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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Peça de teatro - Sobreviventes

Aos alunos do Delce Horta e todos aqueles que se interessarem em encenar...



CENÁRIO
         Apenas um banco estará presente em cena. O vazio e a penumbra do ambiente devem provocar a sensação de luto e concentrar as atenções para as personagens. A iluminação deve ser feita apenas por um spot.

PRÓLOGO
         A cortina se abre e no palco está o narrador. Ele deve fazer a ponte entre o presente e o passado, deixando claro o objetivo da peça. Sua voz deve ser firme e forte, transmitindo toda a emoção que marca o espetáculo.

Narrador: No início deste ano de 2015, o jornal francês Charlie Hebdo sofreu um ataque covarde que matou 8 jornalistas em sua sede, em Paris, além de outras pessoas, um atentado que chocou o mundo. O que os matou se resume em uma palavra – INTOLERÂNCIA. Sim, isso tirou a vida deles. O “crime” cometido foi usar a liberdade de expressão para fazer charges em referência à religião islâmica, assim como faziam com tudo e todos. Alguns extremistas decidiram que deveriam dar um basta, impor respeito, ou medo, talvez, afim de evitar novos desenhos.
Eu e o mundo perguntamos como um simples desenho é capaz de gerar tanto ódio.
Nas manifestações em repúdio a este ataque, nas ruas e nas redes sociais, este foi o cartaz que mais se viu [mostrar a placa com os dizeres: Je suis Charlie]. Quer dizer: eu sou Charlie, em francês. Todas essas pessoas queriam dizer que elas tomavam partido do jornal, defendendo a liberdade de expressão e condenando a intolerância demonstrada com as mortes.
O ódio que marca o que acabei de falar é recorrente na História. Poderíamos citar inúmeros fatos em que a humanidade se viu diante de uma grande brutalidade. Alguma pode se equiparar, mas dificilmente será maior do que aquilo que você vai assistir agora.
Serão 4 histórias de vida, morte e renascimento. E vocês sairão daqui com uma missão.


 ATO 1
Uma música começa a tocar. A cortina está fechada e se abre lentamente. As personagens estão atrás de uma divisão no palco. Deverão estar vestidos de preto. A música diminui até não se ouvir. Ainda sem entrar no palco as personagens começam a falar.

Ester: No início da década de 1930, o nazismo tomava conta de um país arrasado pela primeira grande guerra e pela Crise de 29.

Rute: Os judeus foram considerados culpados pela situação difícil.

Rebeca: A Alemanha estava fragilizada, e o discurso de Hitler conquistou o apoio necessário para chegar ao poder.

Aleksander: E o ódio nazista estimulava a perseguição aos judeus. Sabem o resultado disso?

Ester: 6 milhões!

Rute: 6 milhões de judeus!

Rebeca: 6 milhões de judeus foram assassinados!

Aleksander: 6 milhões de judeus foram assassinados pelos nazistas.


ATO 2
            Novamente uma música é ouvida. A primeira personagem entra no palco através de uma abertura no pano que o divide. A música diminui até parar. Nesta primeira parte, todas as 3 alunas entrarão juntas no palco e cada uma contará uma parte da história da Ester.

A primeira aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Ester 1: Meu nome é Ester. Sou austríaca e judia. Eu tinha mais ou menos 30 anos quando o nazismo conquistou o poder na vizinha Alemanha. Nesta época eu já era professora, profissão que me formei desde o 18 anos. Quando era pequena me lembro de brincar no quadro negro com as outras crianças. Sempre gostei muito de estudar. Cresci sabendo que ensinar era a minha vida. [satisfação no rosto, orgulho] Achava que a educação era o bem mais precioso que uma pessoa podia ter. Ninguém tira um conhecimento de você, nós carregamos a vida toda o que aprendemos.

Meus pais eram muito bons comigo. Eles já estavam perto da casa dos 60 anos. Deus sempre nos ajudou e possuíamos uma boa condição de vida. O mesmo acontecia com o restante da família.

Eu era a única mulher entre os filhos. Confesso que era um pouco mimada [esboça um sorriso] Meus quatro irmãos sentiam ciúmes de mim. Coisa de irmão que se sente rejeitado. Acho que acontece em todas as famílias. Mal sabiam eles que iríamos passar por uma rejeição mil vezes pior.

A primeira aluna volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
A segunda aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Ester 2: Pela minha profissão, eu já tinha conhecimento sobre o nazismo, sabia das suas ideias e sempre alertei a minha família quanto aos seus perigos. Meus pais tinham muitas riquezas no país e não aceitavam sair de lá. Acabei ficando também. Mas sempre falava que um dia a situação iria ficar séria para o nosso lado, que o Hitler era antissemita, não gostava dos judeus. Ninguém achava que ele teria coragem de fazer o que fez. [fisionomia fica bem séria]
Lembro que as coisas aconteciam muito rápido. Parece que as pessoas foram hipnotizadas. Começou toda aquela discussão de raça ariana. Os povos germânicos, como os alemães, eram considerados de uma raça superior. Diziam, repetindo Hitler, que a Alemanha deveria formar um império com os povos de raça pura. As raças inferiores deveriam ser exterminadas para não contaminar as gerações arianas. [fica nervosa, balança a cabeça negativamente]
E mesmo eu sendo austríaca, o mesmo país de Hitler, era colocada no mesmo grupo das aberrações, já que eu era judia. Vejam só [continua a discordar com a cabeça]... aberração! Como pode o fato de eu ser judia significar que sou inferior? De onde é que estes loucos tiram estas ideias? Somos todos de uma só raça – a raça humana. Todas as outras diferenças entre nós são culturais. Qual é a diferença entre uma pessoa com cabelo e outra careca? Qual é a diferença entre um alto e um baixinho? Não há nada que possa comprovar a superioridade de um ou de outro. [pequena pausa] Aberração! Aberração são os que pensam desta maneira.
Ah, meu povo! [olha para o nada, desiludida] Fomos perseguidos durante séculos. Não merecíamos! Quantas gerações deixaram de nascer por causa do ódio. Pra que tanto ódio? Até que ponto o ser humano é capaz de chegar!
Quando o Hitler anexou meu país, começou a surgir um monte de leis. Fui proibida de dar aulas, cassaram o meu diploma de professora. Tiraram o que havia de mais importante na minha vida. Diziam que uma judia não tinha nada a ensinar ao povo alemão. Perdi a minha profissão! O que eu faria dali em diante?
Uma outra lei proibia o relacionamento entre alemães e judeus. A justificativa? Não se podia permitir que filhos impuros nascessem. Somente pais arianos poderiam gerar filhos arianos. [olhar saudoso] Eu lembro que tinha um vizinho alemão, muito bonito, que eu era apaixonada. Ele retribuía alguns sorrisos. Não sei se gostava de mim. Mas minhas esperanças terminaram nesta época. Se fossemos pegos namorando, nós dois seríamos presos. Um absurdo!
Os nazistas também passaram a nos obrigar a somente andar nas ruas identificados como judeus. Uma estrela de Davi tinha que ser colocada como braçadeiras em nossas roupas. [passa a mão pelo braço] Quando passava algum soldado nazista na calçada que estávamos, éramos obrigados a passar pela rua.
E como os soldados gostavam de maltratar os judeus! Um dia, estava passando numa rua com dois primos e meu irmão. Quando os soldados nos viram, começaram a nos arrastar para o meio da rua... nisso juntou um monte de pessoas para ver o “espetáculo” [falando com ironia] Fizeram os meninos tirarem suas camisas e com elas limparem o chão. Nunca havia sentido tanta vergonha na minha vida. Todos nos chamavam de porcos, imundos e riam, riam muito, se divertiam com a nossa humilhação.
Certa época, Hitler ordenou que ficássemos em guetos. Era sempre a pior região da cidade, suja, abandonada. Agora seria a casa de milhões de judeus.
Éramos retirados de casa sem que pudéssemos ter tempo de arrumar nossas coisas. Não podíamos levar móveis, jóias e outros bens materiais. Claro que muitos escondiam e conseguiam levar. Meu pai juntou todo o dinheiro que tinha em casa. O que estava no banco acabou nas mãos do governo. Um roubo!
Uma das lembranças mais tristes que tenho deste momento é quando nossa família andava pela rua em direção ao gueto. Colegas da época da escola, vizinhos, ex-namorados, amigos, não importa que vínculo tivesse com os judeus, todos assistiam com alegria a nossa tragédia. Muitos nos xingavam, outros aproveitavam para invadir nossas casas e lojas para roubar o que podiam. Parece que eles estavam aliviados, agora não faltaria mais casa e empregos para os verdadeiros arianos. [suspiro profundo] Até que ponto o ser humano é capaz de chegar!

A segunda aluna volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
A terceira aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Ester 3: Quando chegamos ao gueto eu já estava no meu limite. Não entendia como havíamos chegado naquela situação. O que iriam fazer conosco?  Haveria como sofrer mais do que já tínhamos sofrido?

No mesmo dia em que nos obrigaram a ir para o gueto, fui falar com um oficial nazista. Assim que cheguei perto dele recebi a ordem para sair. Insisti que tinha uma coisa importante para falar com ele. No mesmo instante, ele retirou uma arma do uniforme e apontou pra mim. Não tive medo, tinha que insistir, pois sabia que talvez fosse o único momento que conseguiria falar com um oficial. Disse que era professora, que no gueto havia muitas crianças e seria uma atitude bondosa da parte dele autorizar o funcionamento de uma escola para os menores. [pequena pausa] Ele me olhava, ainda com a arma apontada para mim, quando esboçou um sorriso. Pensei que estava conseguindo convencer e continuei a falar. [pausa]

[baixa a cabeça] Foram minhas últimas palavras [pausa] Só me lembro de ainda ter ouvido: vermes não aprendem nada!

[emocionada, sem choro] Não me arrependi de ter feito aquilo. Já havia sofrido muito. Não aguentaria mais aquilo. Minha vida era o ensino. Sem ele não tinha razão para viver. Nunca mais eu tive numa sala de aula, mas coloquei na cabeça que poderia continuar ensinando, mesmo sem vida. Pois o que me tiraram é feito de carne e osso, perdi o meu corpo. [aumenta a voz] A minha memória eles não podem matar. Continuo ensinando, para quem quiser aprender. Ensino que o preconceito e a intolerância levam ao ódio e que o ódio leva a morte.  Ensino... a paz... simplesmente.
Eles podem ter me matado, mas eu ainda vivo! [em voz alta, firme]

As 3 alunas voltam para a coxia lentamente, enquanto a música sobe.

ATO 3
            A música continua. A segunda personagem entra no palco através de uma abertura no pano que o divide. A música diminui até parar. Nesta primeira parte, todas as 3 alunas entrarão juntas no palco e cada uma contará uma parte da história da Rute.

A primeira aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Rute 1: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Eu sou a Ruth. Sou polonesa e judia. Tinha 12 anos quando a guerra começou. Eu era apenas uma estudante, assustada em ver o meu país ser invadido pelos nazistas.

Minha mãe morreu no meu nascimento. O médico chegou a dizer que havia muito risco no parto, que talvez a vida dela corresse perigo. Mas ela não pensou duas vezes. Deu sua vida por mim. Sempre que me lembrava dela, olhando algumas fotos antigas, [faz o gesto como se estivesse vendo a foto] imaginava como seria tê-la ao meu lado. Queria tanto ser como qualquer menina, vendo sua mãe se maquiar, se vestir, arrumar o cabelo, tudo pra depois imitar. [pausa] Eu nunca tive isso.

Fui criada pelo meu avô. Meu pai saiu um dia pra trabalhar e nunca mais voltou. Eu era bebê e não me lembro. Até hoje não se sabe se ele morreu ou fugiu pra outro lugar. Acho que no fundo o meu avô sabe a verdade, mas pensa que sou muito nova para entender estas coisas.

Meu avô? [fala com satisfação] É a única pessoa que tinha. Era a minha família. Ele me ensinou tudo. Só nunca tinha me dito que as pessoas podiam ser ruins, fazer maldades. Isso ele nunca tinha me ensinado, eu aprendi sozinha.

A primeira aluna volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
A segunda aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Rute 2: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Um dia meu avô me acordou com pressa, estava pálido, nunca tinha visto ele daquele jeito. Saímos de casa tão rápido que nem tive tempo de pegar a Sofia, minha boneca preferida.
Fiquei bem assustada com tudo aquilo. Nós andávamos em fila para um lugar longe, com um muro alto. Passávamos por cima de uma passarela pra chegar do outro lado. As pessoas chamavam de gueto o lugar que seria a minha casa dali em diante.
No início, tínhamos que achar um lugar pra ficar. Como éramos só eu e meu avô, não foi difícil achar um quarto. Ficávamos juntos com uma família de cinco pessoas. Entre eles tinha uma bebezinha muito fofa. Não lembro bem o nome dela, até porque eu só conseguia lembrar da minha boneca quando olhava pra ela. O bebê ficou sendo a minha Sofia. A Sofia de verdade!
Meu avô já estava bem idoso e tinha um problema nas pernas, não sei bem o que era, mas às vezes ele reclamava de muitas dores.
Como ele não podia trabalhar, recebíamos a menor quantidade de alimentos. Muitas vezes era um pão velho, duro e esverdeado. [faz cara de nojo] Não cheirava bem, mas comíamos de tanta fome. Outras vezes era batata que recebíamos. Meu avô cozinhava e comíamos como se fosse a melhor das comidas. Era melhor que o pão.
De vez em quando os nazistas passavam gritando para que todos os adultos saíssem de casa. Eram as seleções para trabalhos fora da cidade. Nestes momentos eu ficava gelada, morria de medo de levarem meu avô. Todos nós ficávamos em silêncio, espremidos em um esconderijo atrás do armário. Sempre dava certo.
Estas seleções de trabalho eram bem estranhas. Os caminhões que levavam os judeus voltavam sempre vazios, ninguém nunca voltava pra ver a família. E sempre precisavam de mais gente. Estranho porque eu ouvia as pessoas reclamarem que não tinha emprego. [fala tentando entender a situação]
Algumas pessoas diziam que não era trabalho. Falavam que era pra enganar os judeus, pra gente não se revoltar... na verdade, todos eram levados para um negócio de campo de concentração. Não sei bem o que era, mas devia ser ruim. Ninguém queria ir pra lá. E olha que viver no gueto era horrível.
Como a comida era rara, muitas pessoas passavam fome. Eu mesma sentia dores no estômago de vez em quando. [colocando a mão na barriga] Tinha gente que não aguentava e morria. Nas ruas, todos os dias se viam gente morta, apodrecendo pelo caminho. A fome matou muitos judeus no gueto. Elas se deitavam na rua e perdiam as forças para levantar. Uma coisa muito triste. Sem contar as doenças que se pegava por estar tão fraco. As pessoas emagreciam até ficarem somente pele e osso.
Com os corpos nas ruas, vinham também as pragas. Ratos e baratas eram comuns nos guetos. Não tinha uma pessoa que não tivesse contato diário com estes bichos. Pulgas e piolhos invadiam as casas. As crianças eram as maiores vítimas. Eu mesma tive o meu cabelo cortado por causa dos piolhos. [passa as mãos no cabelo]
Passado um bom tempo nesta condição, chegou a pior dia da minha vida. [rosto fica bem triste] Numa destas passagens dos nazistas, mandando que as pessoas se apresentassem, o meu avô estava na rua. Tinha ido buscar comida. Ele já estava bem magro, parecia outra pessoa, perdeu uns 30kg. Quando foi abordado, disse que não podia trabalhar, mostrando as pernas com problema. O soldado não pensou duas vezes... [pausa] meu avô não teve chance de reagir. [pausa]  Assisti aquela cena da janela. Vi minha família terminar naquele dia.

A segunda aluna volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
A terceira aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Rute 3: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Depois da morte do meu avô, confesso que não tinha mais vontade de viver. Não tinha mais ninguém. Ainda me distraía com a Sofia, mas não era a mesma coisa que ter alguém da família por perto.

Passados alguns meses, começaram a levar todos embora dos guetos. Eu, a Sofia e a sua família ficávamos escondidos. Uma destas vezes, uma equipe de soldados invadiu a nossa casa. A Sofia chorava muito e seus pais taparam a sua boca com um pano. Enquanto isso os nazistas reviravam as coisas, buscando algum sinal de vida. Qualquer barulho naquele momento seria mortal. Quando eu olhei para o bebê, vi o seu rostinho ficando roxo. [pausa] Estava morta! [pausa] Morreu sufocada com o pano. [pausa] Na hora eu não me contive e deixei escapar um gemido, quase um grito. No mesmo instante os pais da Sofia também taparam o meu rosto. Ainda ouvia os soldados quebrando tudo do lado de fora. Comecei a ficar tonta sem o ar pra respirar. [pausa] Aos poucos o som foi diminuindo, diminuindo, até que não ouvimos mais nada. Neste momento, ainda sufocada decidi sair. Um soldado que havia voltado me viu e me levou.

Tudo aconteceu tão rápido que não consigo nem dizer quanto tempo durou a viagem, só sei que quando eu me vi já estava no que eles chamavam de Campo de Concentração. Mal cheguei e os soldados começaram a fazer filas, todas de meninas novas como eu. Disseram pra nós que estávamos fedendo. Um deles ainda gritou: [imitando um soldado] “Judeus sempre fedem”. E falaram que prepararam um banho pra nós.

Aquilo era meio estranho pra mim. Eu não devia primeiro conhecer onde eu iria ficar? Eu estava muito cansada pra tomar banho. Só pensava em dormir. Mas fomos todas nós para o tal banho. Chegamos a uma grande sala, fria e sem janelas. Só conseguia ver alguns buracos no teto e um negócio que só podia ser a ducha onde saía a água.

Quando nos trancaram, estávamos lá, todas nuas, olhando uma pra outra. Cada segundo que passava aumentava a nossa angústia. Eu olhava para o chuveiro e nada de sair água. De repente ouvimos um barulho. [pausa] Logo depois uma fumaça começou a sair do teto. Era um cheiro muito ruim e começamos a gritar e correr para a porta. Eu olhava em volta e via o desespero. Quando eu fecho os olhos, [fecha os olhos]  ainda posso ver a cara da morte. Ela me olhava e sorria. Não pude fugir dela. [pausa]


Não quero que sintam pena de mim. Sou forte! A vida me fez assim. O que eu quero é que a minha memória não se apague. [pausa] Eles podem ter me matado, mas eu ainda vivo! [em voz alta, firme]

As 3 alunas voltam para a coxia lentamente, enquanto a música sobe.

ATO 4
            A música continua. A terceira personagem entra no palco através de uma abertura no pano que o divide. A música diminui até parar. Nesta primeira parte, todas as 3 alunas entrarão juntas no palco e cada uma contará uma parte da história da Rebeca.

A primeira aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Rebeca 1: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Meu nome é Rebeca, sou italiana e judia. Tinha 36 anos quando fui para o país do meu marido. Ele era um alemão comerciante de tecidos. Antes de começar a namorá-lo, costurava para suas lojas. Fomos ficando apaixonados um pelo outro. Ele sempre dizia que eu era a melhor costureira da Europa. Acho que ele falava isso pra me agradar.

Tivemos uma filha linda, que tinha 8 anos naquela época. Sara era o nome dela, mas só chamávamos de Sarinha. Era o xodó da casa. [com alegria] Adorava ler. Ela viajava quando eu contava histórias antes de dormir.
Vivíamos como uma família feliz. Meu marido era ótimo pra mim. Estávamos muito bem. Pena que aquela alegria iria durar tão pouco.

A primeira aluna volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
A segunda aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Rebeca 2: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Poucos dias depois de chegarmos à Alemanha, fomos surpreendidos com a notícia de que estaria proibido o casamento entre judeus e alemães. Ficamos sem saber o que fazer. Tínhamos muito medo. Pensávamos em voltar pra Itália. Mas como eu iria conseguir passar pela fronteira? Os judeus já estavam sendo enviados para os guetos.
Alguém nos denunciou, talvez um vizinho, e um dia os nazistas bateram em nossa porta. Meu marido disse que era alemão e até mostrou seus documentos. Os soldados, mesmo desconfiados, já se viraram pra ir embora quando ouvimos um grito do lado de fora: “A mulher é judia”! [com a voz modificada]
Fui levada à força junto com a Sarinha. Foi a última vez que eu vi o meu marido. [pausa] A última vez que ele viu a filha. [baixando a cabeça]
Fomos levadas ao gueto, mas ficamos por pouco tempo. Nos colocaram em caminhões, depois em trens superlotados. Não nos diziam para onde iríamos. Eu só pensava em proteger a minha menina.
A viagem de trem foi uma tortura. Uma pequena janela para todo o vagão. Era insuficiente para a entrada de ar, e difícil de respirar. Durante dias, passamos a conviver com o mal cheiro do lugar. Todas as nossas necessidades eram feitas ali, no mesmo lugar que comíamos. [cara de nojo]
Na verdade, comer era força de expressão. Durante todo o trajeto só nos deram sopa. Sopa de mato em meio a urina, fezes e outros dejetos humanos. Não! Não tentem imaginar! Mesmo que queiram, não se compara ao que eu vivi.
Quando chegamos, fomos separados. Homens para um lado e mulheres para o outro. Mesmo assim, ainda selecionavam os que pareciam ter boa saúde. Doentes, idosos e crianças muito pequenas não sobreviviam ao primeiro dia no campo de concentração.
Eu era magra, com aparência de frágil, e minha filha podia facilmente ser descartada por seu tamanho. Só um milagre nos salvaria naquele momento.
E ele aconteceu. Um dos oficiais que faziam a seleção era um cliente do meu marido, conhecia e admirava o meu trabalho como costureira. Sem falar comigo, para que os outros nazistas não pensassem que havia algum sentimento de pena por parte dele, ordenou que eu e a Sara fossemos levadas para o alojamento dos oficiais. Nós trabalharíamos para ele.
Aquela era uma exceção. A maioria, quase todas as pessoas que participavam, direta ou indiretamente do nazismo, tinha ódio dos judeus. Nós éramos considerados um inseto, nos matar era algo normal, como quem esmaga uma barata que invade a sua casa. [fala com espanto]
O mais difícil foi passar por tudo aquilo com a Sara. Eu faria de tudo pra não deixar ela sofrer. Falava até que tudo aquilo era um filme. Um faz de conta como nas historinhas que lia pra ela antes de dormir. Todos nós estávamos ali pra atuar num papel.
Quando ela ouvia os tiros ou escutava alguém chorando, gritando, dizia pra mim que não gostava de fazer aquele filme, que já estava na hora de voltar pra casa, estava com saudades do pai. [emocionada, sem choro] Eu só falava que o filme já ia terminar, faltava pouco. Faltava pouco!
Eu sabia que não estava morta ainda porque trabalhava pra um oficial. Tinha que aceitar tudo pra não ver a minha filha vulnerável.
Sofia não sabia, mas quando ela dormia o oficial que havia salvado as nossas vidas também tirava um pouco dela. Eu era violentada diariamente. Se existe um inferno, não deve ser pior do que aquela vida. [com a voz embargada]

A segunda aluna volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
A terceira aluna dá um passo à frente e começa a falar, enquanto as outras permanecem paradas, de cabeça baixa.

Rebeca 3: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Quando o oficial que me abusava foi transferido, não sabia se me alegrava ou se ficava triste. Por um lado ele me humilhava, me fazia sofrer, mas eu sabia que a minha filha estava viva. Com a saída dele, poderia a qualquer momento sair do alojamento e voltar para o campo. E lá eu sabia que não duraria um dia.

E o que ocorreu não foi diferente disso. Depois de uns dias, nos levaram para uma sala fechada. Eu sabia que era uma câmara e que saía um gás venenoso que matava as pessoas. Mas quem chegava achava que era um local pra tomar banho. Era isso que os nazistas diziam, que eles iriam tirar a sujeira do gueto e da viagem. Tiravam as nossas roupas, cortavam os nossos cabelos e pediam todos os objetos de valor, com a promessa de que devolveriam no final do “banho”.

Acontece que, naquele dia, havia algum problema com a câmara de gás. Acho que era por excesso de uso. Nos levaram para um grande paredão. Sabia o que iria acontecer. Presenciei vários fuzilamentos naqueles tempos de alojamento.

Sara estava muito nervosa, ficou chocada com toda aquela situação. Quando estávamos chegando perto da parede, falei baixinho pra ela: [pausa] “Sarinha, se acalme, está será nossa última cena. [respira fundo] Eles vão nos matar e nós vamos fingir que estamos mortas. [bem emocionada] Depois disso, vamos embora daqui. Saímos deste campo de concentração para entrar no coração de muitas pessoas. Porque eles podem nos matar, mas ainda viveremos”!

As 3 alunas voltam para a coxia lentamente, enquanto a música sobe.

ATO 5
            A música continua. A quarta personagem entra no palco através de uma abertura no pano que o divide. A música diminui até parar. Nesta primeira parte, todos os 3 alunos entrarão juntos no palco e cada uma contará uma parte da história do Aleksander.

O primeiro aluno dá um passo à frente e começa a falar, enquanto os outros permanecem parados, de cabeça baixa.

Aleksander 1: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Eu sou o Aleksander. Nasci e fui criado na Alemanha. Mas o fato de ser um alemão não importava muito para os nazistas. Sendo de família judaica eu não tinha nacionalidade, era somente judeu.

Meus pais tinham mais ou menos uns 40 anos quando eu saí de casa, ainda adolescente. Eles eram lavradores e não aprovaram a ideia. Eu era apaixonado por música, aprendi a tocar violino com um tio. Fui tentar a vida na cidade, pois sabia que no campo não ia ter futuro com a música. Ia tocar pra quem? Para os bois? [sorrindo] Não! Eu sonhava grande. E segui o meu sonho.

Tocava em restaurantes da cidade... vivia de favores na casa de parentes e amigos. Não era fácil, mas a atém que me alimentava bem. E com o pouco que ganhava dava pra comprar as outras coisas e viver bem. Mas o que me agradava mesmo era ver as pessoas se emocionarem com a minha música. No entanto, rapidamente aquilo tudo iria desmoronar.

O primeiro aluno volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
O segundo aluno dá um passo à frente e começa a falar, enquanto os outros permanecem parados, de cabeça baixa.

Aleksander 2: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Passei uns 5 anos da minha vida tocando violino na cidade. Até que veio a ordem para os judeus irem para os guetos. Fui um dos primeiros a chegar. E a sair também. Eu estava com uns 19 ou 20 anos, cheio de saúde. Logo que me viram disseram que iriam me levar para outro lugar. Estavam precisando de trabalhadores. Fazer o que? Os judeus não tinham escolha!
Fiz parte do primeiro grupo de judeus a chegar ao pior dos campos de concentração. Logo que saí do trem que nos levou, a primeira coisa que vi foi uma imensa chaminé, naquele momento inativo. Um soldado olhou pra mim e disse: [com voz diferente] “Gostou rapaz! Pois a chaminé é a única saída daqui.” [pausa] Somente depois que a chaminé começou a funcionar que entendi o que o soldado quis dizer com aquela frase.
Não sei se foi sorte ou azar, mas o fato de ter sido um dos primeiros a chegar me manteve vivo naquele campo. O preço? Vivenciar coisas que eu jamais imaginei que uma pessoa era capaz de fazer com o seu semelhante.
Meu trabalho era no forno e funcionava assim: [pausa] os judeus chegavam ao campo de concentração e os que eram considerados incapazes de trabalhar eram separados. Os nazistas mentiam dizendo que iam ser levados para tomar banho e o jogavam na câmara de gás. Lá, uma substância venenosa tomava conta do ambiente. As pessoas gritavam e choravam desesperadas, até que em 15 minutos em média não havia mais ninguém vivo. Os corpos eram levados para outra sala, onde se finalizava a inspeção para ver se ainda existia algo que pudesse aproveitar do cadáver, como um dente de ouro. Ali, umas três pessoas, contando comigo, se revesavam colocando os corpos em carrinhos e levando-os direto para o forno. A chaminé, então, era a saída de quase todos os corpos. E eu fui obrigado a participar desta matança em escala industrial.
Diziam que a cremação era a melhor maneira de se desfazer dos corpos. Mais fácil, rápido, higiênico e que não ocuparia o espaço de covas.
Se não bastasse ter que conviver diariamente com isso, ainda presenciei outras atrocidades no campo.
Algumas pessoas eram selecionadas para servirem de cobaias em experiências, como se fossem ratos de laboratório. Cérebros eram trocados de crânio. Braços e pernas recebiam outros corpos. Uma das experiências queria saber quantas vezes um bebê suportaria ter ossos do seu corpo quebrados. [balançando a cabeça negativamente]
Os corpos dos judeus também serviam, para fazer obras de arte... arte para os nazistas, é claro. Esculturas com ossos e até abajur feito de pele humana eram produzidos nesta época. Não havia limites para a loucura! [pausa] Já alguns oficiais tinham hábitos bizarros. Do alojamento, praticavam tiro ao alvo. [pausa] Qual era o alvo? Os prisioneiros!
Ninguém tem noção do que foi viver nos campos de concentração. Viver não! Sobreviver! Diariamente perder um pedaço de dignidade, de respeito pela humanidade. Muitos não suportavam o trabalho forçado, a perda da família e se matavam. Outros morriam de frio, especialmente quando colocavam os judeus no meio da neve, sem roupas, de castigo. Se é que precisava dar algum outro castigo. Estar ali já era o pior deles.
E para ser justo, nos campos de concentração não havia somente judeus. Além dos presos políticos, estavam também negros, homossexuais, ciganos e testemunhas de Jeová. Mas,para continuar sendo justo, nenhum deles tinha o tratamento que nós tínhamos. Até mesmo estes prisioneiros nos humilhavam. Fomos perseguidos pelos próprios perseguidos!

O segundo aluno volta para a parte de trás do palco, ainda em cena.
O terceiro aluno dá um passo à frente e começa a falar, enquanto os outros permanecem parados, de cabeça baixa.

Aleksander 3: [entra em cena e anda lentamente até o centro do palco] Depois de alguns anos, começamos a receber notícias de que a Alemanha estava perdendo a guerra. Mesmo sendo alemão, pela minha situação, eu não podia deixar de ficar muito feliz. Talvez houvesse esperança de tudo aquilo terminar.

Os nazistas deram ordem para esvaziar os campos de concentração. Queriam eliminar os vestígios de tudo que praticaram. Mataram um bom tempo na capacidade máxima, na máquina de produzir cadáveres. No final, quando a saída era inevitável, abandonaram tudo. E nos levaram juntos.

Iniciamos, então, uma longa caminhada que acabou se transformando na grande Marcha da Morte. Quase 2 milhões de judeus morreram neste momento. Estávamos no inverno europeu. Não havia água, nem comida. Andando a pé por centenas de quilômetros, as pessoas iam ficando pelo caminho.

Depois de 2 semanas caminhando sem parar, em meio a estradas cobertas de neve, adoeci. Sentia que estava muito fraco. Eu ardia em febre. Sabia que se parasse de andar morreria. Isso acontecia com todos. [pausa] Mas meu corpo não agüentou. [pausa] Eu parei!

Não saí do campo pela chaminé... aquele soldado nazista estava errado. Não pude marchar, mas creio que cheguei ao meu destino. Apesar de meu corpo ter ficado ali pelo caminho, na verdade eu não parei. Continuo andando cada vez que minha história é ouvida. [pausa] Todo aquele sofrimento pode ter me matado, mas eu ainda vivo! [em voz alta, firme]

As demais personagens entram em cena. Ficam os 12 alunos em cima do palco, juntos.

ATO 6
Todas as personagens estão aliviadas. Seus objetivos foram alcançados, estavam libertos para que suas histórias chegassem ao conhecimento de todos, para que a memória deles transformasse o ódio de hoje em paz. A lição que fica é a de que devemos respeitar as diferenças, devemos ser tolerantes.

As 4 personagens (12 alunos) saem do palco em direção ao público, misturando-se a plateia. Enquanto isso a música toca ao fundo e diminui lentamente

Ester: Sobrevivemos enquanto somos lembrados.

Rute: Nosso sofrimento deve ser visto como uma lição.

Rebeca: Um aprendizado para que não se cometam os mesmos erros do passado.

Aleksander: Devemos tolerar as diferenças, respeitando a todos.

Ester: Não importa a cor!

Rute: Não importa a beleza!

Rebeca: Não importa a religião!

Aleksander: Diga não ao ódio!

Cada um dos atores entrega a placa que a identifica para um dos presentes na plateia. As 4 personagens falam juntas, em voz alta, tocando no ombro das pessoas e olhando bem nos seus olhos.

 - Não me deixe morrer!

Terminado, sobem novamente para o palco, ficam de frente para o público e as cortinas se fecham. Encerra-se o espetáculo


FIM

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domingo, 23 de setembro de 2012

A Venezuela que não conhecemos

Não quero fazer aqui uma apologia ao Chavismo, mas o certo é que devemos ter muito cuidado com as informações que recebemos da imprensa sobre a Venezuela de Hugo Chávez.
As organizações Globo têm um histórico de ataques a governos latinos de esquerda. Tenho certeza que alguns temas como a liberdade de expressão realmente sejam um problema em lugares como Cuba e no próprio país que resgatou o Bolivarismo. No entanto, o erro começa quando fazemos a nossa análise de um todo através do conhecimento de apenas uma parte da história. Imagina julgar um livro ou um filme exatamente por aquela parte mais chata da obra, ou pelo melhor capítulo/cena.
Hoje o jornal O Globo separou uma página inteira atacando Chávez por usar grande parte do lucro da PDVSA (petrolífera estatal) em programas sociais e alguns acordos internacionais que diminuiriam a capacidade comercial da empresa pública. Um entrevistado (Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura) chegou a afirmar que "geralmente governantes de países com recursos tão poderoso tratam o dinheiro vindo dele como ganho em cassino, que veio fácil". De fato, Adriano acerta em apenas uma coisa na comparação: a Venezuela tem "sorte"! O tal "cassino" é a maior reserva de petróleo conhecida em todo o mundo (296,5 bilhões de barris) e a quinta maior produtora do "ouro negro" (1,6 milhão/dia). 
No entanto, para minha surpresa, nesta mesma página o jornal apresenta (bem rápido, apenas para o leitor mais atento) o lado B desta história: "O chavismo reduziu a pobreza em 50%. Em 1999, 29% dos venezuelanos viviam na pobreza extrema. Hoje são 7%. [no Brasil o índice é de 8,5%] A Unesco declarou a Venezuela país livre do analfabetismo. [no Brasil é de 9,6%] O salário mínimo é o maior da região: US$ 414. [no Brasil é aproximadamente US$ 311] O desemprego é de 7,9%. [Enfim o Brasil ganha uma - 5,3%, mas nos EUA é de 8,1%] Segundo a ONU, a Venezuela é o país menos desigual da América Latina." [o Brasil é o quarto país mais desigual]
Surpreso? Agora imagina quantas outras Venezuelas nós não conhecemos...

PS: Acho que vai ter editor de jornal sendo demitido por deixar passar esses dados.

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sábado, 16 de junho de 2012

Vida a dois - CARLOS EDUARDO NOVAES

Juro que nunca entendi muito bem este casamento do Capitalismo com a Democracia. É claro que ambos precisariam encontrar um parceiro diante da impossibilidade de tocarem suas vidas, sozinhos. O Capitalismo é um sistema econômico e depende de um regime político que o mantenha de pé e lhe permita ganhar dinheiro. Já a Democracia é apenas uma boa moça que necessita de alguém que a sustente e pague suas despesas. Digamos que o Capitalismo entrou em um desses sites de relacionamento de casais e deu de cara com a Democracia. - É com essa que eu vou! – berrou o Capitalismo. Casaram-se e, como acontece nos casamentos, os primeiros anos foram de juras de amor eterno. Com o tempo, porém, as crises começaram a pipocar. O Capitalismo sempre foi um tipo instável, temperamental, sem princípios sólidos, que gosta de caminhar sobre suas próprias regras. A Democracia por um momento chegou a pensar que ele só se casara com ela para desfrutar do seu ideal de igualdade. Tiveram dois filhos, a Bolsa e o Mercado. A Bolsa saiu ao pai, um temperamento ciclotímico e um comportamento cheio de altos e baixos que provocou uma crise monumental em 1929 e quase levou o casal à separação. O Mercado, filho querido, cresceu e passou a tomar conta dos negócios do pai. Ganhou fama, e sempre que surgia um problema, alguém gritava: “Deixa que o Mercado resolve!” Às vezes, o Mercado metia os pés pelas mãos, o pai entrava em crise e logo chamavam a mãezona . Nos primeiros anos do século passado, um casal gay — Comunismo e Totalitarismo — instalou-se na casa ao lado, separada por um muro, e passou a infernizá-los. Barbudos, mal encarados, não havia um dia que não aparecessem na janela para xingar os vizinhos. Foram mais de 70 anos de difícil convivência, uma guerra surda (chegou a ser fria). Até que no final dos anos 80 o muro veio abaixo. Sua queda expôs a indigência da casa desmascarando as bravatas do casal gay (que se mudou para uma casinha no interior de Cuba). O Capitalismo soltou foguetes. Não demorou muito, em 1997 — menos de 10 anos após a queda do muro — Bill Clinton, o afilhado preferido do Capitalismo, alertou o padrinho para não ir com tanta sede ao pote. — Eu quero é mais! — bradou o pai do Mercado, se sentindo dono do mundo Não deu outra: jogando solto, sem ter que dar satisfações a ninguém, o Capitalismo perdeu a noção de limite e acabou mergulhando em uma crise existencial que parece não ter fim. A Democracia achou que deveria alertá-lo para o descontrole nas finanças do casal. — Você não se mete — disse ele. — Você não entende nada disso! Hoje ele respira por aparelhos. Uma junta médica reunida em Davos para diagnosticar seus males admitiu que para recuperar a saúde (e o prestigio) o Capitalismo teria que promover mudanças profundas no seu comportamento. Sua mulher tenta ajudá lo: — Você precisa ser mais humano, mais solidário, mais preocupado com o meio ambiente. Deixar de pensar tanto em dinheiro, ser menos ganancioso... — Como? — reagiu ele, certo de que não vai morrer. — Se eu mudar em tudo que estão me pedindo vou deixar de ser o Capitalismo! É isso que você quer? É isso? A Democracia não respondeu. Virou-lhe as costas e saiu resmungando: — Eu devia ter me casado com o Socialismo! Autor:CARLOS EDUARDO NOVAES

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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O PROCESSO DE DESUMANIZAÇÃO DOS JUDEUS COMO FACILITADOR DO HOLOCAUSTO

* Artigo escrito como conclusão do curso de pós graduação em História Contemporânea (Centro Universitário Geraldo Di Biase - 2011)


RESUMO

O presente trabalho tem como objeto de estudo o processo de desumanização dos judeus, obra reforçada na Alemanha dos 1920 até o fim da Segunda Guerra Mundial, enquanto o Partido Nazista esteve em evidência no cenário nacional. Compreende-se que o extermínio de cerca de seis milhões de judeus, no que ficou conhecido como Holocausto, foi possível, dentre múltiplos aspectos, devido ao fato destas pessoas não serem consideradas seres humanos. Ao contrário, a sobrevivência dos judeus era uma ameaça ao mundo, sobretudo aos arianos, devido ao seu caráter parasitário e degenerador das raças.
Palavras-chaves: Antissemitismo, Holocausto, Nazismo, judeus.

ABSTRACT

This work aims to study the process of dehumanization of the Jews in Germany reinforced the work of 1920 to the end of World War II, while the Nazi Party was in evidence on the national scene. It is understood that the extermination of some six million Jews in what became known as the Holocaust was possible, among many aspects, due to the fact these people are not considered human beings. In contrast, the survival of the Jews was a threat to the world, especially the Aryans, due to its parasitic character and degenerate race.
Keywords: Anti-Semitism, Holocaust, Nazis, Jews.


INTRODUÇÃO


O Holocausto certamente é um dos temas mais intrigantes da Idade Contemporânea. Longe de ser objeto de consenso historiográfico, se é que isso pode ser possível em qualquer tema, há inclusive aqueles que defendem a inexistência de tal acontecimento.1
O nosso trabalho pretende mergulhar no universo das possíveis explicações para a Shoah2. Quem de nós não tem uma opinião formada sobre este assunto? No entanto, eis um dos exercícios mais difíceis ensinados com maestria por Marc Bloch: o historiador não deve julgar, apenas compreender.3 E não são poucos os que advertem para o perigo do “tentar entender” se transformar em “justificação”.4 Para Claude Lanzmann, cineasta francês que dirigiu um dos maiores documentários sobre o Holocausto, explicar Auschwitz é um “ato fundamentalmente imoral”, pois, “implicaria o abandono da sensação inicial de espanto, de choque.”5 Talvez seja por tudo isso que nenhum museu ou memorial jamais conseguirá retratar a perseguição nazista aos judeus, pois segundo um sobrevivente sempre faltará o essencial: o horror.6 Nas palavras de Ian Kershaw, “diante de Auschwitz, os poderes de explicação do historiador parecem deveras insignificantes.”7
Mesmo sabendo de todas as dificuldades de enveredar-se por este caminho, decidir por este tema foi um verdadeiro questionamento pessoal. Após conhecer e me aproximar de um sobrevivente do Holocausto, sempre me perguntava o porquê. Como pessoas poderiam chegar ao ponto de assassinar tantos seres humanos? E foi numa leitura completamente diferente do tema que encontrei uma chave para começar a responder a minha pergunta. O historiador José Murilo de Carvalho, ao falar sobre a Guerra do Paraguai, demonstra como ambos os lados envolvidos se esforçavam em retratar o inimigo como um animal ou monstro, através de um processo denominado “desumanização”. Desta forma, a tarefa de matar “o outro” deixa de ser pensado como um atentado à civilidade. A culpa é minimizada e em alguns casos é nula já que não se destrói um ser humano, um semelhante, mas um macaco, um bicho, como no exemplo do conflito sul americano.8
Os nazistas, portanto, não matavam pessoas. Este é o ponto crucial do nosso trabalho. No lugar de seres humanos, o que eles combatiam? Este é a questão que tentaremos elucidar neste artigo.
Primeiramente, quando falamos na morte de aproximadamente seis milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial, no que ficou conhecido como Holocausto, estamos nos referindo a um tipo de genocídio, conceito elaborado por um judeu polonês refugiado do nazismo, Raphael Lemkin, no início de 1944. Segundo ele um genocídio seria a “destruição de uma nação ou de um grupo étnico por diferentes meios”9, geralmente executados ou incitados por algum grupo organizado ou até mesmo pelo próprio Estado, seja ele legitimado ou não pelo seu povo.
Quanto aos judeus, o consideramos como ligado aos antigos hebreus ou a religião judaica. Existem correntes dentro do judaísmo defendendo que ele deve ter os dois atributos; outros admitem apenas a descendência; alguns mais liberais aceitam inclusive os convertidos à religião. Ficaremos distantes desta contenda já que para um nazista isso pouco importa.10
Ao falarmos nos executores do projeto nazista da Solução Final11 estamos considerando apenas os nazistas12, apesar de entender que milhares de não-judeus, direta ou indiretamente, ajudaram o sistema funcionar. Pessoas que, segundo pesquisas feitas por Kren e Rapport, possuíam poucos indícios de loucura ou sadismo. Até mesmo entre os soldados da SS, cerca de 10% teriam este perfil.13
Inúmeros cientistas sociais já se dedicaram a explicar a Shoah. Um dos aspectos mais explorados é saber se o Holocausto pode ser considerado como MAIS UM dos genocídios existentes na história da humanidade, ou se ele possui aspectos únicos que o diferenciam dos demais. Na defesa da singularidade do evento está, entre outros, Serge Klarfeld14. Segundo ele, o Holocausto é único porque é um drama multifacetado: da civilização europeia, dada sua “cumplicidade” para com um “crime” alemão; da civilização cristã, visto que ocorreu em territórios católicos e protestantes; um drama da modernidade, em função de configurar-se como uma matança em escala industrial e de um “triunfo” da burocracia e da racionalidade, levadas às últimas conseqüências; da natureza humana, pois é fruto do pensamento racista. É ainda um drama indizível, pois se tornou um tabu, ameaçado de esquecimento ou de negação; por último, é uma experiência secular, devido ao histórico antissemita.15
Outra linha de explicação para a Shoah é interpretá-la como o auge da história do antissemitismo. Um dos maiores especialistas no tema, Raul Hilberg16, apresentou uma linha do tempo na qual podemos perceber a transformação pela qual passou a relação entre judeus e não-judeus. Um primeiro momento caracterizado pelo autor seria a exclusão, segregando os judeus como forma de evitar sua indesejada presença. O segundo momento seria o da conversão, quando a Igreja Católica tolerou a presença dos judeus, desde que passassem a professar a fé cristã. Por fim, o anti-judaísmo de cunho religioso acabou por ser suplantado pelo anti-judaísmo de cunho racista. Como bem escreveu Hannah Arendt, umas das estudiosas do antissemitismo, “os judeus puderam escapar do judaísmo pela conversão, mas da qualidade de judeus não havia escapatória”.17 Surgem, então, as teorias que pregarão a eliminação da “raça” judaica. O Holocausto seria a culminância deste último momento.
Alguns autores irão relativizar o aspecto antissemita, afirmando que este, sozinho, não é capaz de dar conta da complexidade do Holocausto. Para esses estudiosos, as mudanças trazidas pela modernidade foram fundamentais para o sucesso desta empreitada. Ícone desta corrente, Zygmunt Bauman18 nos chama a atenção para a grandiosidade e complexidade do trabalho de extermínio, fato impossível de ser realizado sem uma moderna estrutura burocrática e um sistema industrial da morte.
Uma outra corrente defende que o Holocausto foi tão-somente mais uma ação do programa do partido nacional-socialista. Dentre eles, ainda podemos fazer uma distinção entre os que acreditam que o extermínio dos judeus já estava claramente sistematizado nos planos de Hitler desde o início do III Reich, esperando apenas o momento certo para fazê-lo – os chamados intencionalistas -, e os que defendem a existência de uma ideia genérica de “Solução Judaica”, de uma “Alemanha Limpa”, mas sem uma direção prática para implantá-los – os chamados funcionalistas.19
Para fechar este primeiro grupo de autores - que não questionam a existência do Holocausto - encontramos alguns especialistas que destacam os aspectos psicológicos por detrás deste evento. A socióloga Helen Fein, por exemplo, fala em um contexto, gestado e colocado em prática pelo governo nazista, no qual os alemães foram retirados temporariamente de seu estágio civilizatório, quando “as pessoas podem agir sem considerar a possibilidade de estar ferindo outras.”20 Em outras áreas do conhecimento, para além das ciências sociais, pesquisadores buscam demonstrar como o ser humano pode se tornar cruel em determinadas circunstâncias, seja porque coloca a responsabilidade dos seus atos em terceiros, seja porque veem despertar dentro de si instintos “bárbaros” quando colocados em situações específicas.21
Por fim, não poderíamos deixar de falar daqueles que buscam provar a inexistência de um Holocausto, enquanto evento genocida de proporções gigantescas. Essa vertente historiográfica é conhecida como revisionista ou negacionista. Este grupo que advoga que o Holocausto não passa de uma falácia - não nega que, durante a II Guerra Mundial, milhares de judeus morreram. Negam, porém, que tenha havido um plano oficial por trás de tais mortes, visto que estas foram decorrentes da própria situação em que estavam expostos: doenças, fome, frio. Além disso, outros grupos também foram vítimas dos nazistas, fato que não teve a mesma repercussão que as mortes dos judeus. Para eles, isso se deve a uma tentativa de colocar os judeus como vítimas, justificando inclusive a implantação do Estado de Israel.22
Acreditamos que a relevância de nosso objeto de pesquisa reside justamente na ênfase a uma das missões mais caras ao historiador. Nas palavras de Eric Hobsbawn, "a destruição do passado [...] é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres [...]", posto que "os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem". Os historiadores são tão importantes, conclui ele, porque seu ofício é lembrar o que outros esquecem.23 Além disso, é comum encontrar nas salas de aula, quando abordamos este tema, dúvidas sobre como uma pessoa é capaz de cometer semelhante barbárie com outro ser humano. Muitos dos jovens acreditam que todo aquele ódio é algo distante da realidade deles, mas se esquecem de que o ódio extremo se inicia com intolerância e preconceito presentes em toda e qualquer cultura. Uma experiência que serviu de base para um filme tentou mostrar esta realidade.24


I. O ANTISSEMITISMO ATÉ O SÉCULO XIX


O grande filósofo Jean Paul Sartre chegou a afirmar que “se o judeu não existisse, o antissemita inventá-lo-ia.”25 Parece uma boa conclusão quando descobrimos, em diferentes épocas, locais onde não existem judeus e mesmo assim pode-se notar traços de antissemitismo na sociedade.26
Alguns podem dizer genericamente que se trata de um caso típico de “bode expiatório”. Nesta expressão, está presente a ideia de que uma pessoa ou grupo é culpabilizado por algo, sendo alvo de múltiplas emoções - como a raiva e o medo – que poderiam prejudicar a coesão social se não fossem expiadas nestes indivíduos.27 No entanto, esta teoria é duramente atacada por Hannah Arendt. Utilizar esta expressão para explicar a perseguição aos judeus é esconder a seriedade do antissemitismo e as causas que colocaram este povo no centro destes eventos. Afinal de contas, pergunta a autora, isso “não significa que o bode expiatório poderia ser qualquer outro grupo?”28 Por que os judeus?
Antes de continuar, é importante mencionar que a palavra “antissemitismo” contém um erro grave. A palavra “semita” ou “semítico” diz respeito à língua, excluindo-se a etnia ou a religião. Além do hebraico, o árabe, por exemplo, também é semita. Foi o uso do termo que tradicionalmente foi sendo relacionado somente aos judeus. Somente na segunda metade do século XIX que surgiu esta nomenclatura. O alemão Wilhelm Marr queria usar uma palavra que diferenciasse o antijudaísmo de sua época do precedente. Desta distinção trataremos mais adiante. Por ora, veremos como a manifestação do antissemitismo precedeu e muito o surgimento da palavra.29
A origem deste sentimento em relação aos judeus é bem antiga. Para Yehuda Bauer, professor da Universidade de Jerusalém, esta perseguição tem raízes culturais. Alguns princípios do judaísmo como a igualdade e as críticas à escravidão e à autoridade fizeram deste povo um perigo na Mesopotâmia, Egito, Grécia e Roma, que não poderiam tolerar tais idéias, completamente contrárias às bases de suas sociedades.30 Além disso, os judeus incomodavam pela sua cultura de não assimilação. Para muitos, esta última atitude era, na verdade, uma resposta aos ataques e não uma característica intrínseca do povo judeu.31
Na Diáspora da época Romana o judeu espalhou consigo o antijudaísmo, carregado de dois aspectos – ser diferente e ter outra religião.32 Antes mesmo de o Cristianismo se tornar a religião oficial do Império, vários escritos da Igreja já condenavam os judeus. Durante a Idade Média, eles recebiam as mais variadas descrições: “filhos do próprio diabo”, “um povo ímpio e insociável”, “não inventaram nada de útil na vida”, “não produziram nem homens notáveis nem sábios ilustres”, “tentaram corromper os costumes”, “exalam mau cheiro”, “uma nação perniciosa às outras”, “para eles é profano tudo aquilo que é sagrado para nós”, “desordeiros e sediciosos”, “têm chifres, orelha de porco, barba de bode, rabo e soltam um odor mefítico” “pestes do universo”, “inimigos de Deus”, “rebeldes”, “raça de víboras”, “delatores”, “caluniadores”, “fermento farisaico”, “malditos execráveis”, “apedrejadores”, “inimigos de tudo o que é belo”, “corrompidos, devassos e cúpidos”. As sinagogas eram vistas como “um antro de bandidos, a sede dos demônios e da idolatria” e suas preces são comparadas ao grunhido de porcos e ao zurrar dos asnos.33
O antissemitismo da população era baseado em idéias como o deicidio34, a profanação da hóstia sagrada35 e aos supostos rituais macabros36 realizados pelos judeus. Em diversos lugares eles eram marcados, seja por uma mancha, um chapéu, através de um sino ou uma cor específica de roupa.37 Aos poucos foram surgindo os guetos, na mesma época em que os judeus começaram a sofrer com os ataques de cristãos – os chamados pogroms38. Este isolamento acabou por reforçar o que mais caracterizava os judeus, oportunizando a manutenção da cultura judaica e dos laços de união diante de um agressor externo.
Mesmo sabendo que a base religiosa era fundamental para a perseguição aos judeus na Idade Média, não podemos deixar de mencionar outros. Proibidos de possuírem terras, aos judeus só restaram o comércio e o crédito. Soma-se a isso o fato de que a usura era considerado um pecado pela Igreja Católica e proibido aos cristãos. Aos poucos a associação dos judeus com o dinheiro tornou-se muito forte, a tal ponto que a imagem do “judeu avarento” ser uma das mais presentes até os nossos dias.39
Não importa qual seja o argumento, a origem é a mesma. Era chamado de revolucionário ou reacionário, comunista ou capitalista, acusado de ser isolacionista ou querer se misturar. Segundo Paulo Geiger40, “os motivos são alegações, racionalizações e explicações de um preconceito necessário.” Os judeus, na expressão utilizada por Anna Zuk, eram uma “classe móvel”: podia ser percebida como inferior para as elites e, ao mesmo tempo, esnobe para as classes baixas.41
Passando da Idade Média para a Moderna, não pensemos que a Reforma Protestante aliviou a situação dos judeus. Dois dos ícones deste evento, Lutero e Calvino, possuem escritos reveladores que transbordam antissemitismo. O primeiro, em sua obra “Sobre os judeus e suas mentiras” orientava seus fiéis a queimarem sinagogas, além de escrever que “eles são filhos do diabo, condenados às chamas do inferno.”42 Já Calvino dizia que “os judeus estupidamente devoram todas as riquezas da terra com sua cupidez desenfreada.”43
Nem mesmo um movimento que inspiraria a emancipação dos judeus tempos depois deixou de ter seus textos antissemitas. Um dos maiores nomes iluministas, Voltaire, teria afirmado em um artigo “Juifs”, no Dictionnaire Philosophique: “Em suma, consideramo-los apenas um povo bárbaro e ignorante, que há muito uniu a mais sórdida avareza a mais detestável superstição e ao ódio mais invencível pelos povos que os toleram e os enriquecem. Devíamos ainda simplesmente queimá-los.”44
Percebemos que no decorrer da sua história o judeu foi sempre o diferente. E é justamente esta diferenciação que provocava a discriminação, pois o preconceito não ocorre com alguém semelhante ao preconceituoso. Neste aspecto, argumentaria a psicanálise, o antissemitismo é antes de tudo um fenômeno psicológico, que só depois se torna social.45
Por fim, há uma corrente que enxerga com outros olhos a história das perseguições aos judeus. Para esses autores não existe um antissemitismo. Pelo contrário, são os judeus que sempre quiseram se isolar pelo mundo, inclusive praticando uma espécie de eugenia46, para se defenderem da competição com os não judeus. O que alguns chamam de antissemitismo nada mais seria do que uma reação natural, algo como um “contra-ataque” do mundo diante desta atitude. A culpa do antissemitismo seria, portanto, dos próprios judeus.47


II. O “ANTISSEMITISMO RACIAL”


Os ideais da Revolução Francesa exportaram a “necessidade” de igualar juridicamente todos os cidadãos. Neste embalo, o século XIX foi o momento em que os judeus saíram dos guetos e iniciaram um processo de emancipação, sendo inseridos civilmente na sociedade, com os mesmos direitos e deveres dos demais cidadãos.
No início, alguns judeus não comemoraram esta emancipação. O direito ao voto e ao serviço militar implicaria também o abandono ao seu estilo de vida, com seus velhos controles comunitários.48 Com o passar do tempo, se acostumaram e houve uma aculturação.No entanto, mesmo que tivessem deixado de ser parias políticos e civis, os judeus continuavam sendo parias sociais.49
No século do cientificismo, as teorias raciais viriam para fornecer uma nova (sem excluir as outras) justificativa para o antissemitismo. Ou seja, a assimilação dos judeus nas sociedades europeias supostamente os colocaram em situação de igualdade. Era preciso, portanto, diferenciá-los de modo permanente.50 Explode a noção do judeu como uma raça degenerada e que deve ser separada e até destruída do convívio com as demais, sob a grave possibilidade de contaminá-las. Os judeus fizeram uma conversão de “forasteiros religiosos” a “forasteiros étnicos”51
No contexto alemão, as teorias raciais eram somadas às “descobertas” do passado glorioso e o resgate dos arianos. O que se seguiu, nas palavras de Leon Poliakov, foi um verdadeiro “maquineísmo racial” entre estes últimos e os semitas.52
O nazismo não tirou suas idéias do vazio. Cientistas buscam classificar os seres humanos em raças desde o final do século XVII. Cerca de um século depois, um médico alemão, Johann Friedrich Blumenbach, encontrou 5 grupos humanos. No século XIX, sob influência ou não de Darwin53, vários estudiosos encontraram 3, 4, 7, 11 ou 12 raças. No século XX, etnólogos corrigiam esta informação e diziam ser 29. Outros chegaram a incrível marca de 38 raças.54
Uma das maiores influências, neste sentido, para o pensamento de Hitler foi Chamberlain, para quem a história da humanidade é a da luta entre as raças. Os arianos, dizia ele, são os únicos com a capacidade de dominar o mundo. No entanto, os judeus aos poucos teriam corrompido o sangue dos arianos. Não havia remédio melhor do que eliminar o contato entre os dois. Somente assim a raça ariana poderia restaurar a sua força de “homens deuses”55
Outro nome importante foi Gobineau, defendendo que as raças brancas, sobretudo os arianos, estão na origem das grandes civilizações. De forma parecida com Chamberlain, dizia que a miscigenação levava à degeneração racial.56 Porém, diferente dele, não execrava os judeus. No seu “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas” (1853-55), Gobineau fazia referência a eles como “um povo livre, um povo forte, um povo inteligente (...) que (...) fornecera ao mundo quase igual número de doutores que de mercadores.”57
Para concluir a galeria dos cientistas, abrimos espaço para Francis Galton. Mergulhado na ideia de darwinismo social, este pesquisador defendia a política de casamentos seletivos como meio de “melhorar” a humanidade. Galton criou um termo, em 1883, para designar esta nova área da ciência: eugenia (bem nascer).58 O pressuposto aqui era que o fator fundamental para determinar as qualidades humanas, como a inteligência, seria a herança genética. O que veremos no nazismo é a adaptação desta chamada “eugenia positiva” – orientando a reprodução – para uma “eugenia negativa” – exterminando os considerados “geneticamente incapazes”.59 Na Alemanha, esta ciência recebeu o nome de “higiene da raça”.60
Além destes cientistas mais famosos, encontramos na academia uma preocupação intensa em estudar o povo judeu. Na segunda metade do século XIX, Gustave Le Bom, em uma revista científica, dizia que “entre seus sentimentos, suas idéias e os dos povos arianos, existem verdadeiros abismos.”. Em outro trabalho, uma tese de doutorado, o doutor Henry Meige fala sobre o “judeu errante” como uma “patologia nervosa”, evidentemente como “uma característica de sua raça.”61
Ainda como consequência da emancipação, multiplicaram-se casos de pogroms pela Europa, sobretudo na parte oriental. Na Rússia, o próprio governo incitava o antissemitismo. No início do século XX, patrocinado pelo czar Nicolau II, foi amplamente divulgado um suposto plano de dominação do mundo pelos judeus – O Protocolo dos Sábios de Sião. Antes disso, o procurador do Santo Sínodo teria dito: “que 1/3 dos judeus emigrem, 1/3 se converta ao cristianismo, e 1/3 morra.” Já um ministro prometera que deixaria “a situação na Rússia tão intolerável que os judeus serão forçados a emigrarem até o último homem.” Em momentos de crise estouravam-se dezenas, até centenas de ataques a judeus. Somente no ano de 1905, quando o país foi derrotado na guerra contra o Japão, foram 690 pogroms.62
Mesmo na parte ocidental da Europa surgiam associações antissemitas e era raro algum partido político não colocar a questão judaica na sua plataforma.63 Declarar-se inimigo dos judeus era uma forma de conquistar seguidores.64 Um estudo mostrou que de 51 escritores alemães antissemitas, entre 1861 e 1895, 19 deles admitiam o extermínio físico dos judeus.65 Neste último país, nas décadas de 1870 e 1880, mais de 500 escritos e livros antissemitas foram publicados.66 Na França, justamente onde um século revolucionários clamavam por igualdade, a ralé gritava “morte aos judeus”. Obras preconceituosas como “A França judaica”, de Marpon e Flamarion eram até best-sellers.67 Um caso ganhou repercussão e expôs ao mundo o tamanho do preconceito com os judeus neste país. O capitão Alfred Dreyfus foi acusado e condenado por espionagem. Tempos depois ficou provado o erro e o capitão foi considerado inocente. Não obstante, a população, pelo fato de Dreyfus ser judeu, continuou a considerá-lo um traidor.68
Por último, Bauman não nos deixa esquecer que “numa época de nacionalismos exacerbados, o judeu era uma nação sem nacionalidade, um estrangeiro em seus países, porém diferentes dos outros – um ‘inimigo interno’”. Num século que se exalava nacionalismo, os judeus eram o “vazio nacional”.69
Neste contexto, o sionismo surge, então, como uma resposta. Este movimento é baseado em preceitos teológicos, a posse da Terra Prometida, e é retomado em seu aspecto político social, como defesa diante dos ataques antissemitas e como desejo de viver em um lugar em que os judeus tivessem voz e comando.70
Mesmo que não fosse um movimento significativo, se considerarmos a totalidade da comunidade judaica na Europa, o sionismo influenciou, em parte, milhares de judeus começarem a migrar para a Palestina durante a segunda metade do século XIX.71


III. O NAZISMO E O PROCESSO DE DESUMANIZAÇÃO DOS JUDEUS


A tarefa de analisar as características do regime nazista está muito além do que este curto espaço permite. No entanto, parece essencial que alguns aspectos deste período da história alemã sejam apontados para contextualizar o nosso objeto.
O nazismo é visto como a versão alemã do fascismo e incluído na tipologia de governo denominado totalitário, visto que se caracterizou como um regime que controlava os aspectos público e privado da sociedade, extrapolando a autoridade legítima de um Estado.72 O ambiente que o gestou foi peculiar: um governo democrático frágil, polarização entre a esquerda e a direita nacionalista, crise econômica e, por fim, a figura de um líder incorporando os símbolos nacionais.
Muitos autores argumentam que uma das chaves do êxito, neste momento, do nazismo foi transformar um contexto completamente desanimador em trampolim para a construção de um mito da grandeza da nação. Ao forjar o Volks alemão - uma unidade cultural e sobretudo da raça ariana – este movimento mascarou os conflitos internos e fez o país acreditar que faria parte de um Império de mil anos – o III Reich.73
Uma boa parte do ideário nazista consistia no culto à personalidade do Füher. As referências que se fazia a Hitler passavam por “um líder sábio e onisciente.”, “gênio” e chegava ao ponto de ser descrito como “um novo e mais poderoso Jesus Cristo” ou “o verdadeiro Espírito Santo”. Ele próprio se considerava um salvador. Algumas mulheres escreviam pedindo para ter a honra de ter um filho dele.74 Já na década de 1930, por onde passava Hitler era acompanhado por uma multidão.75 O encontro com o Füher era uma experiência impactante para muitos. Um alto magistrado alemão, diante do carisma daquele pequeno austríaco, confessou: “Sobreveio, então, o grande arrepio de satisfação. Fitei-o nos olhos, ele fitou os meus e depois disto só tive um desejo, voltar para a minha casa, a fim de ficar só com aquela imensa impressão que me esmagava.”76 Não foram poucos os que entraram no NSDAP deslumbrados pela figura de Hitler.77
Não obstante, qualquer menção sobre o nazismo que não leve em conta no seu cerne a questão racial se configura como incompleta. Para Hitler, este assunto não estava na pauta e sim era o grande objetivo. A fonte mais extensa sobre o ideário do Füher é o famoso Mein Kampf (Minha Luta), escrito em meados dos anos 1920, quando ele esteve preso após uma tentativa de golpe fracassada. A leitura atenta desta obra, somado às inúmeras manifestações de Hitler ao longo de sua vida, revelam que o seu antissemitismo era obsessivo.78
Os judeus passaram por um processo longo de assassinato. Na visão de Georges Bensoussan, antes mesmo da morte física, o nazismo primeiramente forçou os judeus a uma “morte civil”, excluindo-os de funções públicas e dos meios culturais. Em seguida, com as Leis de Nuremberg79, segregou os judeus dos “verdadeiros” alemães, foi a “morte política”. E depois, ainda imprimiu uma série de medidas que levaram à ruína os negócios e os empregos daquele povo, configurando uma “morte econômica”.80 E não podemos esquecer que estes objetivos eram abertamente divulgados. Quem apoiou o nazismo devia saber que esta posição também implicava a exclusão dos judeus. Já em 1920, quando foi escrito o programa do partido, o item de número 4 dizia que “somente os membros do povo podem ser cidadãos do Estado. Só pode ser membro do povo aquele que possui sangue alemão (...) nenhum judeu, portanto, pode ser membro do povo.”81 Uma intensa operação de propaganda antissemita foi desencadeada após a ascensão do nazismo. Jornais, livros (inclusive infantis),revistas e o cinema foram utilizados para reforçar a imagem negativa dos judeus. O aparato educacional foi direcionado para multiplicar esta rejeição.82
A luta contra o judaísmo ganhou contornos apocalípticos, uma batalha entre o bem e o mal. Hitler via o Diabo com um trejeito judeu e dizia que Cristo, ariano para os nazistas, foi o primeiro antissemita.83 Para o Füher, lutar contra o judaísmo era realizar obra de Deus.84
Apesar desta conotação religiosa, a questão racial, na expressão utilizada por Richard Overy, ganhou status de “biologia política”, sendo necessário limpar o corpo da nação alemã das ameaças biológicas.85 Os nazistas se transformaram em verdadeiros “soldados biológicos”. 86 Este foi o caminho que levou à desumanização dos judeus.
Ao utilizar uma linguagem médica para justificar o ódio aos judeus, o nazismo pegava emprestado algumas noções da eugenia e conferia um caráter científico à questão judaica. A sociedade alemã era vista como o corpo e como tal sujeito à vários tipos de doenças. Para manter este organismo saudável era preciso eliminar o perigo do contágio diante de “parasitas”, “bacilos”, “vermes”, “tumores cancerosos”, “bactérias” etc. Nenhum grupo foi tão identificado com estes nomes do que os judeus.87 Nas palavras de Saul Friedlaender, “a identificação do judeu com a contaminação representou o móvel autêntico e fundamental para sua aniquilação.”88 Não havia escolha: era preciso eliminá-los, pois como bem observou Bauman, mesmo fora da Alemanha “os judeus continuariam a produzir erosão e desintegração da lógica natural do universo.89
Para Hitler, o grande papel do Estado era a sua conservação racial.90 O judaísmo é visto como “fermento de decomposição dos povos e raças e, em sentido mais vasto, de ruína da cultura humana.”91 No Mein Kampf, são inúmeras as referências ao judeu como seres desprovidos de humanidade. Seguindo a analogia com o corpo, ele diz: “quem abrisse o tumor haveria de encontrar, protegido contra as surpresas da luz, algum judeuzinho. Isso é tão fatal como a existência de vermes nos corpos putrefatos.” Em seguida, os judeus são culpados pela Peste Negra medieval e visto como seres “portadores de bacilos da pior espécie”. Mais adiante, Hitler avança nesta visão ao dizer que o judeu “é e será sempre o parasita típico, um bicho, que, tal como um micróbio nocivo, se propaga cada vez mais, assim que se encontra em condições propícias (...) o povo, que o hospeda, vai se exterminando mais ou menos rapidamente.” Ainda podemos ver outras referências como “uma verdadeira sanguessuga” e “piolheira judaica” nesta obra que se tornou um manual para os nazistas.92 Já durante a Segunda Guerra, o Füher afirmou que “o combate que travamos é da mesma natureza que o combate travado no século passado por Pasteur e por Koch.”93
A noção de higiene racial não era difundida apenas pelo líder nazista. Vários outros membros importantes também faziam referência à necessidade da Alemanha fazer um favor ao mundo, como diria o Ministro da Propaganda Goebbels: “Nossa tarefa aqui é cirúrgica, incisões drásticas, senão algum dia a Europa perecerá da doença judia.”94 Em outra oportunidade ele disse: “não podemos tolerar as bactérias, os vermes e a peste. O asseio e a higiene nos obrigam a torná-los inofensivos, exterminando-os.”95 Pode-se até pensar que tais textos fazem parte da manipulação nazista. Mas os mesmos argumentos eram expostos no âmbito pessoal e não somente nos discursos públicos. O mesmo ministro fez registro em seus diários lembrando dos judeus como “eczema peçonhento no corpo de nossa nação enferma” e afirmou: “os judeus podem nos destruir se nós não nos defendermos contra eles. É uma luta de vida ou morte entre a raça ariana e o bacilo judeu.”96
Outro ministro de Hitler, Himmler, teria dito que o antissemitismo é a mesma coisa que a eliminação de piolhos, desembaraçar-se das pulgas não é uma questão de filosofia, é uma questão de higiene.”97
Talvez o mais radical dentre os oficiais nazistas tenha sido Julius Streicher, que publicava o jornal antissemita “Der Stümer” e escreveu o famoso livro infantil “O Cogumelo venenoso” (o judeu, evidentemente, era o personagem principal da obra). Ele dizia que “um único coito de um judeu e de uma ariana basta para envenenar o sangue desta.” Proibições como a de aceitar leite de mães judias ou compartilhar fontes de água, até mesmo para tomar banho numa piscina, demonstravam o medo que se possuía de uma contaminação. Chegou-se à situações no mínimo bizarras, como de uma resolução na Baviera que proibia o cruzamento com gados comprados de judeus afim de evitar uma epidemia.98
O próprio Zyclon B, utilizado nas câmaras de gás, era um produto fabricado para matar insetos parasitas. Este processo de desumanização dos judeus explica, em parte, a ausência de bloqueios morais e éticos na utilização destes indivíduos como ratos de laboratório em experiências bizarras. Uma passagem do depoimento de Rudolf Höss, comandante de Auschwitz, durante o Tribunal de Nuremberg99, é salutar para compreendermos como funcionava a moral do nazista. Se defendendo da acusação de furtar pertences dos judeus que entravam naquele campo, Höss afirmou: “Mas isso teria sido contra os meus princípios (...) não teria sido honesto.”100 Claro! Assassino de judeus com muito orgulho, mas ladrão não, aí já é demais.
Retirar a humanidade dos judeus foi uma das tarefas fundamentais para o projeto de morte sistemática deste povo. E, ao que tudo parece, os nazistas tiveram sucesso nesta operação. Relatos de sobreviventes mostram como foi dura esta realidade. Uma delas, que não passou pelos Campos101, escreveu em suas memórias: “Durante a guerra aprendi uma verdade que geralmente preferimos não enunciar: que a coisa mais brutal da crueldade é que ela desumaniza suas vítimas antes de destruí-las. E que a luta mais árdua de todas é permanecer humano em condições desumanas.”102
Em Auschwitz, os prisioneiros se transformavam em números, que eram tatuados em seus braços de modo semelhante ao que se faz com o gado. Militares alemães se referiam aos judeus como peças. Primo Levi, químico e judeu italiano, que passou por este campo e deixou obras memoráveis de suas experiências, conta a história de um Kapo103 que foi repreendido quando se referiu aos prisioneiros como “homens”. Ele conta ainda que no Campo, “alimentar-se” se indicava com a palavra fressen, verbo que em bom alemão só se aplica aos animais. Levi continua falando que todas as humilhações (falta de higiene, nudez, alimentação) por quais eles passavam, mesmo que indiretamente os transformavam em bichos. 104


CONCLUSÃO


O final desta história todos já conhecem. O Holocausto ceifou a vida de cerca de seis milhões de judeus, representando 65% da população judaica na Europa e 30% do mundo.105 Alguns discordam do cálculo, exigindo o rigor dos gélidos números. Será que importa alguma coisa dizer que em vez de seis foram quatro milhões? Parece uma discussão sem sentido, que não leva a lugar algum.
O que parece importante é, por exemplo, compreender como é possível uma pessoa superar todo este sofrimento e retomar a vida que foi, boa parte dela, mutilada nos Campos. Os efeitos psicológicos nos sobreviventes não entram nas estatísticas dos revisionistas, mas as palavras de Primo Levi revelam uma dura realidade: “Quem sofreu o tormento não poderá mais ambientar-se no mundo, a miséria do aniquilamento jamais se extingue. A confiança na humanidade, já abalada pelo primeiro tapa no rosto, demolida posteriormente pela tortura, não se readquire mais.”106
Em uma época em que o neonazismo é uma triste realidade, quando temos jovens desenhando a suástica sem ter a mínima noção do que ela representou para o mundo, urge uma reflexão: será que lembramos o suficiente? Para responder recorro a Bauman, que faz uma crítica fundamental da nossa sociedade. Ficaríamos felizes se pudéssemos provar que o Holocausto foi orquestrado por maníacos assassinos, ou ainda se pudermos continuar considerando a Shoah como um evento dos alemães e dos judeus. Diferente disso, este evento tem muito a dizer sobre a nossa sociedade, foi ela que permitiu o Holocausto, esta mesma coletividade moderna, civilizada e racional. Fugir disto é uma espécie de “autocura” da sociedade.107
Não foi nossa intenção neste trabalho afirmar que o antissemitismo explica, por si só, o Holocausto. Aliás, deixamos claro desde o início a dificuldade em tratar deste tema. Antes, consideramos que o antissemitismo e o processo de desumanização dos judeus foi um dos fatores que nos fazem compreendê-lo. Aquela tentativa de esclarecimento que, ao nosso ver, chega mais perto da realidade é a defendida por Sarah Gordon. Esta autora apresenta uma soma de fatores: a) um antissemitismo radical; b) um estado Totalitário que tivesse como ideário este ódio aos judeus; c) um aparato burocrático impecável para executar os desejos deste estado; d) uma situação de emergência, como de fato a Segunda Guerra proporcionou; e) adesão ou indiferença da população em relação ao extermínio.108 Esta seria, apesar de não gostar desta expressão, a “fórmula” do Holocausto.
No início deste estudo, fiz referência a um sobrevivente que teria me inspirado na escolha deste tema. Trata-se de Aleksander Laks, um judeu que faz questão de dizer que é brasileiro, apesar de “por acaso” ter nascido na Polônia. Em seu livro109, ele conta a sua história e deixa algumas lições. Uma delas não está no corpo do texto, mas pode ser lida para quem pede uma dedicatória, como este que vos escreve. É com ela que encerro, na torcida de ter contribuído, mesmo que de forma minúscula, para o desejo de Laks.

Espero que o meu passado não seja o futuro de ninguém


REFERÊNCIAS

1 Bacharel e licenciado em História; Especialista em História Contemporânea.
2 Referimos-nos aos revisionistas ou negacionistas, de quem falaremos mais adiante.
3 Shoah, palavra hebraica que significa “destruição, ruína, catástrofe”, é como os judeus preferem se referir ao Holocausto, já que esta última expressão, de origem grega, significa “sacrifício a Deus”, o que levaria a uma interpretação específica sobre este evento. Paul Celan não usava nenhuma das duas palavras, preferindo a expressão “was geschah” (“aquilo que aconteceu”). Ver CAVALCANTI, Ania. O universo concentracionário nazista de 1933 a 1945 e a implementação da “Solução Final” da Questão Judaica, 1941-1945. Aula do curso "Panorama Histórico do Holocausto", USP,  agosto de 2008. Disponível em: Acessado em: 29/10/2010.
4 BLOCH, Marc. Apologia da História ou ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001, p.125-128.
5 ROSENFIELD, Denis. O Mal e a Razão. In: FUKS, Saul (org.). Tribunal da História: julgando as controvérsias da história judaica. Rio de Janeiro: Relume: Centro de História e Cultura Judaica, 2005, pp. 210-211.
6 LESSA, Renato. Pensar a Shoáh. In: FUKS, Saul (org.). Op. Cit., p. 229. O documentário dirigido por Lanzmann, com mais de 9 horas de duração, é o Shoah (1985).
7 CYTRYNOWICZ, Roney. As formas de lembrar e a história do Holocausto. In: MILMAN, Luis; VIZENTINI, Paulo Fagundes (orgs). Neonazismo, Negacionismo e Extremismo Político. Porto Alegre: Editora da Universidade – UFRGS, 2000. Disponível em: . Acesso em: 23/09/2010.
8 Apud HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos. O breve século XX: 1914-1991. Companhia das Letras. São Paulo, 1995, p. 113.
9 CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e políticas no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006, pp. 181-182.
10 Apud CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Holocausto: História e Memória, p. 28; In Nunca Mais – educando para a cidadania e a democracia. 1ª jornada interdisciplinar Intolerância e Holocausto: como estudar e ensinar. Rio de Janeiro. Secretaria do Estado do Rio de Janeiro, 2010.
11 FONTETTE, François de. História do Antissemitismo. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1989. A lei rabínica tradicional entende como judeu aquele que é nascido de mãe judaica ou convertido legitimamente ao judaísmo. Vide BARON, Salo W.. História e Historiografia do povo judeu. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974, p. 121.
12 O eufemismo “Solução Final” teria sido a decisão tomada na Conferência de Wannsee (janeiro de 1942) determinando o extermínio em massa de todos os judeus presentes nos territórios ocupados pela Alemanha. Ver FONTETTE, François de. Op. Cit., p. 108.
13 Chamaremos de nazistas, no nosso estudo, apenas os membros do partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP).
14 No estudo “The Holocaust and the Crisis”, Apud BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Jorge Zahar. Rio de Janeiro, 1998, pp.38/39.
15 Ficou conhecido, junto com outras pessoas, como “caçador de nazistas”, procurando e juntando provas para levar os executores do Holocausto para a justiça. Escreveu trabalhos sobre as crianças no Holocausto.
16 Apud CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Op. Cit.
17 HILBERG, Raul. The Destruction of the European Jews.
18 Apud BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., p.81.
19 BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit.
20 Sobre a distinção entre historiadores intencionalistas e funcionalistas, ver BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., p. 129.
21 Apud BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., p. 23.
22 Sobre a primeira experiência, ver Stanley MILGRAN. The Individual in a Social World. Quanto à segunda, ver Curtis Banks & Philip Zimbardo. Interpersonal Dynamics in a Simulated Prision. Ambos em BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., pp. 181-190; 194-195.
23 Além dos prisioneiros de guerra, ciganos, Testemunhas de Jeová, homossexuais, doentes mentais e físicos estão presentes na lista dos que foram mortos pelo governo nazista. Os revisionistas ou negacionistas possuem uma grande aceitação entre os neonazistas e os “inimigos de Israel”, como alguns países islâmicos. A internet é o principal veículo de divulgação dessas ideias no Ocidente, já que em muitos países a legislação proíbe este tipo de conteúdo, geralmente antissemita. Uma obra completa para este tema é MILMAN, Luis; VIZENTINI, Paulo Fagundes (orgs). Op. Cit. Sobre as críticas de um suposto uso político e econômico do Holocausto, ver FINKELSTEIN, N.G.. A Indústria do Holocausto. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 2001. Disponível em Acessado em 03/01/2010.

24 HOBSBAWN, Eric. Op. Cit., p. 13.
25 "A Onda"  [ The wave]  –  Dur.: 45 minutos – Direção: Alex Grasshof - País: EUA - Ano: 1981
26 SARTRE, Jean Paul. Reflexões sobre o racismo. Rio de Janeiro: Difel, 1979, p. 8.
27 NOVINSKY, Anita. O racismo e a questão judaica. In Lilian.K.M. Schwarcz e R.S.Queiroz (org.) Raça e Diversidade. São Paulo, Edusp/Estação Ciência, 1996. Disponível em: Acessado em: 29/09/2010.
28 JOHNSON, Allan G. Dicionário de Sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p. 27.
29 ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: Anti-semitismo, instrumento de poder. Rio de janeiro: Documentário, 1975, pp. 24 e 26.
30 FONTETTE, François de. Op. Cit. pp. 9-10.
31 Apud NOVINSKY, Anita. Op. Cit.
32 SARTRE, Jean Paul. Op. Cit., p. 58.
33 Ver GEIGER, Paulo. Antissemitismo. In: Nunca Mais. Educando para a cidadania e a democracia. Op. Cit.
34 FONTETTE, François de. Op. Cit., p. 21; 24; 30-31.
35 Acusação pela morte de Jesus. Muitos usam como base a passagem de Mateus 27,25: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos”, teria dito o povo judeu após “condenar” Jesus e absolver Barrabás.
36 Dizia-se que os judeus, por exemplo, chicoteavam a hóstia, até que ela sangrasse (sic).
37 O sumiço de crianças num povoado era logo “solucionado” com a acusação de que os pequenos eram sacrificados em rituais religiosos pelos judeus.
38 MARGULIES, Marcos. Do racismo ao Sionismo: uma análise conceitual. Rio de Janeiro: Editora Documentário, 1976, pp. 69-70.
39 Palavra de origem russa que define um organizado, embora aparentemente espontâneo, ataque de multidão à determinada coletividade judaica, com saques, violência e massacre. Ver ARENDT, Hannah. Op. Cit., p. 106.
40 A imagem que surgiu na Idade Média pelos motivos expostos não teria o porquê de se manter até hoje. No entanto, a tradição criou o estereótipo, que se torna mais forte do que o objeto real. Vide GEIGER, Paulo. Op. Cit, p. 43.
41 Idem Ibidem, p. 45.
42 A conclusão de Anna Zuk, da Universidade de Lublin, se baseia no estudo da sociedade polonesa do século XVIII. Apud BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., pp. 62-63.
43 ZAGNI, Rodrigo Medina. As Profundezas do Intangível: Relações entre o antissemitismo religioso e o antissemitismo "científico" na justificativa nazista para a Shoah. Aula inaugural do curso "Panorama Histórico do Holocausto", USP, 02/08/2008. Disponível em: . Acessado em: 27/09/2010. Cf FONTETTE, François de. Op. Cit., pp. 58-59.
44 BARON, Salo W. Op. Cit., p. 62.
45 Idem Ibidem, p. 137.
46 Afirmativa baseada em BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., p. 43. Por sua vez, o autor citado menciona uma obra chamada “Distúrbios sociais e antissemitismo”, de AKERMAN E JAHODA.
47 Uma referência à tradição de casamentos entre judeus.
48 Um dos defensores desta ideia é o psicólogo Kevin McDonald, nas obras “Um povo que habita sozinho” e na monografia “ Compreendendo a influência judaica”. Apud BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., pp. 40-41.
49 BARON, Salo W. Op. Cit., p. 130.
50 ARENDT, Hannah. Op. Cit. p. 95.
51 BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., pp. 79-80.
52 MAGNOLI, Demétrio. Uma gota de sangue: história do pensamento racial. São Paulo: Contexto, 2009, p. 36.
53 POLIAKOV, Leon. O Mito Ariano. São Paulo: Perspectiva, 1974, p.260.
54 O próprio Darwin colocava em dúvidas a uniformidade racial tanto dos arianos como dos semitas. Idem Ibidem, p. 242.
55 MAGNOLI, Demétrio. Op. Cit., p. 21.
56 ZAGNI, Rodrigo Medina. Op. Cit.
57 MAGNOLI, Demétrio. Op. Cit., p.24.
58 FONTETTE, François de. Op. Cit., pp.72-73.
59 GUERRA, Andréa Trevas Maciel. Do holocausto nazista à nova eugenia no século XXI. Cienc. Cult., jan./mar. 2006, vol.58, no.1, p.4-5. ISSN 0009-6725. Disponível em: . Acessado em: 27/09/2010.
60 LEWIN, Helena. A eugenia a serviço do antissemitismo: o caso Brasil. In: LEWIN, Helena (coord.) Judaísmo e globalização: espaços e temporalidades. Rio de Janeiro: 7 letras, 2010, pp.351-352.
61 POLIAKOV, Leon. Op. Cit., p.288.
62 Apud Idem Ibidem, pp.264; 275.
63 MARGULIES, Marcos. Op. Cit., p. 80.
64 ARENDT, Hannah. Op. Cit. pp.121;65-66.
65 CARNEIRO. Maria Luiza Tucci. Holocausto: crime contra a humanidade. São Paulo: Editora Ática, 2007, p.20.
66 Trata-se do estudo feito por Klemens Felden e citado por CARNEIRO. Maria Luiza Tucci. Op. Cit., p.18.
67 Idem Ibidem.
68 Esta obra chegou a ter 114 edições em 1 ano. Ver FONTETTE, François de. Op. Cit., p.75.
69 Para uma descrição completa do processo Dreyfus, ver ARENDT, Hannah. Op. Cit. Capítulo 4.
70 BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., pp. 73-74.
71 O Sionismo não era algo homogêneo, existindo várias nuances que permanecem até hoje. Ver MARGULIES, Marcos. Op. Cit., pp. 92-121. No século XIX, o sionismo é basicamente secular. Ver ARMSTRONG, Karen. Jerusalém: uma cidade, três religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p.416.
72 Já na década de 1880, quando Nathan Birnbaim usa pela primeira vez o termo “sionismo” e dois anos depois acontece o Primeiro Congresso Sionista, estima-se que havia de 10 a 24 mil judeus na Palestina. Ver SMITH, Dan. O atlas do Oriente Médio: conflitos e soluções. São Paulo: Publifolha, 2008, p. 36.
73 Interpretação baseada em JOHNSON, Allan G. Op. Cit., p.25.
74 KONDER, Leandro. Introdução ao Fascismo. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1977, p. 11.
75 Informações retiradas de STACKELBERG, Roderic. A Alemanha de Hitler. Origens, interpretações, legados. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2002, p. 201; DAVIDSON, Eugene. A Alemanha no banco dos réus. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970, p.396; OVERY, Richard. Os Ditadores: a Rússia de Stalin e a Alemanha de Hitler. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009, pp.44,138,147.
76 Certa vez, disse ao colega e ministro Speer: “Até agora, só um alemão foi recebido assim antes de mim: Lutero.” Ver SPEER, Albert. Por dentro do III Reich: os anos de glória. Rio de Janeiro: Editora artenova, 1971, p. 66.
77 CARVALHO, Pedro Conceição. O Fascismo e o Nazismo. CIARI – Centro de Investigação e Análise em Relações Internacionais. Universidade Lusófona. 2007. Disponível em: Acessado em: 20/10/2010.
78 Albert Speer escreveu em seu livro: “Não escolhi o NSDAP e sim aproximei-me de Hitler, cuja figura me impressionou (...) Hitler apoderou-se de mim, antes de eu ter compreendido o alcance do seu movimento.” SPEER, Albert. Op. Cit., p. 21.
79 Fala-se em “teorias psicológicas” para explicar esta espécie de neurose de Hitler. Uma delas diz “que ele culpava o médico judeu de sua mãe por ela não conseguir se recuperar do câncer.” Evidentemente, por falta de fontes, seguimos ignorando esta hipótese. Vide STACKELBERG, Roderic. Op. Cit., p. 128.
80 Reunião de duas leis: “Lei de proteção do Sangue e da Honra alemã” e a “Lei de Cidadania do Reich”. Para uma visão completa das leis antissemitas no período nazista, ver SCHILLING, Voltaire. A política da morte do Nazismo. In: MILMAN, Luis; VIZENTINI, Paulo Fagundes (orgs). Op. Cit. Após o maior pogrom da Alemanha nazista – A Noite dos Cristais -, 3 homens que estupraram moças judias foram presos, não pela violência em si mas por ter se contaminado com a sub-raça judia. Vide OVERY, Richard. Op. Cit., p. 168.
81 BENSOUSSAN, Georges. História da Shoah. Biblioteca Virtual de literatura universal em galego, 2005. Disponível em: Acessado em: 23/12/2010.
82 MARQUES, Adhemar; BERUTTI, Flávio; FARIA, Ricardo. História Contemporânea através de textos. São Paulo: Contexto, 1994, p. 150.
83 No Brasil, o maior especialista desta propaganda audiovisual nazista é Wagner Pinheiro Pereira. Vide Nazismo: Política de massas e ideologia. In: Nunca Mais. Educando para a cidadania e a democracia. Op. Cit. e O Terceiro Reich em cena: história e memória audiovisual do nazismo e do Holocausto. In: LEWIN, Helena (coord.). Op. Cit.
84 Todas as ligações religiosas do nazismo foram brilhantemente estudadas em STEIGMANN-GALL, Richard. O Santo Reich: Concepções Nazistas do Cristianismo. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2004.
85 HITLER, Adolf. Minha Luta. São Paulo: Centauro, 2001, p. 53.
86 OVERY, Richard. Op. Cit., p. 194.
87 CYTRYNOWICZ, Roney. As formas de lembrar e a história do Holocausto. In: MILMAN, Luis; VIZENTINI, Paulo Fagundes (orgs). Neonazismo, Negacionismo e Extremismo Político. Porto Alegre: Editora da Universidade – UFRGS, 2000. Disponível em: . Acesso em: 23/09/2010.
88 OVERY, Richard. Op. Cit., p. 262.
89 FRIEDLAENDER, Saul. O significado Histórico do Holocausto. In: Holocausto: um tema em debate. Análise Shalom. (n.3). São Paulo, Editora Shalom, 1979, p. 244.
90 BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., p. 90.
91 HITLER, Adolf. Op. Cit., pp. 75; 300; 307.
92 Idem Ibidem, p. 334.
93 O livro de Hitler de modo a torná-lo acessível a todos. Chegou a vender 9 milhões de exemplares e era distribuído aos alemães recém-casados. As referências citadas podem ser encontradas em Idem Ibidem, pp. 47-48; 226; 230; 297.
94 Apud POLIAKOV, Leon. Op. Cit., p. 305.
95 OVERY, Richard. Op. Cit., p. 263.
96 FONTETTE, François de. Op. Cit., p.84.
97 GOLDHAGEN, Erich. Pragmatismo, Função e Fé no anti-semitismo nazista. In: Holocausto: um tema em debate. Op. Cit., p. 230.
98 Apud Holocausto: um tema em debate. Op. Cit., pp. 25-26.
99 FONTETTE, François de. Op. Cit., pp.82; 91.
100 Após o fim da Segunda Guerra, um Tribunal Internacional se reuniu e julgou dezenas de nazistas e seus colaboradores. Recebeu este nome por se reunir na cidade alemã de Nuremberg.
101 OVERY, Richard. Op. Cit., p. 313.
102 Sempre utilizamos a palavra “Campo” como modelo genérico, uma vez que existiam inúmeros tipos. Uma especialista neste assunto é Ania Cavalcante. Vide Os Campos de Concentração – Konzentrationslager – KZ: fundamento do sistema nazista. In: Nunca Mais. Educando para a cidadania e a democracia. Op. Cit. e O universo concentracionário nazista de 1933 a 1945 e a implementação da “Solução Final” da Questão Judaica, Op. Cit.
103 BAUMAN, Janina. O Inverno na Manhã: uma jovem no gueto de Varsóvia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005, p. 8.
104 Prisioneiros que trabalhavam para os nazistas dentro dos Campos.
105 LEVI, Primo. É Isto um Homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988, pp. 14; 25; e, do mesmo autor, Os Afogados e os Sobreviventes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990, pp. 53-54; 58.
106 CAVALCANTI, Ania. O universo concentracionário nazista de 1933 a 1945 e a implementação da Solução Final” da Questão Judaica. Op. Cit.
107 LEVI, Primo. Os Afogados e os Sobreviventes. Op. Cit., p.10.
108 Idem Ibidem, pp.12; 16; 106.
109 Apud Idem Ibidem, p.118.
110 LAKS, Aleksander. O Sobrevivente. Rio de Janeiro: Record, 2000.


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