quarta-feira, 30 de junho de 2010

A Revolução Islâmica no Irã


Alguns afirmam que foi “a maior explosão popular da história da humanidade”.* Outros garantem que o povo a legitimou, fornecendo o seu caráter de revolução popular.** Para muitos especialistas, o movimento ocorrido no Irão, em 1979, pode ser comparado em importância à Revolução Francesa (1789) e à Revolução Russa (1917). Seja qual for o olhar que se tenha sobre a Revolução Islâmica, o certo é que trata-se de um tema indispensável para os historiadores atuais e a todos os que desejam entender um pouco mais deste país tão presente nos noticiários.
Não é tarefa fácil falar sobre algo que ainda está em pleno movimento, que desperta preconceitos e/ou paixões. Deixo claro que não tenho ligação alguma com o islamismo ou com qualquer religião, já que não tenho uma. Até pouco tempo atrás pouco sabia sobre a história recente do Irã. Um trabalho de pós-graduação me fez estudá-lo e me interessou. A particularidade desta revolução no mundo contemporâneo é fascinante. Copiando as palavras do filósofo francês Michel Foucault, entusiasta da Revolução Iraniana, trata-se de “uma possibilidade, para nós esquecida desde o Renascimento e a grande crise do Cristianismo, de uma ‘espiritualidade política’”.
Antes de me aprofundar no tema, algumas questões me incomodam a ponto de ter que comentá-las. Uma delas é acusar o Irã, assim como outros Estados que possuem religiões oficiais (não necessariamente teocráticos), de não serem democráticos, uma vez que a liberdade religiosa e de culto estão entre as prerrogativas de tal sistema. A modernidade exigiria um Estado laico.
Poucos de nós fazemos o exercício crítico (apesar de saber em teoria) de compreender cada movimento em seu contexto cultural e histórico. Estamos ou não caindo no grave erro do etnocentrismo ao afirmar que o correto, ou o aceitável, ou o civilizado é que tenhamos um Estado laico. Talvez para a civilização ocidental esta seja uma prerrogativa, mas alguém já perguntou a um iraniano se ele deseja um Estado laico? Afinal de contas, quem legitima um governo é a ONU, os EUA, ou o povo do seu país? Está na hora de acabarmos com a idéia de importar tudo o que é europeu ou norte-americano como sendo a melhor coisa do mundo. Cada país deve ser livre de escolher o caminho a seguir. O povo destes países são soberanos em aceitar ou não seus governos.
Dito isto, acredito que esta introdução se fez necessária. Devemos nos desfazer das imagens que guardamos dos países islâmicos como um celeiro de homens bombas. É exatamente isto que a grande mídia, sobretudo aquela controlada por agências norte-americanas, quer que você pense. A imagem de terroristas se faz necessária para que as sanções e possíveis invasões destes países sejam apoiadas, ou aceitadas pela população ocidental. Praticamente tudo que sabemos e vimos em relação a estes países islâmicos, sobretudo o Irã, são oriundos destas grandes agências de notícias. Portanto, está na hora de se perguntar até que ponto elas são confiáveis. Aliás, até que ponto qualquer informação é confiável, inclusive a que começarei agora.
Dividirei o estudo sobre a Revolução Islâmica em três partes: antes, durante e depois de 1979.

Antes da Revolução

O Irã, conhecido como Pérsia até 1935, herdou a história e a tradição deste grande Império de 2.500 anos. O Xá (ou Shah) Reza Pahlevi foi o último rei a desfrutar deste título. Este monarca assume o poder, em 1941, num momento peculiar. Herda o trono do seu pai, que fora acusado de se aliar ao Eixo na Segunda Guerra Mundial (muito devido às relações estreitas com a Alemanha, sendo este país o principal parceiro comercial do Irã). O medo que o petróleo iraniano caísse nas mãos dos nazistas apressou a saída do pai de Pahlevi. Os Aliados perceberam que o filho podia ser mais passivo e aceitar melhor a ocupação. Estavam certos.
O governo do xá Reza Pahlevi era um homem centralizador. No seu governo, estavam presentes o seu círculo de aliados. Aqueles que faziam oposição eram perseguidos. Chegou a ser acusado por órgãos internacionais diversas vezes por descumprir os preceitos dos direitos humanos no país. A cada ano que passava, aumentava a sua fortuna pessoal, o que contrastava com a pobreza da população.
Na década de 1950, implantou uma série de medidas que ficou conhecida como “Revolução Branca”. Através dela, modernizou a economia do país e ocidentalizou muitos costumes. Pahlevi mexeu num vespeiro ao fazer uma reforma agrária com as terras dos líderes religiosos. A oposição deste segmento aumentou. Além disso, muito das práticas ocidentais, como a flexibilização das vestimentas na mulher, assim como a maquiagem, filmes, músicas, jogos, eram vistas como meios de deteriorização da cultura iraniana.
A série de reformas realmente fez com que a economia iraniana crescesse, porém, esta melhoria não foi sentida pela ampla maioria da população. Aumentava-se a concentração de renda e a ideia popular, incitada pelos religiosos, de que tudo aquilo estava ocorrendo pelo distanciamento aos costumes islâmicos. Na medida em que a pobreza se alastrava, multiplicava-se o número de pessoas que se voltavam aos valores básicos do Islã.

A Revolução

Enquanto isso, as forças de oposição se aglutinavam em torno de um nome – o aiatolá*** Ruhollah Khomeini. Este religioso xiita (lembremos que 89% da população iraniana é xiita) estava exilado no Iraque. Pouco depois de Saddam Hussein assumir o poder neste país, o xá Reza Pahlevi solicitou que Khomeini fosse expulso, afim de diminuir a influência dele no Irã. Refugiado na França, o aiatolá, diferente do que pensava Pahlevi, teve mais condições de comunicar-se com seu país. A tentativa de isolar Khomeini não havia dado certo.
O método usado para fazer propaganda era a fita cassete (para os mais jovens, era um dispositivo que armazenava áudio). Khomeini prometia reformas sociais e econômicas, além da retomada de valores religiosos tradicionais.
Em fins de 1978, depois de uma crítica feroz de Pahlevi ao aiatolá Khomeini, as ruas foram tomadas de pessoas em intensas manifestações. Muitas delas terminavam em mortes. Em um só dia, estima-se que 3 mil pessoas pereceram na chamada “sexta-feira negra”. A polícia do xá, inclusive a temida Savak (polícia secreta), não poupava os manifestantes. E não eram poucos. Estudiosos chegam a falar em 1 milhão de pessoas nas ruas contra a política autoritária de Pahlevi e os rumos da economia. Greves gerais agravavam ainda mais a situação.
No início de 1979, a situação de tornara insuportável para o xá, que sai do país para evitar o pior. Num primeiro momento, no que alguns chamam de “Primeira fase da revolução”, xiitas e liberais, além de outros grupos não-religiosos, se unem em nome da deposição do regime de Reza Pahlevi.
Em fevereiro do mesmo ano, o grande ícone desta revolução chega de Paris e é recebido com muita festa no país. Khomeini então lidera a tomada do poder pelos xiitas, excluindo os outros setores aliados de outrora. Um plebiscito, aprovado por 95% da população, aprova a instituição de uma República Islâmica. Estava feita a Revolução Iraniana. Para alguns, a “Segunda fase” – aquela que estabeleceria um estado Teocrático.

Pós-Revolução

Somente em abril o Irã é oficialmente declarado uma República Islâmica, com o aiatolá Khomeini sendo o chefe supremo da nação. Algumas minorias religiosas como os judeus, os zoroastras e os cristãos são reconhecidos oficialmente, tendo a garantia constitucional**** de manutenção de seus costumes e não perseguição. Algumas outras como os baha’ís não tiveram a mesma sorte.
Em um contexto de Guerra Fria, o Irã adotou o não alinhamento. Inclusive a sua Constituição é claro em garantir a soberania do país, não se submetendo a nenhuma potência estrangeira.
O fundamentalismo islâmico reacendeu a religiosidade dos seus vizinhos do Oriente Médio. Em um período de predominância dos estados moderados, a revolução Islâmica serviu de inspiração para os demais islâmicos lutarem por uma “volta às tradições” em seus países.
No Irã, costumes ocidentais foram abolidos. Voltava-se aos antigos códigos morais. Uma Guarda Revolucionária foi criada para garanti-los.
Numa revolução de tal tamanho, é evidente que as coisas não se ajeitam da noite para o dia. Um caos se alojou no país. Sobre isso, Khomeini disse: “Tenho que recorrer à repressão como o shah? Nosso povo esteve 35 anos na prisão; nenhum governo vai pô-lo na prisão outra vez. Ele precisa ter a oportunidade de expressar como quer, mesmo que isso signifique um certo grau de caos.”
Voltando ao tema do contexto internacional, dois acontecimentos marcaram esta fase inicial da Revolução Islâmica – o rompimento das relações diplomáticas com os EUA e a guerra com o Iraque.
Quanto ao primeiro fato, foi decorrência da invasão de militantes islâmicos à embaixada norte-americana no Irã e fazendo inúmeros reféns (alguns ficando por até 1 ano e meio presos). A justificativa dada pelos iranianos para este ataque foi o gesto do governo americano em receber o antigo xá Reza Pahlevi em seu país. A versão oficial para a ida de Pahlevi aos EUA era de que ele possuía um problema grave de saúde que deveria ser tratado naquele país. Porém, o grande medo dos iranianos era de que isso fosse uma desculpa para uma possível conspiração norte-americana para recolocar o xá no poder.
Já a Guerra Irã-Iraque agravou ainda mais a situação iraniana. A terrível guerra aumentou em 45% a pobreza da população. No entanto, as guerras também servem como elemento de coesão nacional. E esta não foi diferente. Numa situação de exceção, que o conflito requer, cada vez mais o governo islâmico se legitimava. Aproveitando a aparente fragilidade da recém criada República Islâmica, de olho na imensa quantidade de petróleo e apoiados pelos ianques. Saddam Hussein atacou o Irã. Apesar de todo suporte norte-americano, o Iraque erra nas estratégias e não consegue definir o conflito. A guerra se arrastou e terminou sem um ganhador oficial, somente estragos de ambos os lados. E apesar de ter apoiado Hussein (para anos mais tarde ter que invadir o país para depô-lo), os EUA secretamente se aliavam aos iranianos.***** Esta ajuda foi uma troca pelo fato de Khomeini ter intercedido por reféns norte-americanos no Líbano.
Para terminar, quero retomar a discussão da legitimidade do governo iraniano. Partindo do princípio de que quem valida e sustenta um governo é o povo do seu país, não vejo problema algum com o que a Revolução Islâmica adotou no Irã em 1979, e que permanece até hoje. O povo islâmico desejou e deseja um Estado Teocrático. A ideia de algo laico é distante da ideologia islâmica. E isto não pode ser visto, de maneira alguma, como uma visão atrasada de política. É apenas diferente. E nós, se formos realmente “civilizados”, como afirmamos que somos, deveríamos deixar o Irã em paz. Aliás, está na hora de deixar o Oriente em paz. O ódio e os ataques que a história recente já mostrou que eles são capazes de ter/fazer são apenas reflexos dos nossos ódios e ataques que fazemos a eles. Uma “legítima defesa”!




*Frase dita por Richard Cottam professor emérito da Universidade de Pittsburgh (EUA).
**Defendido por Charles Kurzman, sociólogo, especialista em islamismo e professor da Universidade da Carolina do Norte (EUA)
***O termo aiatolá significa “sinais (Aiat) de Deus” (Allah). É o mais alto grau da hierarquia islâmica, escolhido por aclamação, designa o sacerdote com grande saber na jurisprudência islâmica.
****Sabemos, e falaremos disto mais tarde, que as garantias constitucionais nem sempre são cumpridas. Mas o reconhecimento das minorias já é um passo fundamental. Se houve perseguições, provavelmente ocorreram, não se trata, teoricamente, de uma política de Estado.
*****Este fato ficou conhecido como Irã-Contras e/ou Irangate.

3 comentários:

vera gama disse...

Olá Luís! Muitíssimo interessante este escrito. Vc se importatia que ue o enviasse para a lista ethos paidea , e educarpara o pensar? claro que com os devidos créditos.
Parabéns e um abraço,Véra Gama

Luiz Eduardo Farias disse...

Oi Vera!

Claro que pode! Sem problemas!
Um abração!

Accácia disse...

Achei bacana sua postagem,estou lendo um livro que fala sobre o Islã(Ocidente X Islã-Uma história do conflito milenar entre dois mundos) e confesso que fico admirada com as descobertas que tenho feito!
Muito da nossa ignorância sobre o Islã provém do nosso preconceito!
Quem sabe um dia o ser humano deixe de lado esse tipo de picuinha e se abra pra luz do conhecimento?
Beijo,
Accácia.

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