente que não são preconceituosas podem usar discursos intolerantes sem perceber isso. E não é só a nossa fala em si. Todo o contexto que envolve o momento, os meios e o público alvo deste discurso também contam para esta avaliação.

Eu levanto a mão. Não é uma opção. Sinto uma verdadeira necessidade de ponderar. Aqueles números me revoltam. Estamos numa escola? Parece que voltei 10 anos no tempo e me vi discutindo as metas de vendas e margens de lucro com o meu gerente. Não, eu não estava numa loja de departamentos. Não, aquilo não era uma fábrica. Era mesmo uma escola. Mas não havia espaço para o João, o Pedro, a Maria, a Ana. Tudo se resumia aos gráficos de resultados.

Sim, eu acho que a escola é o lugar do saber, de desenvolvimento intelectual. Sim, uso notas para avaliar meus alunos. Sim, quero que eles façam uma faculdade. Sim, sim, sim. Mas nada disso tem sentido sem o aspecto humano. Como cobrar que os professores façam todos os alunos aprenderem se ali tem gente que não quer? E aquela que apanha dos pais porque fez a comida com muito sal? E o outro perdeu a casa numa enchente e por isso mora numa quadra Poliesportiva? Não se esqueça daquela que foi abandonada pela mãe e mora com o padrasto, que a molesta. E também daquele que vê o pai em estado terminal, aguardando o dia em que os aparelhos emitirão o som agudo da morte. Como cobrar que eles aprendam? Mais do que aprender sobre as capitanias hereditárias ou fotossíntese, estes alunos precisam sobreviver, ter dignidade, paz. Um colega imaginário me cutuca e sussurra: “não é problema meu! O sistema é assim, não há o que fazer. Sou professor, me pagam apenas para dar aula.”

Percebo que falo em nome de mim mesmo. Paro, fico em silêncio, perco o foco no rosto das pessoas ao redor e só enxergo vultos. Fantasmas de uma realidade que eu não gostaria de presenciar. Por alguns momentos me lembro dos projetos escolares que pregam a crítica ao individualismo da sociedade capitalista. Discursos vazios. Caminhamos para uma escola cada vez mais fria. Salas lotadas, professores em diversas escolas, os alunos se transformaram no número 14 ou 27. O pensamento continua a vagar enquanto a reunião caminha para o fim. Ainda dá tempo de lembrar dos comentários reprovando a posturas dos médicos da “nova geração”, que nem olham para o rosto do paciente, raramente encosta nele e quase sempre resume tudo no termo mágico “virose”. Fico me perguntando: onde eles aprenderam a ser tão insensíveis? Bom, uma coisa é certa, ele foi nosso aluno, não foi?

Terminou a discussão pedagógica. Se tivesse que indicar apenas um sentimento ao sair daquela sala eu teria dificuldade. Era um misto de tristeza, decepção, revolta, sei lá. Então era isso, somos todos cúmplices de um sistema perverso. Aquele médico aprendeu na escola a ser um número. Por que faria diferente? Nós, que continuamos a pensar que o problema não é nosso, vivemos numa escola esquizofrênica. Nossos projetos políticos pedagógicos buscam formar “cidadãos plenos”, enquanto na prática estamos apenas produzindo mão de obra.


Almoço e sigo direto para outra escola. A correria não me deixa parar para digerir tudo aquilo que aconteceu em apenas uma manhã. Meu semblante reflete o desânimo. É uma daquelas horas que dá vontade de largar tudo. Escrevo no quadro, explico a matéria e uma piada aqui e outra ali (afinal, é sexto ano) até são capazes de me tirar um sorriso. Passo tarefa. Uma aluna vem até a mim, me abraça e diz: “que bom que você melhorou!”. Outra me entrega um bilhetinho que está escrito: “você é o melhor professor do mundo”. Fiz força pra não chorar, é verdade, mas por dentro podia sentir que o meu "tanque" encheu. Combustível para mais alguns dias. Ufa!

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quarta-feira, 3 de julho de 2013

O que faz o professor pensar em desistir e o que o motiva a permanecer?

Sabe aqueles dias em que dá vontade de largar tudo e desistir de ser professor? E outros em que acontece algo que faz tudo valer a pena? Pois é, que tal viver os dois em 20 minutos?
Esse texto é um desabafo, ok, que fique claro. Não tenho a intenção de escrever pra agradar ou falar mal de ninguém. A situação que vou relatar aqui foi devidamente comunicada para quem é de direito e vou omitir todos os nomes. E como todo desabafo, só vou terminar quando extravasar tudo que tiver entalado. Portanto, vai sim ser um texto longo, sinto muito.
Eu acredito que a educação escolar não pode se resumir ao que ocorre em sala de aula. Aliás, o formato educacional atual mais parece uma prisão, onde todos são controlados (alunos e professores), inclusive em relação às necessidades fisiológicas. Tenho, sinceramente, muita pena dos alunos em ter que ficar 5 horas sentados, todos os dias, assistindo quase sempre a monólogos enfadonhos ou atividades extremamente fúteis e longe de serem desafiadoras.
Desde o meu primeiro ano como professor (e já se foram 7 anos), sempre usei uma estratégia pela qual obtive imenso sucesso na melhora da relação professor-aluno e, consequentemente, um ambiente mais agradável para o aprendizado em sala. Em momentos em que a matéria está adiantada e/ou já chegamos ao fim de um bimestre, quando todas as minhas obrigações já foram feitas (correção de avaliações, recuperação paralela, revisão da matéria, auto-avaliação etc.), proponho uma atividade ao ar livre. Dependendo do perfil dos alunos, tal atividade pode ser futebol, basquete, vôlei, queimada, enfim, algum jogo coletivo. Vocês não imaginam como as crianças ficam felizes! Nunca tive problema algum em todos esses anos. Pelo contrário, já tive turmas em que eu me benzia antes de entrar na sala e que depois disso passou a ser extremamente prazeroso.
Eu nunca tive problema... até hoje!
Sem entender esse contexto todo que abordei acima, aliás, sem ter conhecimento do trabalho que eu realizo, fui abordado e indiretamente criticado por ter saído de sala com uma turma para fazer o que sempre fiz (se bem que nos últimos dois anos eu não havia feito nesta escola). A grande indagação era “o que a bola tinha a ver com a minha disciplina”, se “não era melhor eu estar em sala fazendo lição”. Tá certo que era o último dia antes das recuperações, mas eu já havia feito todas as atividades possíveis e imagináveis e a única coisa que eu poderia fazer era iniciar o bimestre que começa apenas depois das férias. É meio óbvio que essa última opção era um mero “encher linguiça”, pois depois das férias eles não lembram nem o nosso nome, ainda mais a matéria. Mas parece que o “encher linguiça” é mais conveniente para as escolas do que “essas atividades que os professores inventam, que só vai fazer bagunça no colégio” (esse sou eu pensando, tá, não coloque na conta da tal pessoa não, viu). Enfim, deixar os alunos “à toa”, desde que seja dentro da sala de aula pode. Aliás, há muito tempo que tenho dito que ninguém liga para o que se faz dentro de sala, desde que você esteja DENTRO DE SALA. O que mais vejo (e me contam) é professor que deixa os alunos ficarem mexendo no celular, jogando cartas, jogando pingue-pongue nas carteiras... e ninguém reclama. Por quê? Porque ele tá DENTRO DE SALA. Pois bem, eu que devo ser um tremendo idiota, babaca, imbecil, de ficar inúmeros finais de semana preparando e corrigindo atividades, pesquisando coisas novas, fazendo malabarismos em sala pra tonar as aulas mais agradáveis, realmente me importando e fazendo um grande esforço para que meus alunos aprendam, pra no fim das contas ser comparado com aquele outro colega lá de cima, que todos nós sabemos que existe, que simplesmente não quer trabalhar. Eu realmente estou cansado disso tudo, dessa ultrajante hipocrisia existente nas escolas. Dá vontade de desistir de tudo!
Nem continuei a história, né! Mas não importa muito. Mesmo continuando a atividade que havia proposto, não foi a mesma coisa, não deu pra curtir, não interagi como eu queria, enfim, não foi legal. O banho de água fria já havia sido dado. É o ônus de ser diferente em uma escola tradicional.
Pena que isso tudo ofuscou a minha alegria de, 20 minutos antes disso tudo, ter recebido dois presentes de alunas desta mesma turma da tal atividade. Um deles é essa tartaruguinha que chamei de “Tatá” e o outro é uma dessas cartinhas que estão nas fotos.






É claro que esses presentes são carregados de significados. Esses dois e outros que postei aqui são apenas exemplos do carinho que tenho recebido durante esses anos. Se fosse somente atuais alunos, ainda poderia restar aquela dúvida se não estão sendo gentis para receber uma nota em troca. Mas são muitos e muitos ex-alunos que escrevem ou falam coisas das quais não tinha ideia. Momentos que nem eu sabia, mas se tornaram inesquecíveis. A honra de ser considerado o melhor professor da vida deles. Enfim, coisas que me deixam realmente emocionado e me dão orgulho do que eu faço.
Pra finalizar, vou contar somente mais uma situação que ajuda a esclarecer o meu pensamento. Um dia desses, descia uma escada da minha escola e me deparei com uma discussão, no pátio, entre duas alunas minhas, de salas diferentes. Chamei no canto uma delas, a que estava mais alterada e comecei a conversar com ela. Sabe aquelas alunas que gostam de um barraco? Pois bem, mas ela me dizia que estava se esforçando pra ser uma boa aluna, comportada, acabando com essa fama de brigona. Me disse, aos prantos, que não havia feito nada com a outra menina e que haviam inventado uma fofoca que deu inicio a discussão, inclusive com juras de briga tipo MMA. Conversei com ela longamente (tudo isso sem que fosse a minha aula na turma dela), disse que confiava nela e que ela não devia ter medo do que os outros falam, pois o importante é que no coração dela havia a certeza da inocência. E pedi; “você não vai brigar!”. Ela prometeu. Na hora da saída ela veio me procurar, chorando muito, dizendo que não tava aguentando as provocações. Conversamos mais uma vez e no final ela me disse: “Professor, eu não vou brigar, mas é pelo senhor!”.
Me diga, em que índice isso entra? Que números que eu ganhei? Vou receber algum bônus-esmola por isso?
O sistema educacional atual quer máquinas formando outras máquinas. Não há incentivo algum para que sejam seres humanos formando outros seres humanos.
Hoje meu sangue ainda ferve, mas amanhã só me lembrarei da Tatá, das cartinhas e de uma briga que evitei que ocorresse.
Espero!


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