domingo, 2 de julho de 2017

O Auto da Compadecida

AUTO DA COMPADECIDA - ARIANO SUASSUNA


CENA 1
[Todos em estátua enquanto o público entra. Aguardar a música para começar.]
PALHAÇO 1: Auto da Compadecida! O julgamento de alguns canalhas, entre os quais uma sacristã e um padre, para exercício da moralidade.
PADRE e SACRISTÃ: Canalhas não, servos de Deus. [saem]
PALHAÇOS: Sei...
PALHAÇO 2: Um padeiro pão duro, porém molenga... e sua mulher, que de tão fogosa queima até a...
MULHER: Olha o respeito!
PADEIRO: Olha o respeito! [saem]
PALHAÇO 1: Uma homem arrogante devido ao poder e ao dinheiro...
ANTÔNIO MORAIS: Quem você pensa que é? [sai]
PALHAÇO 1: E outras duas miseráveis que buscam exatamente o que o outro tem de sobra.
SEVERINA: A gente tem que tomar na marra mesmo.
CANGACEIRA: Porque se depender da boa vontade do povo... [saem]
PALHAÇO 2: A intervenção de Nossa Senhora no momento propício, para triunfo da misericórdia.
A COMPADECIDA: A mulher que vai desempenhar o papel desta sublime Senhora, declara-se indigna de tão alta honra. [Sai ]
PALHAÇO 1: Ao escrever esta peça, onde combate o mundanismo, praga de sua igreja, Ariano Suassuna quis ser representado por um palhaço, para indicar que sabe, mais do que ninguém, que sua alma é cheia de insensatez e de astúcia.  
PALHAÇO 2: Auto da Compadecida! O ator que vai representar Manuel, isto é, Nosso Senhor Jesus Cristo, declara-se também indigno de tão alto papel, mas não vem agora, porque sua aparição constituirá um grande efeito teatral e o público seria privado desse elemento de surpresa.
PALHAÇO 1: Auto da Compadecida! Uma história altamente moral e um apelo à misericórdia.

DEMÔNIO: Ela diz “à misericórdia”, porque sabe que, se as pessoas fossem julgadas pela justiça, toda a nação seria condenada. Aqui, inclusive (olha e aponta para a plateia), tem um monte que eu quero levar agora.
JESUS, da coxia: Não estamos aqui para isso, demônio! Volte para o inferno! [demônio sai]

PALHAÇO 2: Auto da Compadecida! (Saem cantando, os dois palhaços) “Tombei, tombei, tornei tomba;
A brincadeira já vai começar”

CENA 2

[Entra  João Grilo e Chicó]



JOÃO GRILO: E ele vem, mesmo? Eu estou desconfiado, Chicó. Você é tão sem confiança!

CHICÓ: Eu, sem confiança? Que é isso, João, está me desconhecendo? Juro como ele vem. [Entra a mulher e o padeiro, no escuro] A mulher do padeiro me fez prometer...
MULHER: Chicó, pede para o padre João benzer minha cachorrinha.
PADEIRO: Isso sua cachorra!
MULHER: Tá me chamando de cachorra, homem?
PADEIRO: Claro que não, mulher.
MULHER, para a plateia: Mas se chamasse eu atendia com gosto. [volta o escuro e saem]
CHICÓ: A dificuldade não é ele vir, é o padre benzer. O bispo está aí e tenho certeza de que o Padre João não vai querer benzer o cachorro.

JOÃO GRILO: Não vai benzer? Por quê? Que é que um cachorro tem de mais?

CHICÓ: Porque sei como esse povo é cheio de coisas, mas não é nada de mais. Eu mesmo já tive um cavalo bento.
JOÃO GRILO: Que é isso, Chicó? Já estou ficando por aqui (passa o dedo na garganta) com suas histórias. É sempre uma coisa toda esquisita. Quando se pede uma explicação, vem sempre com “não sei, só sei que foi assim” (debochando).

CHICÓ: Mas se eu tive mesmo o cavalo, meu filho, o que é que eu vou fazer? Vou mentir, dizer que não tive?

JOÃO GRILO: Você vem com uma história dessas e depois se queixa porque o povo diz que você é sem confiança.

Como foi isso?


CHICÓ: Não sei, só sei que foi assim. É por causa dessas e de outras que eu não me admiro mais de nada, João. Cachorro bento, cavalo bento, tudo isso eu já vi.




CENA 3

PADRE, aparecendo na igreja: Que há? O que vocês querem?


CHICÓ: Mandaram avisar para o senhor não sair, porque vem uma pessoa aqui trazer um cachorro que está se ultimando para o senhor benzer.

PADRE: Para eu benzer?
CHICÓ: Sim.

PADRE, com desprezo: Um cachorro?

CHICÓ: Sim.
PADRE: Que maluquice! Que besteira!
JOÃO GRILO: Cansei de dizer a ele que o senhor benzia.

PADRE: Não benzo de jeito nenhum.
CHICÓ: Mas padre, não vejo nada de mal em se benzer o bicho.

JOÃO GRILO: No dia em que chegou o motor novo do Major Antônio Morais o senhor não o benzeu?

PADRE: Motor é diferente, é uma coisa que todo mundo benze. Cachorro é que eu nunca ouvi falar.

CHICÓ: Eu acho cachorro uma coisa muito melhor do que motor.

PADRE: É, mas quem vai ficar engraçado sou eu, benzendo o cachorro. Benzer motor é fácil, todo mundo faz isso, mas benzer cachorro?
JOÃO GRILO: É, Chicó, o padre tem razão (fingindo ir embora), uma coisa é o motor do Major Antônio Morais e outra é benzer o cachorro do Major Antônio Morais.

PADRE, mão em concha no ouvido: Como?


JOÃO GRILO: É. Eu não queria vir, com medo de que o senhor se zangasse, mas o Major Antônio é rica e poderosa e eu trabalho na mina dela. Com medo de perder meu emprego, fui forçado a obedecer.
PADRE, desfazendo-se em sorrisos:  Zangar nada, João! Quem é um ministro de Deus para ter direito de se zangar? Falei por falar, mas também vocês não tinham dito de quem era o cachorro!

JOÃO GRILO, cortante Quer dizer que benze, não é?
PADRE, a Chicó: Você, o que é que acha?
CHICÓ: Eu não acho nada de mais.

PADRE: Nem eu. Não vejo mal nenhum em abençoar as criaturas de Deus.
JOÃO GRILO: Então fica tudo na paz do Senhor, com cachorro benzido e todo mundo satisfeito.

PADRE: Digam ao Major Antônio Morais que venha. Eu estou esperando. Entra na igreja.

CHICÓ: Que invenção foi essa de dizer que o cachorro era da Major Antônio Morais?

JOÃO GRILO: Era o único jeito de o padre prometer que benzia. Tem medo da riqueza do major que se péla.


CHICÓ: O patrão não vai gostar disso.
JOÃO GRILO: Estou acertando as contas com o padre e a qualquer hora acerto com o patrão. Eu conheço o ponto fraco do homem, Chicó.


CHICÓ: E qual é o ponto fraco do patrão? [Entra a mulher do padeiro toda assanhada]


JOÃO GRILO: É a mulher, Chicó, e você sabe muito bem disso. Você mesmo sabe que a mulher dele...

CHICÓ: João, fale baixo, que o padre pode ouvir. Essas coisas num instante se espalham.

JOÃO GRILO: Deixe de besteira, Chicó, todo mundo já sabe que a mulher do padeiro engana o marido.

CHICÓ: Sabe, mas não sabe que foi comigo, entendeu?

CENA 4

[ANTÔNIO Morais começa a entrar procurando o caminho para a Igreja]
JOÃO GRILO: Que cara é essa, Chicó?
:::
CHICÓ: O Major Antônio Morais vem vindo ai. Certamente vem procurar o padre.

JOÃO GRILO: Ai, minha Nossa Senhora! Que é que se faz, Chicó?
CHICÓ: Não sei, não tenho nada a ver com isso. Você, que inventou a história que resolva.
JOÃO GRILO: Cale a boca, besta. Não diga uma palavra e deixe tudo por minha conta. (virando-se para Antônio Morais) Ora viva, seu major Antônio Morais, como vai Vossa Senhoria? Veio procurar o padre? (Antônio Morais encaminha-se para a igreja mas João toma-lhe a frente.) Se Vossa Senhoria quer, eu vou chamá-lo. (Antônio Morais afasta João do caminho com a bengala) É que eu queria avisar para Vossa Senhoria não ficar espantado: o padre está meio doido.

ANTÔNIO MORAIS, parando: Está doido? O padre?

JOÃO GRILO, animando-se: Sim, o padre. Está dum jeito que não respeita mais ninguém e com mania de benzer tudo. Vim dar um recado do meu patrão e ele me recebeu muito mal, apesar de meu patrão ser quem é.

ANTÔNIO MORAIS: E quem é seu patrão?

JOÃO GRILO: O padeiro. Pois ele chamou o patrão de cachorro e disse que apesar disso ia benzê-lo.

ANTÔNIO MORAIS: Que loucura é essa?

JOÃO GRILO: Não sei, é a mania dele agora. Benze tudo e chama a gente de cachorro.
ANTÓNIO MORAIS: Isso foi porque era com seu patrão. Comigo é diferente.

JOÃ GRILO: Vossa Senhoria me desculpe, mas eu penso que não.

ANTÓNIO MORAIS: Pois vamos esclarecer a história, porque alguém vai pagar essa brincadeira. Quanto à mania de benzer, não faz mal, ele me será até útil. Meu filho mais moço está doente e vai para o Recife, tratar-se. Tem uma verdadeira mania de igreja e não quer ir sem a bênção do padre. Padre JOÃO! Padre JOÃO! (Entra na Igreja)
JOÃO GRILO (Chicó tenta sair): Não, você fica comigo. Vim encomendar a bênção do cachorro por sua causa e você tem de ficar. E mesmo, Chicó, você já está acostumado com essas coisas, já teve até um cavalo bento!

CHICÓ: É, mas acontece que o major Antônio Morais pode ter alguma coisa de cavalo, de bento é que ele não tem nada. [padre entra e fica na frente da Igreja, no escuro]
JOÃO GRILO: Deixe de ser frouxo e fique aqui. [Ficam no escuro]
ANTÔNIO MORAIS, voltando: Ah, padre, estava aí? Procurei-o por toda parte.
PADRE: Ora quanta honra! Um homem como Antônio Morais na igreja! O que o trouxe aqui? Já sei, não diga, o bichinho está doente, não é?

ANTÓNIO MORAIS: É, já sabia?

PADRE: Já, aqui tudo se espalha num instante. Já está fedendo?

ANTÓNIO MORAIS: Fedendo? Quem?

PADRE: O bichinho
ANTÓNIO MORAIS: Não. Que é que o senhor quer dizer?
PADRE: Nada, desculpe, é um modo de falar.
ANTÔNIO MORAIS: Pois o senhor anda com uns modos de falar muito esquisitos.

PADRE: Peço que desculpe um pobre padre sem muita instrução. Qual é a doença? Sarna?

ANTÔNIO MORAIS: Sarna?

PADRE: Sim, já vi um morrer disso em poucos dias. Começou pelo rabo e espalhou-se pelo resto do corpo.

ANTÔNIO MORAIS: Pelo rabo?

PADRE: Desculpe, desculpe, eu devia ter dito “pela cauda”. Deve-se respeito aos enfermos, mesmo que sejam os de mais baixa qualidade.

ANTÔNIO MORAIS: Baixa qualidade? Padre João, veja com quem está falando. A igreja é uma coisa respeitável, como garantia da sociedade, mas tudo tem um limite.

PADRE: Mas o que foi que eu disse?
ANTÓNIO MORAIS: Baixa            qualidade!            Meu       nome     todo       é              Antônio Noronha de Brito Morais e esse Noronha de Brito veio do Conde dos Arcos, ouviu? Gente que veio nas caravelas, ouviu?

PADRE: Ah bem! E na certa os antepassados do bichinho também vieram nas caravelas, não é isso?

ANTÔNIO MORAIS: Claro! Se meus antepassados vieram, é claro que os dele vieram também. Que é que o senhor quer insinuar? Quer dizer por acaso que a mãe dele...

PADRE: Mas, uma cachorra!...

ANTÓNIO MORAIS: O quê?

PADRE: Uma cachorra.

ANTÓNIO MORAIS: Repita.

PADRE: Não vejo nada de mal em repetir, não é uma cachorra mesmo?

ANTÔNIO MORAIS: Padre, não o mato agora mesmo porque o senhor é um padre e está louco, mas vou me queixar ao bispo. (acende a luz, a João) Você tinha razão. (Sai)

CENA 5

PADRE, aflitíssimo: Mas me digam pelo amor de Deus o que foi que eu disse.

JOÃO GRILO: Nada, nada, padre. Esse homem só pode estar louco com essa mania de ser grande. Até ao cachorro ele quer dar carta de nobreza!

PADRE: Faço tudo para agradá-lo e vai-se queixar ao bispo. Esse é uma águia. Será que vai me suspender?

JOÃO GRILO: Que nada, padre, antes disso eu vou lá na fazenda dele e arranjo tudo. Agora... eu queria um favorzinho do senhor padre.

PADRE: Eu já estava esperando por uma dessas. |Diga logo o que é!
JOÃO GRILO: O cachorro do nosso patrão está muito mal e eu queria que o senhor benzesse o bichinho.

PADRE: De novo? Mas é possível?
CHICÓ: É mais do que possível. O senhor não ia benzer o do major Antônio Morais?

PADRE: E de quem é que você está falando?

CHICÓ: De nosso patrão.


PADRE: E quem é o patrão de vocês?

CHICÓ: O padeiro.

PADRE: E o cachorro dele também está doente?

CHICÓ: Está.

PADRE: Também, oh terra para ter cachorro doente só é essa!

JOÃO GRILO: E a mania agora é benzer, benzer tudo quanto é de bicho. [Ouvem-se, fora, grandes gritos de mulher] É a mulher do padeiro, com o cachorro. Como é, o senhor benze ou não benze?

PADRE: Pensando bem, acho melhor não benzer. Eu tenho mais o que fazer. [sai]

CENA 6

[Gritos na coxia. Só depois entra a mulher, segurando o cachorro morto, e o padeiro]


MULHER, entrando: Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai,ai,ai!
PADEIRO: Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai,ai,ai!
JOÃO GRILO, mesmo tom: Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai, ai, ai! [Dá uma cotovelada em CHICÓ]
CHICÓ, obediente: Ai, ai, ai, ai, ai, Ai, ai, ai, ai, ai!


SACRISTÃ, entrando com o padre: Que é isso, que é isso? Que barulho é esse na porta da casa de Deus?
PADEIRO: Não está vendo o cachorro morto na mão de minha mulher?

PADRE: Mas acabaram de me pedir pra benzê-lo.
MULHER: Se o senhor tivesse benzido o bichinho, a essa hora ele ainda estava vivo.

PADRE: Qual, qual, quem sou eu!
MULHER: Mas tem uma coisa, agora o senhor enterra o cachorro.

PADRE: Enterro o cachorro?
MULHER: Enterra e tem que ser em latim. De outro jeito não serve, não é?

PADEIRO: É, em latim não serve.
MULHER: Em latim é que serve!
PADEIRO: É, em latim é que serve!
SACRISTÃ: Vocês estão loucos! O padre não vai enterrar de jeito nenhum.

MULHER: Está cortado o rendimento da irmandade.

PADEIRO: Está cortado o rendimento da irmandade!

PADRE: Não enterro.
MULHER: Meu marido considera-se demitido da presidência.

PADEIRO: Considero-me demitido da presidência!

PADRE: Não enterro.
MULHER: A vaquinha vai sair daqui imediatamente.
SACRISTÃ: Oh mulher sem coração!
MULHER: Sem coração, porque não quero ver meu cachorrinho comido pelos urubus? O senhor enterra!

PADRE

PADRE: Vou é me trancar na igreja e de lá ninguém me tira. [Entra na igreja, correndo]
JOÃO GRILO, chamando o patrão à parte: Se me dessem carta branca, eu enterrava o cachorro.

PADEIRO: Tem a carta.
JOÃO GRILO: Posso gastar o que quiser?

PADEIRO: Pode.

SACRISTÃ: Que é que vocês estão combinando aí?
JOÃO GRILO: Estou aqui dizendo que, se é desse jeito, vai ser difícil cumprir o testamento do cachorro, na parte do dinheiro que ele deixou para o padre e para o sacristã.

SACRISTÃ: Que é isso? Que é isso? Cachorro com testamento?
JOÃO GRILO: O patrão prometeu um enterro em latim em troca do testamento dele: dez contos de réis para o padre e três para a sacrostã.

SACRISTÃ, enxugando uma lágrima: Que animal inteligente! Que sentimento nobre! E o testamento? Onde está?

JOÃO GRILO: Foi passado em cartório, é coisa garantida. Isto é, era coisa garantida, porque agora o padre vai deixar os urubus comerem o cachorrinho e, se o testamento for cumprido nessas condições, nem meu patrão nem minha patroa estão livres de serem perseguidos pela alma.

CHICÓ, escandalizado: Pela alma?

JOÃO GRILO: Alma não digo, porque acho que não existe alma de cachorro, mas assombração de cachorro existe e é uma das mais perigosas. E ninguém quer se arriscar assim a desrespeitar a vontade do morto.


MULHER, duas vezes: Ai, ai, ai, ai, ai!

JOÃO GRILO E CHICÓ, mesma cena.
SACRISTÃ, cortante: Que é isso, que é isso? Não há motivo para essas lamentações. Deixem tudo comigo! [Entra apressadamente na igreja]
PADEIRO: Assombração de cachorro? Que história é essa?
JOÃO GRILO: Que história é essa? O que importa é que o cachorro vai ser enterrado, e vai ser em latim.
[sacristã e o Padre saem da igreja]

PADRE: Por motivos puramente espirituais... mudei de idéia. Vamos enterrar o bichinho. Como se chamava o cachorro?


MULHER, chorosa: Xaréu.

SACRISTÃ, em tom de canto gregoriano: Absolve, Domine, animas omnium fidelium defunctorum ab omni vinculi delictorum.

TODOS: Amém.



CENA 7

[Fora, som de tiros e gritos de socorro]
SACRISTÃ: Meu Deus, que terá sido isso?
PADEIRO: O barulho era de tiro.
MULHER, assombrada: Valha-me Deus! Ai, meu marido de minha alma, vai morrer todo mundo agora. Socorro.

SACRISTÃ: Socorro por quê?
MULHER: Eu ouvi dizer que o bando de Severina do Aracaju estava cercando nossa cidade.
PADEIRO: Então deve ser ela que está dando esses tiros.

PADRE: Valha-me Nossa Senhora! Quem é Severina do Aracaju?
SACRISTÃ: Uma cangaceira, uma mulher horrível.
PADRE: Alguém chama a polícia.
MULHER: Não adianta. A polícia corre do bando se Severina..

PADEIRO: Morrem de medo. Nem todo homem é valente que nem eu.
TODOS: Sei!
PADRE: Mas afinal, onde está essa tal de Severina? [Entra Severina e sua ajudante cangaceira]
SEVERINA: Aqui.

PADRE, desmaiando: Ai!
SEVERINA: Um momento, ninguém corra. O primeiro que tentar fugir, morre. O que é isso que está aí deitado, é algum cônego?

PADRE, abrindo os olhos: Padre.

SEVERINA: Ótimo. Nunca tinha matado um padre, o senhor vai ser o primeiro.


PADRE, desmaiando: Ai!

SEVERINA, dando-lhe um pontapé: Levante-se e deixe de chamego. Chilique comigo não pega. (O Bispo levanta-se vagarosamente.) Vossa Reverendíssima vai me desculpar, mas deixe ver os bolsos.

PADRE: Não tenho nada, a senhorita compreende...
SEVERINA: Senhorita? Olha bem pra mim e vê se eu tenho cara de senhorita. Sou mais macho que vocês todos juntos.
CHICÓ: Isso é verdade! Eu mesmo já estou todo mijado aqui...
PADEIRO: E eu acho que caguei aqui nas calças...

SEVERINA: Deixem de conversa. Mostre os bolsos. (Tirando o dinheiro) Dez contos! Mas é possível? Já vi que o negócio de reza está prosperando por aqui.

JOÃO GRILO: Depois que se começou a enterrar cachorro então, faz gosto!

SEVERINA: E tudo isto foi para se enterrar um cachorro?

JOÃO GRILO: Foi.

SEVERINA: E a sacristã, que é que me diz disso tudo?

SACRISTÃ: Só tenho a lamentar minha pobreza, não me permite ajudar os amigos.

SEVERINA: Mais pobre do que Vossa Senhoria é Severina do Aracaju, que não tem ninguém por ela. (Tirando o dinheiro) Três contos! Estou quase pensando em deixar o cangaço. Eu deixava vocês viverem, o padre demitia o sacristã e me nomeava no lugar dele. Com mais uns cinquenta cachorros que se enterrassem, eu me aposentava.


MULHER sedutora: Venha trabalhar comigo na padaria. Garanto que não se arrepende.
JOÃO GRILO: Diaxo! Eu pensei que o fogo dela fosse só pra homem.
CHICÓ: E você acha que isso aí é o quê?  
CANGACEIRO, severo: Mostre a mão esquerda.
MULHER, cariciosa: Pois não, com muito gosto.
CANGACEIRO: Uma aliança?

MULHER: É, sou casada com essa desgraça aí, mas estou tão arrependida! Só gosto de homens valentes e esse é uma vergonha.

SEVERINA: Vergonha é uma mulher casada na igreja se oferecer desse jeito. Aliás, já tinha ouvido falar que a senhora enganava seu marido com todo mundo.

PADEIRO: O quê? É possível?

JOÃO GRILO: Está aí Chicó que o diga.

CHICÓ: Eu?
SEVERINA: A coisa de que eu tenho mais raiva no mundo é de mulher assim.

PADEIRO: Não ligue ao que ela diz, mas a senhora... quer dizer... você podia vir mesmo trabalhar comigo na padaria. Não se ganha muito, mas dá para viver.

SEVERINA: Então ganha-se pouco na padaria?
PADEIRO: Muito pouco, eu mesmo não tenho aqui, veja.
SEVERINA: Não preciso, eu acredito. O que você tinha deixou no cofre e eu tirei tudo, de passagem por lá.


PADEIRO: Ai!

CANGACEIRO: Não vejo motivo para essas agonias. Estamos no nosso direito, porque a polícia fugiu e nós tomamos a cidade.

JOÃO GRILO: Dou toda a razão a você, Severina, mas está ficando tarde e eu tenho o que fazer. Vamos embora, Chicó. Vocês, até logo e muito boa viagem para todos.

SEVERINA: Um momento, amarelinho, quero matar vocês dois também.


SACRISTÃ: Quer dizer que o senhor vai nos matar a todos?

SEVERINA: Vou, por que não?

PADRE, descobrindo o rosto: Pode cuidar logo da sacristã.
SACRISTÃ: Nada disso, a vez é do Senhor.

SEVERINA: Para não haver discussão, vão os dois de uma vez.
[A cangaceira leva os dois para a coxia. Ouve-se dois disparos e ela volta]


SEVERINA: E chega agora a vez do excelentíssimo senhor padeiro desta cidade de Taperoá, que terá a satisfação de morrer ao lado de sua excelentíssima mulher safada.
MULHER: Safada não: só gosto de compartilhar meu corpo.

PADEIRO: Antes de morrer, tenho um pedido a fazer.
SEVERINA: Ai, ai, ai! O que é?
PADEIRO: Quero que ela morra primeiro, para eu ver.
SEVERINA: Concedido. Mate a mulher primeiro.
MULHER: Ah desgraçado!
PADEIRO: Desgraçada é você que me chifrava sem eu saber. E se ao menos fosse com uma pessoa de respeito! Mas até Chicó.

CHICÓ: Até Chicó o quê? Eu que corri o perigo de ficar falado, andando com essa mulher pra cima e pra baixo.

PADEIRO: Você me desgraçou. Caminhe na frente! Faço questão de ver essa desgraça morrer!

MULHER: E então? Pensa que vou fazer cara feia? Está muito enganado, tenho mais coragem do que muito homem. Você, sim, está aí em tempo de se acabar. Frouxo safado! (à cangaceira) Está pronta?

CANGACEIRA: Estou.
MULHER: Pois vamos. [Sai firmemente, acompanhada pelo marido, que cambaleia] Eu não disse? Segure aqui, que eu ajudo.

CHICÓ: Mulher valente! Safada mas valente.

JOÃO GRILO: Você que diz isso é porque sabe. [Um só tiro. Ficam todos em expectativa e o cangaceira volta]

CENA 8


SEVERINA: Que foi isso? Só matou um?

CANGACEIRA: Não, os dois.
SEVERINA: Só ouvi um tiro.
CANGACEIRA: Ia matar a mulher primeiro, como o senhor mandou, mas no momento em que ia puxar o gatilho, o homem correu, abraçou-se com a mulher e morreram juntos.

SEVERINA: Muito bem. Como é o nome de Vossa Senhoria?
JOÃO GRILO: Minha Senhoria não tem nome nenhum, porque não existe. Pobre tem lá senhoria, só tem desgraça.

SEVERINA: Diga então o nome de Vossa Desgracência.

JOÃO GRILO: João Grilo.
SEVERINA: Chega então agora a vez de Sua Desgracência, o Senhor João Grilo. Pode ir, a casa é sua.

JOÃO GRILO: Um momento. Antes de morrer, quero lhe fazer um grande favor.

SEVERINA: Qual é?
JOÃO GRILO: Dar-lhe esta gaita de presente.
SEVERINA: Uma gaita? Para que eu quero uma gaita?
JOÃO GRILO: Para nunca mais morrer dos ferimentos que a polícia lhe fizer.

SEVERINA: Que conversa é essa? Já ouvi falar de chocalho bento que cura mordida de cobra, mas de gaita que cura ferimento de rifle, é a primeira vez.

JOÃO GRILO: Mas cura. Essa gaita foi benzida por Padre Cícero, pouco antes de morrer.

SEVERINA: Eu só acredito vendo.

JOÃO GRILO: Pois não. Queira Vossa Excelência me ceder seu punhal.

SEVERINA: Olhe lá!

JOÃO GRILO: Pode apontar o rifle e se eu tentar alguma coisa para seu lado, queime.
SEVERINA, a cangaceira: Aponte o rifle para esse amarelo, que é desse povo que eu tenho medo. (Entrega o punhal a João sob a mira da cangaceira) E agora?

JOÃO GRILO: Agora vou dar uma punhalada na barriga de Chicó.
CHICÓ: Na minha, não.
JOÃO GRILO: Deixe de moleza, Chicó. Depois eu toco na gaita e você fica vivo de novo! (Murmurando, a Chicó) A bexiga, a bexiga! (Acena para Chicó, mostrando a barriga e lembrando a bexiga, mas Chicó não entende)

CHICÓ: Muito obrigado, mas eu não quero não, João.
JOÃO GRILO, novos acenos: Mas eu não já disse que toco na gaita?
CHICÓ: Então vamos fazer o seguinte: você leva a punhalada e quem toca na gaita sou eu.

JOÃO GRILO: Homem sabe do que mais? Vamos deixar de conversa. Tome lá! Morra, desgraçado! [Dá uma punhalada na bexiga. Chicó cai ao solo, vê a bexiga e só então entende. Ele fecha os olhos e finge que morreu]

JOÃO GRILO: Está vendo o sangue?
SEVERINA: Estou. Vi você dar a facada, disso nunca duvidei. Agora, quero ver é você curar o homem.

JOÃO GRILO: É já. [Começa a tocar na gaita e Chicó começa a se mover no ritmo da música]

SEVERINA: Nossa Senhora! Só tendo sido abençoada por Meu Padrinho Padre Cícero. Você não está sentindo nada?

CHICÓ: Nadinha.

SEVERINA: E antes?

CHICÓ: Mortinho da Silva.

SEVERINA: Morto?
CHICÓ: Completamente morto. Vi Nossa Senhora e Padre Cícero no céu.

SEVERINA: Mas em tão pouco tempo? Como foi isso?
CHICÓ: Não sei, só sei que foi assim.

JOÃO GRILO: E você pode conhecê-lo agora.

SEVERINA: Como?

JOÃO GRILO: Sua cabra lhe dá um tiro de rifle, você vai visitá-lo. Então eu toco na gaita e você volta.

SEVERINA: E se você não tocar?

JOÃO GRILO: Não está vendo que eu não faço uma miséria dessa? Garanto que toco.

SEVERINA: Sua ideia é boa, mas por segurança entregue logo a gaita a minha cabra. (João entrega a gaita) Agora eu levo um tiro e vejo Meu Padrinho?

JOÃO GRILO: Vê, não vê, Chicó?

CHICÓ: Vê demais. Está lá, vestido de azul, com uma porção de anjinhos em redor. Ele até estava dizendo: “Diga a SEVERINA que eu quero vê-la”.

SEVERINA: Ai, eu vou. Atire, atire!

CANGACEIRA: Capitã!

SEVERINA: Atira, cabra frouxo, eu não estou mandando?

CANGACEIRA: Capitã!

SEVERINA: Atire!

JOÃO GRILO: Atire logo pelo amor de Deus! [A cangaceira ergue o rifle.]

SEVERINA: Espere. Não se esqueça de tocar na gaita. [A cangaceira ergue o rifle de novo e atira. Severina cai e o cangaceira pega a gaita]

JOÃO GRILO, impedindo-a: Não, deixe para tocar depois! Deixe pobre Severina conversar mais um pedaço com Padre Cícero! Essas ocasiões são poucas, é preciso aproveitar.
CANGACEIRA: Não, já deu tempo de ele ver o padre. (Toca na gaita e nada) Capitã! (Toca na gaita) Capitã! Capitã! (Empurra Severina com o pé.) Está morta!

JOÃO GRILO: Toque na gaita.
CANGACEIRA, depois de tocar: Capitã! Ah Grilo amaldiçoado, você matou a capitã.

JOÃO GRILO: Em cima dele, Chicó. [Atacam o cangaceira]

CHICÓ: João, meu filho, você é grande! Vamos embora! [Na saída, a cangaceira atira em João Grilo]
CHICÓ: Que foi isso, João?

JOÃO GRILO: Acho que vou morrer, Chicó, estou ficando com a vista escura.

CHICÓ: Ai, meu Deus, pobre de João Grilo!
JOÃO GRILO: Deixe de drama, Chicó, parece que nunca viu alguém morrer! Nisso tudo eu só lamento é perder o testamento do cachorro. [Morre]

CHICÓ: João! João! Morreu! Ai meu Deus, morreu pobre de João Grilo! Que é que eu faço no mundo sem João? João! João! Não tem mais jeito, João Grilo morreu. Acabou-se o Grilo mais inteligente do mundo.

CENA 9


PALHAÇO 1, entrando: Peço desculpas ao distinto público que teve de assistir a essa pequena carnificina, mas ela era necessária ao desenrolar da história. Agora a cena vai mudar um pouco. João, levante-se e ajude a mudar o cenário. Chicó! Chame os outros.

CHICÓ: Os defuntos também?
PALHAÇO 2: Também.
CHICÓ: Sacristã, Padre, Padeiro, Mulher safada... Apareçam todos. [Os mortos entram e deitam no chão]

PALHAÇO 2: Muito bem, com toda essa gente morta, o espetáculo continua e terão oportunidade de assistir seu julgamento.
PALHAÇO 1: Sabe o que mais está faltando?
PALHAÇO 2: O quê?
PALHAÇO 1: A gente trocar o Chicó e o João Grilo.
PALHAÇO 2: Mas trocar?
PALHAÇO 1: É coisa do diretor da peça.
PALHAÇO 2: Ah tá, então a gente obedece, né!?
PALHAÇO 1: Pode entrar a dupla novinha em folha.
PALHAÇO 2: Ta parecendo até substituição de futebol, sabe como?
PALHAÇO 1: Deixe de conversa fiada e vamos continuar?
PALHAÇO 2: Fique à vontade.
PALHAÇO 1: Espero que todos os presentes aproveitem os ensinamentos desta peça e reformem suas vidas, se bem que eu tenha certeza de que todos os que estão aqui são uns verdadeiros santos.
PALHAÇO 2: E basta, se bem que seja pouco. Música. [Música de circo. Os Palhaços tocam nos mortos, que levantam e dançam juntos; Muda a música, todos ficam assustados. Só os palhaços saem.]


DEMÔNIO, entrando: Calem-se todos. Chegou a hora da verdade.

TODOS: Da verdade?

DEMÔNIO: Da verdade, sim.
JOÃO GRILO: Então já sei que estou desgraçado, porque comigo era na mentira.

DEMÔNIO: Vocês agora vão pagar tudo o que fizeram.
PADRE: Mas o que foi que eu...
DEMÓNIO: Silêncio! Chegou a hora do silêncio para vocês e do comando para mim. E calem-se todos. Vem chegando agora quem pode mais do que eu e do que vocês. Ouçam o que estou dizendo, senão será pior! Vamos aos fatos. (...) Que vergonha! Todos tremendo! Tão corajosos antes, tão covardes agora! O Senhor Bispo, tão cheio de dignidade, o padre, a valente Severina... E você, o Grilo que enganava todo o mundo, tremendo como qualquer safado!

JOÃO GRILO: Que é que posso fazer? Já disse mais de cem vezes a mim que não tremesse e tremo.


DEMÓNIO: E tem razão, porque o que vai lhe acontecer é coisa muito séria. (Sorrindo.)

SEVERINA: Ai meu Deus, vou pagar minhas mortes no inferno!
SACRISTÃ: Senhor demônio tenha compaixão com uma pobre sacristã.


DEMÓNIO: Ah, compaixão... Como piada é boa! Vamos, todos para dentro. Para dentro, já disse. Todos para o fogo eterno, para padecer comigo. [O Demônio começa a perseguir os mortos]



PADRE: Ai! Leve a sacristã!
SACRISTÃ: Ai! Leve o Severina!
SEVERINA: Ai! Leve a cabra!
JOÃO GRILO: Parem, parem! Acabem com essa molecagem! [Seu grito é tão grande que todos param e o silêncio se faz] Diabo dum barulho danado! É assim, é? É assim, é?
DEMÓNIO: Assim como?

JOÃO GRILO: Assim de vez? É só dizer “pra dentro” e vai tudo? Que diabo de tribunal é esse que não tem apelação?

DEMÓNIO: É assim mesmo e não tem para onde fugir!

JOÃO GRILO: Sai daí, pai da mentira! Sempre ouvi dizer que para se condenar uma pessoa ela tem de ser ouvida!

BISPO: Eu também. Boa, João Grilo!
PADRE: Boa, João Grilo!
MULHER: Boa, João Grilo!
PADEIRO: Você achou boa?

MULHER: Achei.
PADEIRO: Então eu também achei. Boa, João Grilo!
TODOS, repetindo: Boa, João Grilo.
SEVERINA: É isso mesmo e eu vou apelar para Nosso Senhor Jesus Cristo, que é quem pode saber.



CENA 10

[Toca uma música de aleluia. Todos vão-se ajoelhando. O demônio volta rapidamente as costas, para não ver o Cristo que vem entrando. É de uma bondade simples e digna nos gestos e nos modos]

DEMÓNIO, de costas, grande grito, com o braço ocultando os olhos: Quem é? É Manuel?
MANUEL: Sim, é Manuel, o Leão de Judá, o Filho de Davi. Levantem-se todos, pois vão ser julgados.



JOÃO GRILO: Mas, espere, o senhor é que é Jesus?

MANUEL: Sou, por quê?


JOÃO GRILO: Porque... não é lhe faltando com o respeito não, mas eu pensava que o senhor era muito menos queimado.


MANUEL: João, você é cheio de preconceitos de raça. Vim hoje assim de propósito, porque sabia que isso ia despertar comentários. Que vergonha! Eu Jesus, nasci branco e quis nascer judeu, como podia ter nascido preto. Para mim, tanto faz um branco como um preto.

PADRE: Eu, por mim, nunca soube o que era preconceito de raça.

DEMÓNIO, sempre de costas para Manuel: É mentira. Só batizava os meninos pretos depois dos brancos.

PADRE: Mentira! Eu muitas vezes batizei os pretos na frente.

DEMÓNIO: Muitas vezes, não, poucas vezes, e mesmo essas poucas quando os pretos eram ricos.

PADRE: Prova de que eu não me importava com cor, de que o que me interessava...
MANUEL: Era a posição social e o dinheiro, não é, Padre João? Mas deixemos isso, sua hora chegou. Demônio, acuse o padre.
PADRE: De mim ele não tem nada o que dizer.
DEMÔNIO: É o que você pensa, minha safra hoje está garantida. Simonia, no enterro do cachorro, velhacaria, política mundana, arrogância com os pequenos, subserviência com os grandes.... preguiça..
PADRE: Preguiça?
DEMÔNIO: Isso mesmo. Deixava tudo nas costas doa sacristã e a paróquia ficava completamente entregue a essa patife.

SACRISTÃ: Patife é você.

MANUEL: Silêncio, sacristã.


DEMÔNIO: Ah, foi ela quem saiu cantando o trecho da missa atrás do cachorro, com olho nos três contos. Em latim, na língua que você escolheu.
MANUEL: E o padeiro?

DEMÔNIO: Ele e a mulher foram os piores patrões que Taperoá já viu.

MULHER: Mentira!
JOÃO GRILO: É não, é verdade.



DEMÔNIO: Avareza do marido, adultério da mulher. Bem medido e bem pesado, cada um era pior do que o outro.




MANUEL: Agora acuse Severina e a cabra dela.
DEMÔNIO: E precisa? São duas cangaceiras conhecidas. Mataram mais de trinta.

MANUEL: Verdade?
SEVERINA: É. Matei, não vou negar.
DEMÔNIO: Acho que basta. Inferno nele.

MANUEL: Espere, isso também não é assim de repente não!

JOÃO GRILO: Toma capiroto!
TODOS, gritando: Ahh ê ê ê ê ê ê ê!

DEMÔNIO: É, você está muito engraçado agora, mas Manuel é justo e quando ele me entregar vocês.

JOÃO GRILO: E quem disse que ele vai nos entregar?
DEMÔNIO: Você acha pouco? Eu não estou vendo os olhos dele, porque estou de costas, mas pressinto essas coisas. A situação está favorável para mim e preta para vocês. [Começa a rir e todos começam a tremer]
MULHER: Verdade, senhor?

MANUEL: Verdade, a situação está ruim para vocês, porque as acusações são graves.


DEMÔNIO: O que me diverte nisso tudo é ver esse amarelo tremendo de medo. Coragem, João Grilo!

JOÃO GRILO: Não sou eu, é meu corpo.


MANUEL: E agora? Que é que você diz em sua defesa? Sei que você é astuto, mas não pode negar o fato de que foi acusado.

JOÃO GRILO: O senhor vai me desculpar, mas eu não fui acusado de coisa nenhuma.

MANUEL: Não?

DEMÔNIO: Foi mesmo não. Começou com uma confusão tão grande que eu me esqueci de acusá-lo. Vou começar... A sacristã, o padre e o bispo fizeram o enterro do cachorro, mas a história foi toda tramada por ele.


JOÃO GRILO: Mentira, Nosso Senhor.
MANUEL: Verdade, João Grilo.
DEMÔNIO: Depois, foi ele quem matou Severina e o cabra dele, com uma história de gaita, Padre Cícero e não sei que mais.

JOÃO GRILO: Legítima defesa, Nosso Senhor!
DEMÔNIO: Mentira, Manuel!

MANUEL: Verdade, demônio!

DEMÔNIO: Mas não se esqueça de que a história estava preparada para a mulher do padeiro.

MANUEL: É verdade, aí você passou da conta, João.

DEMÔNIO: De modo que o caso dele é sem jeito. É a primeira que vou levar. Essa é boa, João Grilo, o amarelo, que enganava todo mundo, vai levar na cabeça!

JOÃO GRILO: Ah e você pensa que eu me entreguei? Pode ser que eu vá, mas não é assim não!


MANUEL: E por quem vocês iriam gritar?

JOÃO GRILO: A mãe da justiça.

DEMÔNIO, rindo: Ah, a mãe da justiça! Quem é essa?
MANUEL: Não ria, porque ela existe.
BISPO: E quem é?
MANUEL: A misericórdia.
SEVERINA: Foi coisa que nunca conheci. Onde mora? E como chamá-la?

JOÃO GRILO: Ah isso é comigo. Vou fazer um chamado especial, em verso. Garanto que ela vem, querem ver? (Recitando). Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré! A vaca mansa dá leite, A braba dá quando quer. A mansa dá sossegada, A braba levanta o pé. Já fui barco, fui navio, Mas hoje sou escaler. Já fui menino, fui homem, Só me falta ser mulher. Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré. (A Compadecida, entra)


CENA 11


DEMÔNIO, com raiva: Lá vem a compadecida! Mulher em tudo se mete! Grande coisa esse chamego que ela faz para salvar todo mundo!
SEVERINA: Você só fala assim porque nunca teve mãe.
JOÃO GRILO: Um sujeito ruim desse, só sendo filho de chocadeira!

A COMPADECIDA: E para que foi que você me chamou, JOÃO?
JOÃO GRILO: É que esse filho de chocadeira quer levar a gente para o inferno. Eu só podia me pegar com a senhora mesmo.

DEMÔNIO: As acusações são graves. Seu filho mesmo disse que há tempo não via tanta coisa ruim junta.

A COMPADECIDA: Ouvi as acusações.

DEMÔNIO: E então?

A COMPADECIDA: Vou ver o que posso fazer.
JOÃO GRILO (ao demônio): Está vendo? Isso aí é gente e gente boa, não é filha de chocadeira não!


A COMPADECIDA: Intercedo por esses pobres que não têm ninguém por eles, meu filho. Não os condene.

MANUEL: Que é que eu posso fazer? Esse aí era um bispo avarento, simoníaco, político...

A COMPADECIDA: Mas isso é a única coisa que se pode dizer contra ele. E era trabalhador, cumpria suas obrigações nessa parte.

MANUEL: O padre e a sacristã... (Gesto de desânimo)
A COMPADECIDA: É verdade que eles praticaram atos vergonhosos, mas é preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. A carne implica todas essas coisas turvas e mesquinhas. Quase tudo o que eles faziam era por medo.

DEMÔNIO: Medo? Medo de quê?
MULHER: Ah, senhor, de muitas coisas.

BISPO: Medo da morte...
PADRE: Medo do sofrimento...

SACRISTÃ: Medo da fome...
PADEIRO: Medo da solidão.
MANUEL: Mas esses dois? Você mesma via daqui e comentava o que eles faziam com João Grilo e os outros empregados na padaria!

JOÃO GRILO: Se é por mim, não há dificuldade, porque eu sou tão sem-vergonha, que já me esqueci de tudinho.

MANUEL: Devia ter esquecido lá, João. Pode alegar alguma coisa em favor deles?

A COMPADECIDA: O perdão que o marido deu à mulher na hora da morte, abraçando-se com ela para morrerem juntos.

MANUEL: Isso pode se dizer em favor dele. Mas ela?
DEMÔNIO: Enganava o marido com todo mundo.

MULHER: Porque era maltratada por ele. Logo no começo de nosso casamento, começou a me enganar. A senhora não sabe o que eu passei, porque nunca foi moça pobre casada com homem rico, como eu.

A COMPADECIDA: Eu entendo tudo isso mais do que você pensa. Sei o que as mulheres passam no mundo, se bem que não tenha do que me queixar, porque meu marido era o que se pode chamar um santo.


MANUEL: Está recebida a alegação.
A COMPADECIDA: Quanto a Severina e a cabra dela...
MANUEL: Quanto a essas, deixe comigo. Estão ambos salvos.

DEMÔNIO: É um absurdo contra o qual...

MANUEL: Contra o qual já sei que você protesta, mas não recebo seu protesto. Você não entende nada dos planos de Deus. Severina e a outra cangaceira foram meros instrumentos de sua cólera. Enlouqueceram ambos, depois que a polícia matou a família delas e ainda foram estupradas nos abrigos por quais passaram. Não eram responsáveis por seus atos. Podem ir para ali. [Severina e a cangaceira se abraçam e vão para o céu]

BISPO: E nós?
SACRISTÃ: Decida-se logo, por favor, porque essa ansiedade é pior do que qualquer outra coisa.

MANUEL: Não diga isso, você não sabe o que se passa lá. Qualquer ansiedade é melhor do que aquilo.

DEMÔNIO: É, mas não posso ficar eternamente à espera. Qual é a sentença?

JOÃO GRILO: Um momento, senhor. Posso dar uma palavra?
MANUEL: Você o que é que acha, minha mãe?

A COMPADECIDA: Deixe João falar.

MANUEL: Fale, João.

JOÃO GRILO: Os cinco últimos lugares do purgatório estão desocupados?

MANUEL: Estão.
JOÃO GRILO: Pegue esses cinco camaradas e bote lá.

A COMPADECIDA: É uma boa solução, meu filho. Dá para eles pagarem o muito que fizeram e assegura a sua salvação.

MANUEL: Então está concedido.
DEMÔNIO: Não tem jeito não. Homem que mulher governa...
MANUEL: Podem ir, vocês cinco. [Os cinco se despedem comovidamente de João Grilo e saem]

MANUEL: E agora, nós, João Grilo. Por que sugeriu o negócio para os outros e ficou de fora?

JOÃO GRILO: Porque, modéstia à parte, acho que meu caso é de salvação direta.

DEMÔNIO: Era o que faltava!

A COMPADECIDA: João foi um pobre como nós, meu filho. Teve de suportar as maiores dificuldades, numa terra seca e pobre como a nossa. Não o condene, deixe João ir para o purgatório.

JOÃO GRILO: Para o purgatório? Não, não faça isso assim não

A COMPADECIDA: Que é isso? Não confia mais na sua advogada?

JOÃO GRILO: Confio, Nossa Senhora, mas esse camarada enrolando nós dois.

A COMPADECIDA: Deixe comigo. (A Manuel) Peço-lhe então, muito simplesmente, que não condene João.

MANUEL: O caso é duro. Compreendo as circunstâncias em que João viveu, mas isso também tem um limite. Afinal de contas, o mandamento existe e foi transgredido. Acho que não posso salvá-lo.

A COMPADECIDA: Dê-lhe então outra oportunidade.

MANUEL: Como?

A COMPADECIDA: Deixe João voltar.

MANUEL: Você se dá por satisfeito?
JOÃO GRILO: Demais. Para mim é até melhor, porque daqui para lá eu tomo cuidado para a hora de morrer e não passo nem pelo purgatório, para não dar gosto ao cão.

A COMPADECIDA: Então fica satisfeito?

JOÃO GRILO: Eu fico. Quem deve estar danado é o filho de chocadeira. [O demônio, furioso, volta-se para João, mas nesse momento dá um grande grito e corre para o inferno]

MANUEL: Vou deixar que você volte, porque minha mãe me pediu.


A COMPADECIDA: Até à vista, João.

JOÃO GRILO, beijando a mão de Cristo: Muito obrigado senhor. Até à vista.

MANUEL: Até à vista, João.

A COMPADECIDA: João!

JOÃO GRILO: Senhora?

A COMPADECIDA: Veja como se porta.

JOÃO GRILO: Sim senhora!
MANUEL (à compadecida): Se a senhora continuar a interceder desse jeito por todos, o inferno vai terminar como repartição pública, que existe, mas não funciona.

CENA 12


PALHAÇO 1, entrando: Aqui, sinto interromper a conversa de dois atores tão importantes, mas é preciso arrumar novamente a cena para o enterro de João. Estamos novamente na terra e o espetáculo continua. [Depois da saída dos dois atores]
PALHAÇO 2: Chicó arranjou um pano e colocou o corpo do amigo. Vamos enterrá-lo. Vai começar o ato final da peça.
CHICÓ: Ai, ai, nunca pensei que João fosse tão pesado!
PALHAÇO 2: Vamos descansar um pouco, que o cemitério é longe. [sentam-se um pouco, enxugando o suor]

CHICÓ: Quando eu penso que pobre de João não tem nem direito a um enterro em latim! Coitado, está mais abanMajordo do que o cachorro do padeiro. Pobre de João!

JOÃO GRILO, erguendo a cabeça: É, pobre de João agora, mas nesse instante vinha reclamando meu peso.

CHICÓ: Você ouviu alguma coisa?

PALHAÇO 1: Eu não.
CHICÓ, asssustado: Pois eu ouvi direitinho a fala de João.
PALHAÇO 2: Ai, ai, ai, você já começa com suas histórias!
JOÃO GRILO, com voz de alma: Um Padre-Nosso e uma Ave-Maria para essa alma que aqui pena!

CHICÓ: Ai!
PALHAÇO 1: Ai! Chicó, me acuda que é a alma de João!
CHICÓ: Valha-me Nossa Senhora! João, pelo amor de Deus, se lembre de que fui seu amigo!

JOÃO GRILO, saltando fora da rede: Estou aqui, Chicó!

CHICÓ: Ai!

PALHAÇO 2: Ai! Corre Chicó!
CHICÓ: E eu posso? Acho que minhas pernas caíram!
PALHAÇO 1: Então vá-se danar, porque eu vou! [Sai correndo. Chicó ajoelha-se]
JOÃO GRILO, cruzando os braços: Tenha vergonha, Chicó! Um homem desse tamanho com medo de alma!

CHICÓ: Ai meu Deus, é João! João, dizei-me o que quereis e se estais no céu, no inferno ou no purgatório!

JOÃO GRILO: Olhe a besteira dele. Tenha vergonha, Chicó, estou vivo!
CHICÓ: É alma, e da ruim, daquela que diz que está viva. Ai, minha Nossa Senhora!

JOÃO GRILO, dando-lhe um tapa: Levante, Chicó. Não está vendo que sou eu? Estou vivo, rapaz!

CHICÓ: Eu só acredito vendo.

JOÃO GRILO, aproximando-se: Pois então veja.


CHICÓ: Ai!
JOÃO GRILO: Que é isso, homem? Você não disse que acreditava vendo?

CHICÓ: Disse, mas não lhe pedi que mostrasse não.


JOÃO GRILO: Tenha coragem, homem, pegue! [Com a maior cautela Chicó toca-lhe o braço e enfim se convence]

CHICÓ: Meu Deus, é mesmo! João! (Abraça-o) Como foi isso, João?

JOÃO GRILO: Sei não, Chicó, acho que a bala pegou de raspão. Fiquei com a vista escura e quando acordei estava aqui.

CHICÓ: João, você tendo escapado, é o que basta.

JOÃO GRILO, revirando os bolsos: Cadê o dinheiro que estava no meu bolso, Chicó?

CHICÓ: Pode ficar descansado, João, eu tirei antes de você se enterrar.

JOÃO GRILO: Ah, cabra safado, com pena de mim, mas não se esqueceu do dinheiro, hein!?


CHICÓ: E além do dinheiro do enterro, o que Severina tirou da padaria. Estamos ricos, João... Ai meu Deus, ai minha Nossa Senhora! Meu Deus, meu Deus! Burro, burro! (sai gritando pelo palco)

JOÃO GRILO: Que é isso? Burro o quê? Burro é você!
CHICÓ: Sou eu mesmo, João, sou o maior burro que já apareceu por aqui. Ai meu Deus, ai minha Nossa Senhora!

JOÃO GRILO: O que é que há, rapaz?

CHICÓ: Eu pensei que você tinha morrido, João!

JOÃO GRILO: E o que é que tem isso, homem?
CHICÓ: Tem que eu, pensando que não tinha mais jeito, fiz uma promessa a Nossa Senhora para dar todo o dinheiro a ela, se você escapasse!

JOÃO GRILO: Ai meu Deus, ai minha Nossa Senhora!
CHICÓ: Ai meu Deus, ai minha Nossa Senhora!
JOÃO GRILO: Mas Chicó, como é que se faz uma promessa dessas?

CHICÓ: E eu sabia lá que você ia escapar, desgraça? Oh homem duro de morrer, meu Deus!

JOÃO GRILO: Ah promessa desgraçada, ah promessa sem jeito, Chicó!

CHICÓ: Agora é tarde para me dizer isso.

JOÃO GRILO: Não terá sido a metade que você prometeu?
CHICÓ: Não, João, foi tudo.
JOÃO GRILO: Ah promessa desgraçada, ah promessa sem jeito, Chicó! Não terá sido engano seu Chicó?

CHICÓ: Não, João, tenho certeza absoluta: entrei na igreja, me ajoelhei e prometi.

JOÃO GRILO: Tudo?

CHICÓ: Tudo.
JOÃO GRILO: Ah promessa desgraçada, ah promessa sem jeito, Chicó.


CHICÓ: Homem, estou tão desgostoso quanto você! É melhor deixar de conversa: vamos pagar o que se deve!

JOÃO GRILO: Vamos, não; vá você! Eu não prometi nada e metade do dinheiro é meu!

CHICÓ: É, mas acontece que quando eu prometi ele era todo meu, porque eu me considerava seu herdeiro.

JOÃO GRILO: Eu não tenho nada com isso, não prometi nada.

CHICÓ: Então fique com sua parte e assuma a responsabilidade. Eu vou entregar a minha.

JOÃO GRILO: Chicó!

CHICÓ: Que é?
JOÃO GRILO: Espere por mim que eu também vou.
CHICÓ: Vai?

JOÃO GRILO: Vou.

CHICÓ: Pois eu já estava convencido de que você estava certo.

JOÃO GRILO: É, mas faltou quem me convencesse. Se fosse a outro santo, ainda ia ver se dava um jeito, mas você achou de prometer logo a Nossa Senhora! Quem sabe se eu não escapei por causa disso? O dinheiro fica como se fossem os honorários da advogada. Nunca pensei que essa também aceitasse pagamento!


CHICÓ: Quer dizer que entrega?
JOÃO GRILO: Entrego. Palavra é palavra e depois estive pensando: quem sabe se a gente, depois de ficar rico, não ia terminar como o padeiro? Assim é melhor cumprir a promessa: com desgraça a gente já está acostumado e assim pelo menos não se fica com aquela cara.
CHICÓ: É mesmo.

JOÃO GRILO: Pois vamos. Mas de outra vez, veja o que promete, infeliz, porque essa, ah. Promessa desgraçada, ah promessa sem jeito! [Saem]




FIM

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