Por Dorrit Harazim (texto editado)
“Não é de hoje que profissionais de áreas criativas tentam conciliar a sedutora tirania da era digital com pelo menos um nanossegundo de tempo, espaço e silêncio para pensar.
Três anos atrás, nos Estados Unidos, um doutorando da Universidade da Carolina do Norte inventou um programa que permite ao usuário bloquear o acesso de seu computador à internet por um período de até oito horas. O marketing do software, espertamente batizado de Freedom (liberdade), tinha alvo certo. “Freedom te liberta das distrações, te devolve o tempo [de que você precisa] para escrever, analisar, criar”, proclamava o anúncio.
Em apenas uma geração, o estado de exaltação diante do inebriante ganho de tempo e expansão do conhecimento proporcionado pela era digital começa a ser mitigado por quem se sente sufocado ou distraído pelas demandas ininterruptas da conectividade.
Em recente ensaio sobre a urgência de uma desaceleração em benefício de se ter mais tempo e espaço para pensar, o escritor e ensaísta britânico Pico Iyer observa que a revolução da informação veio sem manual de instrução. E portanto ainda não sabemos fazer uso adequado dessa ferramenta que alterou o ritmo de nossas vidas. Iyer aproveita para recorre a Blaise Pascal, que atribuía todos os problemas do ser humano á nossa incapacidade de ficarmos sozinhos e calados num quarto. “Distração é a única coisa que nos consola de nossas misérias, embora seja ela a maior de nossas misérias”, filosofou o pensador francês já no século 17.
Victor Hugo, autor de clássicos como “Os miseráveis”, tinha por hábito escrever nu; cabia a seu mordomo esconder as vestimentas do patrão para impedi-lo de sair às ruas antes de concluído o tempo que ele se alocara para escrever.
Na área da educação, dúvidas também se amontoam. Poucos meses atrás, Diana Senechal, membro do Conselho de Ensino público de Nova York, soou o alarme ao analisar o desempenho dos alunos de primeiro ano das faculdades públicas da cidade: 75% precisavam de aulas de reforço. Em um estudo recente, “A república do ruído, Senechal fala da perda de quietude por parte dos estudantes – a perda da capacidade de pensar e refletir de forma independente sobre um tema, em meio a tantos aparelhinhos que piscam, vibram, chamam, cujas minitelas se alternam ininterruptamente e geram um vazio semelhante à saciedade.
“Os alunos não aprendem mais a lidar com momentos de dúvida, eles se habituaram a produzir algo o tempo todo. Somos uma nação grudada em smartphones e telas de computador, checando e-mails e alimentando tweets.”
Senechal não advoga jogar IPads e IPhones no lixo nem prega o isolamento sem rumo; apenas reivindica uma vida tecnológica que contemple a formação de ideias e a prática da quietude.
Algumas grandes corporações buscam alternativas para prevenir, entre os seus funcionários, o que é conhecido como uma sigla – a ITSO, ou “incapacidade de desligar”, em inglês. Para as quatro letras adquirirem status de mais uma síndrome do mundo moderno, sujeita a tratamento médico e processos trabalhistas, é um pulo.
domingo, 8 de janeiro de 2012
A conquista da quietude
A voz do professor
"De 1976 a 2008, fiz parte do magistério estadual, atuando no Ensino Médio. O desestímulo à escolha da profissão deve-se aos absurdos vividos no cotidiano das escolas; às ordens incompatíveis à qualidade de ensino vindas da Secretaria de Educação; a uma astuciosa política educacional que, usando uma gratificação tentadora, transformou, com exceções, o diretor de escola num misto de gerente de empresa e feitor de professores visando à "produtividade" dos alunos e à apresentação de índice cor de rosa de aprovação a qualquer custo. Lamentavelmente, é consequência lógica não haver interesse pela profissão. Qual é a solução para situação tão grave e degradante?"
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Férias
Além das férias, o ano de 2012 inteiro será de poucos artigos por aqui. Vou tentar colocar em prática o meu projeto de transformar um ano letivo em diário.
Continue lendo >>quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Inimigo deletado
escrito por Dorrit Harazim, O Globo, 30/10/2011, p.6.
Tudo, na forma como Kadafi foi abatido, causou engulho. Tivesse o seu corpo sido varado por obra de um improvisado pelotão de fuzilamento, ou mesmo enforcado on-line, como Saddam Hussein cinco anos atrás, a repulsa geral talvez tivesse sido menor. Mas o conjunto da obra, naquela quinta-feira 20 de outubro, esteve vários tons acima do suportável. Difícil foi diferenciar vítima e algozes, naquele chão batido de Sirte. Ademais, o bestial espetáculo adequadamente mal filmado.
Corte para outra execução, ocorrida três semanas antes, no lêmen. O clérigo Anwar al-Awlaki, cidadão americano e principal propagandista em língua inglesa da rede terrorista al-Qaeda, foi pulverizado por um avião não tripulado, que alvejou o comboio em que ele se deslocava. Não teve direito a processo, julgamento, condenação.
A operação foi executada pelo Comando de Operações Especiais dos Estados Unidos (também responsável pela morte de Osama bin Laden em maio passado), em conjunto com a CIA. Operação cirúrgica, silenciosa, invisível – exceto para o secreto grupo de executores, aquartelados a três oceanos e dois continentes de distância.
Coube à jornalista Jane Meyer, em reportagem para a revista “New Yorker”, a primazia de um mergulho no mundo fantástico dos chamados drones, ou Veículos Aéreos Não Tripulados (UAV, sigla em inglês). Meyer assistiu à transmissão em tempo real de imagens que mostravam Baitullah Mehsud, um dos mais procurados terroristas do Talibã. Mehsud estava sendo filmado na casa do sogro, no Paquistão, numa noite de verão de 2009. Mais precisamente na laje da casa, onde podia ser visto reclinado, ao lado da mulher e de um tio médico.
As imagens feitas pela câmera infravermelha de um drone, e captadas a mais de três quilômetros de altitude, eram cristalinas. Em determinado momento via-se o terrorista, que era diabético e estava com o pâncreas arrebentado, receber uma injeção intravenosa. As imagens não tremem um milímetro sequer quando o avião lança dois mísseis Hellfire acionados da sede da CIA. E quando a espessa nuvem de fumaça se dissipa, é possível ver o que restou do terrorista: um torso. Outras 11 pessoas morreram, entre as quais sua mulher, sogro, sogra e onze guarda-costas.
O caso do americano al-Awlaki não foi muito diferente, e com ele morreu um segundo cidadão americano, contra quem não havia qualquer acusação. Ambos foram executados por robôs voadores capazes de encurralar e obliterar o inimigo com um simples apertar de botão à distância. Tudo perfeitamente clínico, cirúrgico, eficiente e invisível. O oposto da barbárie em Sirte.
A estreia dos UAVs no cenário da guerra global ao terrorismo ocorreu pouco depois dos atentados às Torres Gêmeas de 2001. Eram, na época apenas 50 unidades voadoras. Hoje o inventário do Pentágono lista 7 mil dessas aeronaves não tripuladas, numa variedade de formas e tamanhos impressionante. A ponto de a Força Aérea dos Estados Unidos já estar treinando mais pilotos de drones do que pilotos de aviões militares convencionais.
As quase 50 páginas que compõe o memorando secreto autorizando a execução de um cidadão americano, sem julgamento prévio, foram confeccionados um ano atrás e são o resultado de meses de deliberações jurídicas na Casa Branca de Barack Obama.
Embora um decreto presidencial de Obama tenha vetado assassinatos de líderes políticos que não estejam em guerra com os Estados Unidos, ele não proíbe a execução de alvos legítimos em caso de conflito armado.
A conclusão do documento produzido pela Advocacia Geral do Departamento de Justiça é que o clérigo poderia ser legalmente assassinado caso não fosse viável capturá-lo por ele se encontrar em meio a seguidores armados hostis. Ademais, o risco de despachar comandos terrestres para a operação e o risco de um imbróglio diplomático no lêmen acabaram justificando a opção da morte por videogame.
A turba de matadores improvisados de Muamar Kadafi também poderia argumentar que não seria viável mantê-lo vivo depois de capturado por Sirte ainda estar infestada de seguidores armados dispostos a morrer pelo “Irmão Líder”.
Que guerras civis não têm regras nem lei, e abrigam acertos de contas selvagens, é sabido. Por isso são acompanhadas com tanto opróbrio, medo e choque. Encrenca nova é um estado de direito declarar uma guerra sem fronteiras. E em nome dela sair matando inimigos mundo afora. Sem sequer manchar os dedos.
Dorrit Harazim é jornalista
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Comemorar Muammar Kadafi morto!
Alguns meses depois de iniciado os conflitos na Líbia finalmente aconteceu o que muitos previam - morreu o ditador Muammar Kadafi. Fico de boca aberta ao ver as comemorações ao redor do mundo, assim como na morte de Osama Bin Laden, como se a democracia ganhasse com os assassinatos destes "ícones do mal". Em primeiro lugar, o mundo é muito mais complexo do que os maquineístas imaginam. Não existem mocinhos e bandidos no jogo político mundial. Muitos dos que posam de heróis são os vilões para os milhares de iraquianos e afegãos mortos "em nome da democracia". Além disso, que mensagem estes países querem passar para o mundo ao concordarem com execuções sumárias, sem que o princípio básico de ampla defesa diante de um tribunal qualificado (afinal de contas, não é por isso que a justiça é uma das prerrogativas de uma democracia?) tenha sido adotado? Ao que me parece, vale a máxima de pensar que somente os outros são os "bárbaros". Não se justifica um erro para vingar um outro erro. Lamentável!
Nem de longe quero aqui defender a figura do ditador líbio ou do terrorista da Al-Qaeda, apenas defendo que eles recebam o tratamento como qualquer criminoso receberia. Aplaudir e repetir gestos que outrora eles faziam com seus inimigos é equiparar-se a eles. Simples assim.
Mas a pergunta que não quer calar é a seguinte: O que os "guardiões da democracia" tem a falar sobre o massacre étnico em Ruanda (que matou cerca de 800 mil tutsis, etnia rival dos hutus, e indiretamente foi financiado com o dinheiro do Banco Mundial e do FMI), quando o presidente Bill Clinton teve a chance de intervir e preferiu declarar que aquilo era um assunto interno ruandês? Por que não invadiram o Sudão enquanto 400 mil pessoas (sem contar os 2 milhões de refugiados) eram assassinadas pela milícia janjawid em Darfur, mesmo tendo provas do envolvimento do governo de Omar al-Bashir (ditador, desde 1989, que financiava as milícias árabe-muçulmanas)? E o que dizer da Síria atual onde o governo de Bashar al-Assad manda atirar na multidão de opositores do seu regime. Se há um interesse verdadeiramente humanitário nas iniciativas da ONU, por que não aumentar os esforços para diminuir os números da fome na África, que promete ceifar a vida de 13 milhóes de pessoas (750 mil pessoas, somente na Somália, até o fim deste ano).
Tudo isso só me dá a certeza de que todos nós estamos sendo enganados, pois querem nos impor o que é justo, o que é prioridade e com o que devemos nos preocupar. Vamos acordar, gente! Não sejamos fantoches nas mãos da imprensa comprada pelos interesses das potências internacionais. Não há nada para comemorar na Líbia. a democracia está tão longe dos líbios como nós estamos de receber uma resposta convincente para as perguntas acima.
domingo, 23 de outubro de 2011
Jô Soares fala sobre a Globo
Mais uma contribuição do blog de um jornalista do Jornal do Brasil Davis Sena Filho.
Jô Soares (que parece ter mudado de opinião) fala sobre os bastidores sujos da TV Globo.
A Líbia, o colonialismo imperialista e as trapaças da imprensa (privada)
Recebi este texto por email e acabei achando a referência dele no blog do seu autor Davis Sena Filho. Não concordo com tudo que o autor aborda em seu texto, mas é de fácil leitura e segue mais ou menos a linha que defendo aqui no blog também. Vale a pena dar uma lida.
Estou a ver o Jornal Nacional da TV Globo. A matéria, de quase cinco minutos, é sobre a Líbia e seu presidente, Muammar Kadafi. Assistir ao JN é a mesma coisa que assistir ao principal jornal da CNN ou da Fox News, ou seja, ter o direito de ouvir e ver matérias totalmente parciais e dedicadas ao establishment internacional ocidental, no que é relativo à defesa dos interesses geopolíticos e de controle das riquezas de países que não são alinhados aos Estados Unidos e à União Européia.
William Bonner e Fátima Bernardes representam bem. Realmente se esforçam para cumprir os compromissos. As palavras que saem de suas bocas crispadas são assertivas e seus olhares são duros tanto quanto as ordens de seu chefe, Ali Kamel, “mentor” ideológico da grande imprensa televisiva nativa e cumpridor de suas obrigações quando se trata de defender os interesses econômicos, financeiros, publicitários e políticos da família Marinho, proprietária de um dos maiores grupos midiáticos do mundo e compromissada até a alma com os interesses do capitalismo mundial — a famosa plutocracia.
Bonner e Bernardes fazem sua parte: a de empregados bem-remunerados que estão ali para dar o recado a quem quer que seja, tanto para o governo brasileiro, bem como àqueles que, de maneira programática, discordam da construção de um Brasil que os magnatas proprietários de mídias cruzadas (rádio, televisão, imprensa impressa, internet e até mesmo o setor fonográfico) querem para eles e para os segmentos sociais e econômicos que eles representam — os ricos e os muito ricos.
Os dois editores-chefes do Jornal Nacional — o nome do diário televisivo não advém do sentimento nacionalista dos Marinho e de seus editores e, sim, porque o extinto Banco Nacional era o principal patrocinador do jornal — só chamam o Kadafi de ditador e dão a entender que a aliança ocidental contra a Líbia é para salvar os líbios de décadas de feroz ditadura, sem, no entanto, explicar o que tem por trás dos interesses de países tão democráticos e civilizados, que, mesmo a ser assim, despejam milhares de bombas nas cidades líbias, sem se preocupar, na verdade, se haverão mortos e feridos.
Nos cinco minutos de notícias que ouço e vejo sobre os bombardeios e as “boas” intenções da França (país que lidera a agressão à Líbia), Inglaterra, Itália e Espanha, com o apoio irrestrito dos EUA e de Israel, William Bonner e Fátima Bernardes se revezam na ladainha que distorce os fatos e tenta manipular a consciência de quem os assiste. Contudo, é necessário satanizar o presidente líbio, que está há 30 anos no poder e se veste, para os padrões ocidentais, de forma excêntrica.
A imprensa comercial e privada somente “esquece” que os EUA e seus asseclas, que são os países europeus que controlam a União Européia, são aliados e cúmplices de ditaduras monárquicas terríveis e inenarráveis tais quais as da Arábia Saudita, do Kwait, do Qatar, dos Emirados Árabes Unidos, além da Jordânia, países que fazem parte da invasão multinacional à Líbia, com o apoio da ONU e da OTAN, órgãos de supremacia e de espoliação internacional controlados por apenas quinze países, sendo que cinco estão a não permitir que outros países façam parte do Conselho de Segurança da ONU.
A Arábia Saudita, por exemplo, invadiu o Bahrein, quando a população daquela ilha saiu às ruas para protestar contra o monarca que governa aquele arquipélago desde 1971. A monarquia saudita, de forma preventiva, resolveu reprimir os protestos antes que eles se alastrassem para o maior exportador de petróleo do mundo, que é a Arábia Saudita. Enquanto isso, o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, o Irã e a Coréia do Norte são, hipocritamente, considerados regimes políticos do mal. E para isso a cooperação da imprensa comercial e privada é primordial.
Eu até entendo o papel dessa imprensa venal. Afinal eu a conheço e por isso sei do que se trata. Todavia, não consigo compreender como uma classe média, média alta (exemplifico a brasileira) entra nessa e repete as mesmas coisas que ouviu ou leu por meio de revistas como a Época, a Veja, além dos jornais televisivos de canais abertos e fechados, bem como de impressos conservadores e direitistas de alto escalão econômico de O Globo, Folha de S. Paulo, Estadão, Zero Hora e Correio Braziliense, somente para ficar nos cinco maiores do País.
Acho realmente incrível como tanta gente, de origem universitária e profissional competente embarca nessa trapaça. Porque informação parcial, manipulada e distorcida e até mentirosa é a mais pura e real trapaça. É o antijornalismo, porque somente um lado tem voz enquanto o outro é totalmente censurado pela imprensa, que luta contra o marco regulatório do setor, mas que defende, com unhas e dentes a liberdade de imprensa e de expressão — só que somente para a voz da imprensa, é claro. Os caras da grande imprensa privada confundem — não sei se é de propósito — liberdade de expressão com liberdade de imprimir. Liberdade de imprimir é apenas um direito industrial e empresarial. É realmente ridículo e lamentável.
Voltemos à Líbia. Esses países monárquicos têm as sociedades mais rígidas do mundo, porque as populações regidas pelos monarcas não tem seus direitos civis garantidos, bem como as mulheres vivem em uma situação de total subordinação social no que é relativo aos direitos de ir e vir, de poder trabalhar, de mostrar o rosto, de votar e até mesmo de dirigir um simples automóvel. São ditaduras aliadas, historicamente, aos europeus ricos e aos EUA. Seus dirigentes políticos freqüentam o pico da pirâmide social mundial e também suas festas no high society. São super-capitalistas, que controlam as bolsas de valores (a jogatina) em âmbito mundial.
Fátima Bernardes e William Bonner não são os únicos a satanizar líderes de países invadidos por potências ocidentais que querem ter acesso às energias como os vampiros querem ter acesso ao sangue humano. Quem tem o controle das diferentes fontes de energia e dos meios de comunicação e informação têm muito poder e é dessa forma que se dão as cartas para controlar as riquezas do planeta. Acontece que o apoio das comunidades, das sociedades em âmbito planetário é essencial para que o processo de pirataria e rapinagem seja efetivado, concretizado, e, conseqüentemente, os governantes dos países ricos ocidentais possam conseguir manter o alto padrão de vida do mundo ocidental branco, à custa de humilhação e da miséria de povos que milenarmente lutam por autodeterminação e independência.
A verdade nua e crua — é importante ressaltar: a invasão à Líbia teve como desculpa a defesa dos direitos humanos. Depois do 11 de setembro, os EUA e seus cúmplices (Israel, Inglaterra, França do direitista Sarkozy, Espanha, Itália, Alemanha e Japão, os dois últimos países ocupados pelos EUA desde 1945) passaram a realizar, a seu bel-prazeres, invasões preventivas e assim passaram a bombardear países que não são alinhados aos ocidentais belicosos e potencialmente inimigos de mandatários que não são associados aos interesses ocidentais. Muammar Kadafi é um ditador, e grande parcela da população quer sua saída. Contudo, a questão discutida nesta tribuna é que os países invasores ocidentais nunca tiveram essa preocupação, apenas usam esse subterfúgio para, enfim, colocar suas mãos nas riquezas líbias, sem ter resistências governamentais como o fazia o presidente líbio.
Desde 2001, os EUA, juntamente com a Inglaterra e Israel, países que são praticamente entes da federação norte-americana, efetivaram um processo draconiano em todo o planeta no que tange à segurança. Para poder invadir, matar e pilhar, os EUA e seus federados utilizam a desculpa esfarrapada “da defesa dos direitos humanos”, atitude essa que eles não seguem e não obedecem. Os estadunidenses violaram direitos humanos básicos. Invalidaram o habeas corpus, seqüestraram pessoas, as prenderam sem acusação formal, torturam e seu governo, na pessoa de George Walker Bush, defendeu essas ações e condutas em público.
Bush e seus falcões (aves de rapinas) afirmaram, sem ao menos ficar com os rostos vermelhos, que a tortura acontecida, por exemplo, nas masmorras de Guantânamo e Albugray era legítima, portanto necessária. Eles rasgaram todas as leis internacionais de direitos humanos e deram uma banana para a humanidade, que lutou séculos e séculos para conquistar esses avanços sociais e do direito à vida. Isto tudo, como não poderia deixar de ser, com a cumplicidade e a subserviência da grande imprensa comercial e privada, que, inclusive, autocensurou-se, como o fizeram a Fox News e a CNN, somente para exemplificar estas.
O País, um dos precursores da democracia e dos direitos humanos passou a defender a barbárie por meio dos fundamentalistas cristãos e do mercado, que são os pais da formulação e da efetivação do neoliberalismo no mundo, por intermédio do Consenso de Washington de 1989. O neoliberalismo fracassou pois derreteu, como sorvete em asfalto quente. Mas a geopolítica dos europeus e dos yankees continuou com o neoliberalismo bélico e por causa desse tenebroso processo a Líbia é no momento a bola da vez.
Ao contrário do que apregoa a imprensa privada, a Líbia, em termos africanos, tem Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elevado. Em 2010, seu IDH era 0,755. Por sua vez, 84% da população é alfabetizada. A esperança de vida é alta, pois os líbios vivem em média 74 anos. O Produto Interno Bruto (PIB) em 2009 era de US$ 62,4 bilhões. Além do mais, o PIB per capita era de US$ 9.750. O governo líbio promoveu ainda uma reforma agrária que deu dez hectares, trator e implementos agrícolas a cada família. Como se observa, a Grande República Socialista Popular Árabe da Líbia, como o nome explicita, é país socialista. Esta é a questão. O Iraque, de Saddan Hussen, também tinha uma realidade política e ideológica parecida com a da Líbia. Saddan, inclusive, era aliado dos EUA e do ocidente, quando, equivocadamente, entrou em guerra com o seu vizinho Irã. Mas esta é outra história, também manipulada pela grande imprensa e pelos governos colonialistas ocidentais.
A Líbia é, por enquanto, um país socialista, com característica política e cultural árabe. Com quase sete milhões de habitantes, esse país do norte da África é a maior potência petrolífera do continente africano. O país de Kadafi supera a Argélia e a Nigéria e tem, em seu solo, 46,5 bilhões de barris. São reservas, indelevelmente, comprovadas. É muita riqueza. O Egito, que é considerado um país muçulmano moderado e visto como uma potência africana e obediente aos EUA tem reservas dez vezes menores do que as da Líbia. Com esses números e com essas realidades, caro leitor, torna-se possível compreender a invasão da Líbia pelos bárbaros da Europa, com a aquiescência e cumplicidade dos bárbaros do norte das Américas. Nada é à toa, apesar da imprensa e de seus editores-chefes e dos barõe, que dão ordens a eles..
O motivo verdadeiro da invasão é este: o presidente Muammar Kadafi avisou às petroleiras internacionais (francesas, italianas, inglesas, alemãs e estadunidenses) que a moleza iria acabar, e que resolveu negociar novos contratos com os Brics (Brasil, Rússia, índia e China. A África do Sul vai ser país membro, mas ainda não assinou o protocolo de ingresso). Negociar com os Brics todo mundo quer, até os ricos, porque é a nova potência emergente em escala mundial, além de serem países que não estão a sofrer com a crise mundial. Pelo contrário, esses países têm mercados internos poderosíssimos, que, inclusive, foram responsáveis por inclusão social de seus povos, bem como importadores de produtos dos países ricos ocidentais, que puderam, por causa disso, amenizar suas perdas e prejuízos. Só os “especialistas” de prateleira da Globo News e do Instituto Millenium não perceberam essa insofismável realidade, de propósito e má-fé, evidentemente. Por isso que o presidente Lula foi à televisão e mandou o povo brasileiro comprar. E parte da imprensa, sempre irresponsável e ideológica, o criticou, ainda mais quando o presidente trabalhista disse que a crise no Brasil seria uma marolinha. E foi.
A invasão do país de Kadafi não tem princípios humanitários como quer fazer crer a imprensa comercial e privada, com o objetivo de “validar” e “legalizar” o massacre do povo Líbio pelas forças estrangeiras imperialistas, que apóiam grupos líbios armados que são chamados pelos jornalistas ocidentais comprometidos com o establishment de rebeldes, quando na verdade são traidores do país onde nasceram. Nunca vi rebeldes ter canhões, tanques e mísseis de longo alcance. Nunquinha. Só faltava ter aviões. Aí seria demais. Imagina. Como os nossos Bonner e Bernardes iriam explicar aos incautos tanta desfaçatez e manipulação das mídias para “legalizar” a invasão militar a um país que era o mais desenvolvido da África, juntamente com a África do Sul. Nem o avião tucano do Jornal Nacional conseguira convencer o público, aquele que ainda crê nesse tipo de jornalismo.
O povo da Líbia tinha acesso ao ensino público, à saúde e à casa própria de forma gratuita. Os recém-casados recebiam ajuda pecuniária do governo, além de uma casa para morar. Quando o mundo ocidental o chama de ditador, na verdade esse mundo é cúmplice de dezenas e dezenas de ditadores, que são considerados, de acordo com os interesses de momento, do “bem” ou do “mal”. Os EUA fomentaram um golpe militar no Brasil, e muitos brasileiros apoiaram a derrubada de João Goulart, um presidente constitucional, pois eleito pelo povo. Se o Brasil, por intermédio do Itamaraty, apoiasse a resolução 1.973 da ONU que permite a invasão da Líbia, como depois os governos brasileiros iriam ter moral se, por exemplo, os países colonialistas piratas resolvessem abocanhar o pré-sal? Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem contigo. Não é isso?
Davis Sena Filho
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Pensando o ódio
O Ódio no Brasil – Leandro Karnal from cpfl cultura on Vimeo.
Uma das melhores palestras que já vi, levando-se em conta que Karnal não utiliza nenhum elemento visual. Vale a pena assistir. Continue lendo >>
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
A manipulação dos números do Enem
A manipulação dos números do Enem
Os resultados da avaliação que alunos do Ensino Médio fizeram em 2010 ficaram conhecidos no início desta semana. Como sempre, inicia-se o famoso caminho das interpretações dos números. A imprensa em peso destacou um ponto em especial – a melhor média de notas das escolas particulares, comparando-as com as escolas públicas. Isto é um fato! Agora, fazer disso uma base para afirmar que a escola particular é melhor que a pública é uma farsa. Isso não é uma verdade.
Como todos nós sabemos, os números são frios e são as pessoas que o manipulam de acordo com o que querem defender. Qualquer um que não esteja envolvido com a educação “por dentro” não deveria levar os dados ao pé da letra. De fato, das 100 melhores notas no Enem-2010, apenas 13 são públicas (sendo todas federais – militares, Caps ou técnico). Se o número subir para as 1.000 primeiras o resultado é ainda pior – apenas 74 são da rede pública.
Concordo que o primeiro pensamento de um pai de aluno deve ser o de que seu filho deve estudar numa escola particular, pois as escolas públicas são “piores”. A sociedade como um todo, inclusive os jornais, fizeram essa interpretação. Tenho que dizer que estão enganados.
Sou um defensor da escola pública. E mais, acho que o ensino particular é um reprodutor das desigualdades sociais. TODAS AS ESCOLAS DEVERIAM SER PÚBLICAS. Desta forma, eu duvido que faltaria recursos e garanto que o ensino seria de qualidade, pois os setores influentes da sociedade teriam seus filhos estudando lá.
Para ir direto ao ponto, o que quero defender é que a diferença entre a escola pública e privada é a condição social do aluno. PONTO FINAL. Nada mais do que isso! Se fizermos uma experiência e colocarmos todos os alunos do São Bento (melhor média no Enem-2010) para estudar numa escola pública por vários anos e aplicarmos a mesma fórmula ao inverso, ou seja, colocarmos estudantes do ensino público como alunos do São Bento, teríamos os primeiros obtendo as melhores notas, sem dúvida. E eu explico. O que faz o aluno do São Bento tirar notas mais altas hoje não é SOMENTE o fato de estudar em um colégio particular. Os professores do São Bento não são mágicos em transformar qualquer um em gênio. Eles recebem uma grande ajuda de todo um contexto que envolve a vida do seu aluno – acesso à informação (livros, revistas, TV por assinatura, internet...), a bens culturais (museus, teatro, cinema...) e a cursos (inglês, informática...), estudo em tempo integral, uma família que cobra (afinal de contas, não se gasta quase 2.000 reais por mês, valor pago no São Bento, para deixar o filho brincar na escola), enfim, existe todo um universo de fatores conspirando pelo sucesso deste aluno.
Na outra face da moeda vive um jovem que passa 4 horas na escola, tem que trabalhar (em muitos casos, sobretudo no Ensino Médio), não tem dinheiro ou não possuí um ambiente que estimule o acesso aos museus, teatros, bibliotecas, etc. Ele vive em uma família completamente sem estrutura. Os pais não tem estudo, são empregados mal remunerados e não há perspectiva do filho trilhar um futuro diferente. Alguns destes alunos estão na escola obrigados, já que os pais não querem que o filho fique na rua ou têm que mostrar a presença deles para continuar a receber o Bolsa Família. Esta escola pública se transformou em um depósito de crianças e jovens. Está distante de um lugar de promoção do saber.
Me dê um aluno do São Bento e não terei qualquer problema com ele. Transfiro um aluno típico de uma das 3 escolas públicas que leciono para um professor do São Bento e ele encontrará algumas dificuldades pela frente.
O que defendo aqui é compartilhado por Fernando Veloso, especialista em educação do IBRE/FGV. Ele diz que a diferença das notas entre escolas públicas e privadas “embora possam refletir diferenças de gestão, estão relacionadas às diferenças nas condições socioeconômicas dos alunos da rede pública e particular”.
Por fim, não quero deixar uma imagem de que acho a escola pública uma maravilha e que não tem resultados apenas porque o aluno é carente. NÃO AFIRMO ISSO. Somente quis expor um contraponto a ideia de que qualquer aluno que estude em uma escola particular terá sucesso. Tenho alunos na rede pública que possuem a estrutura que mencionei mais acima e, por isso, apresentam um rendimento bem acima da média. Encontro alunos incríveis a cada ano que passa. Esse texto é especialmente escrito para eles e para todos os que acreditam em uma escola pública de qualidade.
sábado, 3 de setembro de 2011
Campanha: Raquel no Raul Gil
Entrei na campanha para minha aluna Raquel ter uma chance de mostrar seu talento na televisão.
Para quem não a conhece aí está uma amostra.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
A Líbia, de novo...
Só um comentário rápido...
Não é de hoje que venho falando para que as pessoas fiquem com um pé atrás com o que anda acontecendo na Líbia. Fora todos os interesses inegáveis das nações mais ricas, fato é que ninguém sabe o que vem depois da queda de Khadafi. Entre os rebeldes estão membros da Al-Qaeda, jihadistas convíctos e grupos pró-ocidente. Resumindo, não haverá qualquer uniformidade em um possível novo governo.
Sinto cheiro de conflito por mais algum tempo (bota tempo nisso!).
O PROCESSO DE DESUMANIZAÇÃO DOS JUDEUS COMO FACILITADOR DO HOLOCAUSTO
* Artigo escrito como conclusão do curso de pós graduação em História Contemporânea (Centro Universitário Geraldo Di Biase - 2011)
RESUMO
O presente trabalho tem como objeto de estudo o processo de desumanização dos judeus, obra reforçada na Alemanha dos 1920 até o fim da Segunda Guerra Mundial, enquanto o Partido Nazista esteve em evidência no cenário nacional. Compreende-se que o extermínio de cerca de seis milhões de judeus, no que ficou conhecido como Holocausto, foi possível, dentre múltiplos aspectos, devido ao fato destas pessoas não serem consideradas seres humanos. Ao contrário, a sobrevivência dos judeus era uma ameaça ao mundo, sobretudo aos arianos, devido ao seu caráter parasitário e degenerador das raças.
Palavras-chaves: Antissemitismo, Holocausto, Nazismo, judeus.
ABSTRACT
This work aims to study the process of dehumanization of the Jews in Germany reinforced the work of 1920 to the end of World War II, while the Nazi Party was in evidence on the national scene. It is understood that the extermination of some six million Jews in what became known as the Holocaust was possible, among many aspects, due to the fact these people are not considered human beings. In contrast, the survival of the Jews was a threat to the world, especially the Aryans, due to its parasitic character and degenerate race.
Keywords: Anti-Semitism, Holocaust, Nazis, Jews.
INTRODUÇÃO
O Holocausto certamente é um dos temas mais intrigantes da Idade Contemporânea. Longe de ser objeto de consenso historiográfico, se é que isso pode ser possível em qualquer tema, há inclusive aqueles que defendem a inexistência de tal acontecimento.1
O nosso trabalho pretende mergulhar no universo das possíveis explicações para a Shoah2. Quem de nós não tem uma opinião formada sobre este assunto? No entanto, eis um dos exercícios mais difíceis ensinados com maestria por Marc Bloch: o historiador não deve julgar, apenas compreender.3 E não são poucos os que advertem para o perigo do “tentar entender” se transformar em “justificação”.4 Para Claude Lanzmann, cineasta francês que dirigiu um dos maiores documentários sobre o Holocausto, explicar Auschwitz é um “ato fundamentalmente imoral”, pois, “implicaria o abandono da sensação inicial de espanto, de choque.”5 Talvez seja por tudo isso que nenhum museu ou memorial jamais conseguirá retratar a perseguição nazista aos judeus, pois segundo um sobrevivente sempre faltará o essencial: o horror.6 Nas palavras de Ian Kershaw, “diante de Auschwitz, os poderes de explicação do historiador parecem deveras insignificantes.”7
Mesmo sabendo de todas as dificuldades de enveredar-se por este caminho, decidir por este tema foi um verdadeiro questionamento pessoal. Após conhecer e me aproximar de um sobrevivente do Holocausto, sempre me perguntava o porquê. Como pessoas poderiam chegar ao ponto de assassinar tantos seres humanos? E foi numa leitura completamente diferente do tema que encontrei uma chave para começar a responder a minha pergunta. O historiador José Murilo de Carvalho, ao falar sobre a Guerra do Paraguai, demonstra como ambos os lados envolvidos se esforçavam em retratar o inimigo como um animal ou monstro, através de um processo denominado “desumanização”. Desta forma, a tarefa de matar “o outro” deixa de ser pensado como um atentado à civilidade. A culpa é minimizada e em alguns casos é nula já que não se destrói um ser humano, um semelhante, mas um macaco, um bicho, como no exemplo do conflito sul americano.8
Os nazistas, portanto, não matavam pessoas. Este é o ponto crucial do nosso trabalho. No lugar de seres humanos, o que eles combatiam? Este é a questão que tentaremos elucidar neste artigo.
Primeiramente, quando falamos na morte de aproximadamente seis milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial, no que ficou conhecido como Holocausto, estamos nos referindo a um tipo de genocídio, conceito elaborado por um judeu polonês refugiado do nazismo, Raphael Lemkin, no início de 1944. Segundo ele um genocídio seria a “destruição de uma nação ou de um grupo étnico por diferentes meios”9, geralmente executados ou incitados por algum grupo organizado ou até mesmo pelo próprio Estado, seja ele legitimado ou não pelo seu povo.
Quanto aos judeus, o consideramos como ligado aos antigos hebreus ou a religião judaica. Existem correntes dentro do judaísmo defendendo que ele deve ter os dois atributos; outros admitem apenas a descendência; alguns mais liberais aceitam inclusive os convertidos à religião. Ficaremos distantes desta contenda já que para um nazista isso pouco importa.10
Ao falarmos nos executores do projeto nazista da Solução Final11 estamos considerando apenas os nazistas12, apesar de entender que milhares de não-judeus, direta ou indiretamente, ajudaram o sistema funcionar. Pessoas que, segundo pesquisas feitas por Kren e Rapport, possuíam poucos indícios de loucura ou sadismo. Até mesmo entre os soldados da SS, cerca de 10% teriam este perfil.13
Inúmeros cientistas sociais já se dedicaram a explicar a Shoah. Um dos aspectos mais explorados é saber se o Holocausto pode ser considerado como MAIS UM dos genocídios existentes na história da humanidade, ou se ele possui aspectos únicos que o diferenciam dos demais. Na defesa da singularidade do evento está, entre outros, Serge Klarfeld14. Segundo ele, o Holocausto é único porque é um drama multifacetado: da civilização europeia, dada sua “cumplicidade” para com um “crime” alemão; da civilização cristã, visto que ocorreu em territórios católicos e protestantes; um drama da modernidade, em função de configurar-se como uma matança em escala industrial e de um “triunfo” da burocracia e da racionalidade, levadas às últimas conseqüências; da natureza humana, pois é fruto do pensamento racista. É ainda um drama indizível, pois se tornou um tabu, ameaçado de esquecimento ou de negação; por último, é uma experiência secular, devido ao histórico antissemita.15
Outra linha de explicação para a Shoah é interpretá-la como o auge da história do antissemitismo. Um dos maiores especialistas no tema, Raul Hilberg16, apresentou uma linha do tempo na qual podemos perceber a transformação pela qual passou a relação entre judeus e não-judeus. Um primeiro momento caracterizado pelo autor seria a exclusão, segregando os judeus como forma de evitar sua indesejada presença. O segundo momento seria o da conversão, quando a Igreja Católica tolerou a presença dos judeus, desde que passassem a professar a fé cristã. Por fim, o anti-judaísmo de cunho religioso acabou por ser suplantado pelo anti-judaísmo de cunho racista. Como bem escreveu Hannah Arendt, umas das estudiosas do antissemitismo, “os judeus puderam escapar do judaísmo pela conversão, mas da qualidade de judeus não havia escapatória”.17 Surgem, então, as teorias que pregarão a eliminação da “raça” judaica. O Holocausto seria a culminância deste último momento.
Alguns autores irão relativizar o aspecto antissemita, afirmando que este, sozinho, não é capaz de dar conta da complexidade do Holocausto. Para esses estudiosos, as mudanças trazidas pela modernidade foram fundamentais para o sucesso desta empreitada. Ícone desta corrente, Zygmunt Bauman18 nos chama a atenção para a grandiosidade e complexidade do trabalho de extermínio, fato impossível de ser realizado sem uma moderna estrutura burocrática e um sistema industrial da morte.
Uma outra corrente defende que o Holocausto foi tão-somente mais uma ação do programa do partido nacional-socialista. Dentre eles, ainda podemos fazer uma distinção entre os que acreditam que o extermínio dos judeus já estava claramente sistematizado nos planos de Hitler desde o início do III Reich, esperando apenas o momento certo para fazê-lo – os chamados intencionalistas -, e os que defendem a existência de uma ideia genérica de “Solução Judaica”, de uma “Alemanha Limpa”, mas sem uma direção prática para implantá-los – os chamados funcionalistas.19
Para fechar este primeiro grupo de autores - que não questionam a existência do Holocausto - encontramos alguns especialistas que destacam os aspectos psicológicos por detrás deste evento. A socióloga Helen Fein, por exemplo, fala em um contexto, gestado e colocado em prática pelo governo nazista, no qual os alemães foram retirados temporariamente de seu estágio civilizatório, quando “as pessoas podem agir sem considerar a possibilidade de estar ferindo outras.”20 Em outras áreas do conhecimento, para além das ciências sociais, pesquisadores buscam demonstrar como o ser humano pode se tornar cruel em determinadas circunstâncias, seja porque coloca a responsabilidade dos seus atos em terceiros, seja porque veem despertar dentro de si instintos “bárbaros” quando colocados em situações específicas.21
Por fim, não poderíamos deixar de falar daqueles que buscam provar a inexistência de um Holocausto, enquanto evento genocida de proporções gigantescas. Essa vertente historiográfica é conhecida como revisionista ou negacionista. Este grupo que advoga que o Holocausto não passa de uma falácia - não nega que, durante a II Guerra Mundial, milhares de judeus morreram. Negam, porém, que tenha havido um plano oficial por trás de tais mortes, visto que estas foram decorrentes da própria situação em que estavam expostos: doenças, fome, frio. Além disso, outros grupos também foram vítimas dos nazistas, fato que não teve a mesma repercussão que as mortes dos judeus. Para eles, isso se deve a uma tentativa de colocar os judeus como vítimas, justificando inclusive a implantação do Estado de Israel.22
Acreditamos que a relevância de nosso objeto de pesquisa reside justamente na ênfase a uma das missões mais caras ao historiador. Nas palavras de Eric Hobsbawn, "a destruição do passado [...] é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres [...]", posto que "os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem". Os historiadores são tão importantes, conclui ele, porque seu ofício é lembrar o que outros esquecem.23 Além disso, é comum encontrar nas salas de aula, quando abordamos este tema, dúvidas sobre como uma pessoa é capaz de cometer semelhante barbárie com outro ser humano. Muitos dos jovens acreditam que todo aquele ódio é algo distante da realidade deles, mas se esquecem de que o ódio extremo se inicia com intolerância e preconceito presentes em toda e qualquer cultura. Uma experiência que serviu de base para um filme tentou mostrar esta realidade.24
I. O ANTISSEMITISMO ATÉ O SÉCULO XIX
O grande filósofo Jean Paul Sartre chegou a afirmar que “se o judeu não existisse, o antissemita inventá-lo-ia.”25 Parece uma boa conclusão quando descobrimos, em diferentes épocas, locais onde não existem judeus e mesmo assim pode-se notar traços de antissemitismo na sociedade.26
Alguns podem dizer genericamente que se trata de um caso típico de “bode expiatório”. Nesta expressão, está presente a ideia de que uma pessoa ou grupo é culpabilizado por algo, sendo alvo de múltiplas emoções - como a raiva e o medo – que poderiam prejudicar a coesão social se não fossem expiadas nestes indivíduos.27 No entanto, esta teoria é duramente atacada por Hannah Arendt. Utilizar esta expressão para explicar a perseguição aos judeus é esconder a seriedade do antissemitismo e as causas que colocaram este povo no centro destes eventos. Afinal de contas, pergunta a autora, isso “não significa que o bode expiatório poderia ser qualquer outro grupo?”28 Por que os judeus?
Antes de continuar, é importante mencionar que a palavra “antissemitismo” contém um erro grave. A palavra “semita” ou “semítico” diz respeito à língua, excluindo-se a etnia ou a religião. Além do hebraico, o árabe, por exemplo, também é semita. Foi o uso do termo que tradicionalmente foi sendo relacionado somente aos judeus. Somente na segunda metade do século XIX que surgiu esta nomenclatura. O alemão Wilhelm Marr queria usar uma palavra que diferenciasse o antijudaísmo de sua época do precedente. Desta distinção trataremos mais adiante. Por ora, veremos como a manifestação do antissemitismo precedeu e muito o surgimento da palavra.29
A origem deste sentimento em relação aos judeus é bem antiga. Para Yehuda Bauer, professor da Universidade de Jerusalém, esta perseguição tem raízes culturais. Alguns princípios do judaísmo como a igualdade e as críticas à escravidão e à autoridade fizeram deste povo um perigo na Mesopotâmia, Egito, Grécia e Roma, que não poderiam tolerar tais idéias, completamente contrárias às bases de suas sociedades.30 Além disso, os judeus incomodavam pela sua cultura de não assimilação. Para muitos, esta última atitude era, na verdade, uma resposta aos ataques e não uma característica intrínseca do povo judeu.31
Na Diáspora da época Romana o judeu espalhou consigo o antijudaísmo, carregado de dois aspectos – ser diferente e ter outra religião.32 Antes mesmo de o Cristianismo se tornar a religião oficial do Império, vários escritos da Igreja já condenavam os judeus. Durante a Idade Média, eles recebiam as mais variadas descrições: “filhos do próprio diabo”, “um povo ímpio e insociável”, “não inventaram nada de útil na vida”, “não produziram nem homens notáveis nem sábios ilustres”, “tentaram corromper os costumes”, “exalam mau cheiro”, “uma nação perniciosa às outras”, “para eles é profano tudo aquilo que é sagrado para nós”, “desordeiros e sediciosos”, “têm chifres, orelha de porco, barba de bode, rabo e soltam um odor mefítico” “pestes do universo”, “inimigos de Deus”, “rebeldes”, “raça de víboras”, “delatores”, “caluniadores”, “fermento farisaico”, “malditos execráveis”, “apedrejadores”, “inimigos de tudo o que é belo”, “corrompidos, devassos e cúpidos”. As sinagogas eram vistas como “um antro de bandidos, a sede dos demônios e da idolatria” e suas preces são comparadas ao grunhido de porcos e ao zurrar dos asnos.33
O antissemitismo da população era baseado em idéias como o deicidio34, a profanação da hóstia sagrada35 e aos supostos rituais macabros36 realizados pelos judeus. Em diversos lugares eles eram marcados, seja por uma mancha, um chapéu, através de um sino ou uma cor específica de roupa.37 Aos poucos foram surgindo os guetos, na mesma época em que os judeus começaram a sofrer com os ataques de cristãos – os chamados pogroms38. Este isolamento acabou por reforçar o que mais caracterizava os judeus, oportunizando a manutenção da cultura judaica e dos laços de união diante de um agressor externo.
Mesmo sabendo que a base religiosa era fundamental para a perseguição aos judeus na Idade Média, não podemos deixar de mencionar outros. Proibidos de possuírem terras, aos judeus só restaram o comércio e o crédito. Soma-se a isso o fato de que a usura era considerado um pecado pela Igreja Católica e proibido aos cristãos. Aos poucos a associação dos judeus com o dinheiro tornou-se muito forte, a tal ponto que a imagem do “judeu avarento” ser uma das mais presentes até os nossos dias.39
Não importa qual seja o argumento, a origem é a mesma. Era chamado de revolucionário ou reacionário, comunista ou capitalista, acusado de ser isolacionista ou querer se misturar. Segundo Paulo Geiger40, “os motivos são alegações, racionalizações e explicações de um preconceito necessário.” Os judeus, na expressão utilizada por Anna Zuk, eram uma “classe móvel”: podia ser percebida como inferior para as elites e, ao mesmo tempo, esnobe para as classes baixas.41
Passando da Idade Média para a Moderna, não pensemos que a Reforma Protestante aliviou a situação dos judeus. Dois dos ícones deste evento, Lutero e Calvino, possuem escritos reveladores que transbordam antissemitismo. O primeiro, em sua obra “Sobre os judeus e suas mentiras” orientava seus fiéis a queimarem sinagogas, além de escrever que “eles são filhos do diabo, condenados às chamas do inferno.”42 Já Calvino dizia que “os judeus estupidamente devoram todas as riquezas da terra com sua cupidez desenfreada.”43
Nem mesmo um movimento que inspiraria a emancipação dos judeus tempos depois deixou de ter seus textos antissemitas. Um dos maiores nomes iluministas, Voltaire, teria afirmado em um artigo “Juifs”, no Dictionnaire Philosophique: “Em suma, consideramo-los apenas um povo bárbaro e ignorante, que há muito uniu a mais sórdida avareza a mais detestável superstição e ao ódio mais invencível pelos povos que os toleram e os enriquecem. Devíamos ainda simplesmente queimá-los.”44
Percebemos que no decorrer da sua história o judeu foi sempre o diferente. E é justamente esta diferenciação que provocava a discriminação, pois o preconceito não ocorre com alguém semelhante ao preconceituoso. Neste aspecto, argumentaria a psicanálise, o antissemitismo é antes de tudo um fenômeno psicológico, que só depois se torna social.45
Por fim, há uma corrente que enxerga com outros olhos a história das perseguições aos judeus. Para esses autores não existe um antissemitismo. Pelo contrário, são os judeus que sempre quiseram se isolar pelo mundo, inclusive praticando uma espécie de eugenia46, para se defenderem da competição com os não judeus. O que alguns chamam de antissemitismo nada mais seria do que uma reação natural, algo como um “contra-ataque” do mundo diante desta atitude. A culpa do antissemitismo seria, portanto, dos próprios judeus.47
II. O “ANTISSEMITISMO RACIAL”
Os ideais da Revolução Francesa exportaram a “necessidade” de igualar juridicamente todos os cidadãos. Neste embalo, o século XIX foi o momento em que os judeus saíram dos guetos e iniciaram um processo de emancipação, sendo inseridos civilmente na sociedade, com os mesmos direitos e deveres dos demais cidadãos.
No início, alguns judeus não comemoraram esta emancipação. O direito ao voto e ao serviço militar implicaria também o abandono ao seu estilo de vida, com seus velhos controles comunitários.48 Com o passar do tempo, se acostumaram e houve uma aculturação.No entanto, mesmo que tivessem deixado de ser parias políticos e civis, os judeus continuavam sendo parias sociais.49
No século do cientificismo, as teorias raciais viriam para fornecer uma nova (sem excluir as outras) justificativa para o antissemitismo. Ou seja, a assimilação dos judeus nas sociedades europeias supostamente os colocaram em situação de igualdade. Era preciso, portanto, diferenciá-los de modo permanente.50 Explode a noção do judeu como uma raça degenerada e que deve ser separada e até destruída do convívio com as demais, sob a grave possibilidade de contaminá-las. Os judeus fizeram uma conversão de “forasteiros religiosos” a “forasteiros étnicos”51
No contexto alemão, as teorias raciais eram somadas às “descobertas” do passado glorioso e o resgate dos arianos. O que se seguiu, nas palavras de Leon Poliakov, foi um verdadeiro “maquineísmo racial” entre estes últimos e os semitas.52
O nazismo não tirou suas idéias do vazio. Cientistas buscam classificar os seres humanos em raças desde o final do século XVII. Cerca de um século depois, um médico alemão, Johann Friedrich Blumenbach, encontrou 5 grupos humanos. No século XIX, sob influência ou não de Darwin53, vários estudiosos encontraram 3, 4, 7, 11 ou 12 raças. No século XX, etnólogos corrigiam esta informação e diziam ser 29. Outros chegaram a incrível marca de 38 raças.54
Uma das maiores influências, neste sentido, para o pensamento de Hitler foi Chamberlain, para quem a história da humanidade é a da luta entre as raças. Os arianos, dizia ele, são os únicos com a capacidade de dominar o mundo. No entanto, os judeus aos poucos teriam corrompido o sangue dos arianos. Não havia remédio melhor do que eliminar o contato entre os dois. Somente assim a raça ariana poderia restaurar a sua força de “homens deuses”55
Outro nome importante foi Gobineau, defendendo que as raças brancas, sobretudo os arianos, estão na origem das grandes civilizações. De forma parecida com Chamberlain, dizia que a miscigenação levava à degeneração racial.56 Porém, diferente dele, não execrava os judeus. No seu “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas” (1853-55), Gobineau fazia referência a eles como “um povo livre, um povo forte, um povo inteligente (...) que (...) fornecera ao mundo quase igual número de doutores que de mercadores.”57
Para concluir a galeria dos cientistas, abrimos espaço para Francis Galton. Mergulhado na ideia de darwinismo social, este pesquisador defendia a política de casamentos seletivos como meio de “melhorar” a humanidade. Galton criou um termo, em 1883, para designar esta nova área da ciência: eugenia (bem nascer).58 O pressuposto aqui era que o fator fundamental para determinar as qualidades humanas, como a inteligência, seria a herança genética. O que veremos no nazismo é a adaptação desta chamada “eugenia positiva” – orientando a reprodução – para uma “eugenia negativa” – exterminando os considerados “geneticamente incapazes”.59 Na Alemanha, esta ciência recebeu o nome de “higiene da raça”.60
Além destes cientistas mais famosos, encontramos na academia uma preocupação intensa em estudar o povo judeu. Na segunda metade do século XIX, Gustave Le Bom, em uma revista científica, dizia que “entre seus sentimentos, suas idéias e os dos povos arianos, existem verdadeiros abismos.”. Em outro trabalho, uma tese de doutorado, o doutor Henry Meige fala sobre o “judeu errante” como uma “patologia nervosa”, evidentemente como “uma característica de sua raça.”61
Ainda como consequência da emancipação, multiplicaram-se casos de pogroms pela Europa, sobretudo na parte oriental. Na Rússia, o próprio governo incitava o antissemitismo. No início do século XX, patrocinado pelo czar Nicolau II, foi amplamente divulgado um suposto plano de dominação do mundo pelos judeus – O Protocolo dos Sábios de Sião. Antes disso, o procurador do Santo Sínodo teria dito: “que 1/3 dos judeus emigrem, 1/3 se converta ao cristianismo, e 1/3 morra.” Já um ministro prometera que deixaria “a situação na Rússia tão intolerável que os judeus serão forçados a emigrarem até o último homem.” Em momentos de crise estouravam-se dezenas, até centenas de ataques a judeus. Somente no ano de 1905, quando o país foi derrotado na guerra contra o Japão, foram 690 pogroms.62
Mesmo na parte ocidental da Europa surgiam associações antissemitas e era raro algum partido político não colocar a questão judaica na sua plataforma.63 Declarar-se inimigo dos judeus era uma forma de conquistar seguidores.64 Um estudo mostrou que de 51 escritores alemães antissemitas, entre 1861 e 1895, 19 deles admitiam o extermínio físico dos judeus.65 Neste último país, nas décadas de 1870 e 1880, mais de 500 escritos e livros antissemitas foram publicados.66 Na França, justamente onde um século revolucionários clamavam por igualdade, a ralé gritava “morte aos judeus”. Obras preconceituosas como “A França judaica”, de Marpon e Flamarion eram até best-sellers.67 Um caso ganhou repercussão e expôs ao mundo o tamanho do preconceito com os judeus neste país. O capitão Alfred Dreyfus foi acusado e condenado por espionagem. Tempos depois ficou provado o erro e o capitão foi considerado inocente. Não obstante, a população, pelo fato de Dreyfus ser judeu, continuou a considerá-lo um traidor.68
Por último, Bauman não nos deixa esquecer que “numa época de nacionalismos exacerbados, o judeu era uma nação sem nacionalidade, um estrangeiro em seus países, porém diferentes dos outros – um ‘inimigo interno’”. Num século que se exalava nacionalismo, os judeus eram o “vazio nacional”.69
Neste contexto, o sionismo surge, então, como uma resposta. Este movimento é baseado em preceitos teológicos, a posse da Terra Prometida, e é retomado em seu aspecto político social, como defesa diante dos ataques antissemitas e como desejo de viver em um lugar em que os judeus tivessem voz e comando.70
Mesmo que não fosse um movimento significativo, se considerarmos a totalidade da comunidade judaica na Europa, o sionismo influenciou, em parte, milhares de judeus começarem a migrar para a Palestina durante a segunda metade do século XIX.71
III. O NAZISMO E O PROCESSO DE DESUMANIZAÇÃO DOS JUDEUS
A tarefa de analisar as características do regime nazista está muito além do que este curto espaço permite. No entanto, parece essencial que alguns aspectos deste período da história alemã sejam apontados para contextualizar o nosso objeto.
O nazismo é visto como a versão alemã do fascismo e incluído na tipologia de governo denominado totalitário, visto que se caracterizou como um regime que controlava os aspectos público e privado da sociedade, extrapolando a autoridade legítima de um Estado.72 O ambiente que o gestou foi peculiar: um governo democrático frágil, polarização entre a esquerda e a direita nacionalista, crise econômica e, por fim, a figura de um líder incorporando os símbolos nacionais.
Muitos autores argumentam que uma das chaves do êxito, neste momento, do nazismo foi transformar um contexto completamente desanimador em trampolim para a construção de um mito da grandeza da nação. Ao forjar o Volks alemão - uma unidade cultural e sobretudo da raça ariana – este movimento mascarou os conflitos internos e fez o país acreditar que faria parte de um Império de mil anos – o III Reich.73
Uma boa parte do ideário nazista consistia no culto à personalidade do Füher. As referências que se fazia a Hitler passavam por “um líder sábio e onisciente.”, “gênio” e chegava ao ponto de ser descrito como “um novo e mais poderoso Jesus Cristo” ou “o verdadeiro Espírito Santo”. Ele próprio se considerava um salvador. Algumas mulheres escreviam pedindo para ter a honra de ter um filho dele.74 Já na década de 1930, por onde passava Hitler era acompanhado por uma multidão.75 O encontro com o Füher era uma experiência impactante para muitos. Um alto magistrado alemão, diante do carisma daquele pequeno austríaco, confessou: “Sobreveio, então, o grande arrepio de satisfação. Fitei-o nos olhos, ele fitou os meus e depois disto só tive um desejo, voltar para a minha casa, a fim de ficar só com aquela imensa impressão que me esmagava.”76 Não foram poucos os que entraram no NSDAP deslumbrados pela figura de Hitler.77
Não obstante, qualquer menção sobre o nazismo que não leve em conta no seu cerne a questão racial se configura como incompleta. Para Hitler, este assunto não estava na pauta e sim era o grande objetivo. A fonte mais extensa sobre o ideário do Füher é o famoso Mein Kampf (Minha Luta), escrito em meados dos anos 1920, quando ele esteve preso após uma tentativa de golpe fracassada. A leitura atenta desta obra, somado às inúmeras manifestações de Hitler ao longo de sua vida, revelam que o seu antissemitismo era obsessivo.78
Os judeus passaram por um processo longo de assassinato. Na visão de Georges Bensoussan, antes mesmo da morte física, o nazismo primeiramente forçou os judeus a uma “morte civil”, excluindo-os de funções públicas e dos meios culturais. Em seguida, com as Leis de Nuremberg79, segregou os judeus dos “verdadeiros” alemães, foi a “morte política”. E depois, ainda imprimiu uma série de medidas que levaram à ruína os negócios e os empregos daquele povo, configurando uma “morte econômica”.80 E não podemos esquecer que estes objetivos eram abertamente divulgados. Quem apoiou o nazismo devia saber que esta posição também implicava a exclusão dos judeus. Já em 1920, quando foi escrito o programa do partido, o item de número 4 dizia que “somente os membros do povo podem ser cidadãos do Estado. Só pode ser membro do povo aquele que possui sangue alemão (...) nenhum judeu, portanto, pode ser membro do povo.”81 Uma intensa operação de propaganda antissemita foi desencadeada após a ascensão do nazismo. Jornais, livros (inclusive infantis),revistas e o cinema foram utilizados para reforçar a imagem negativa dos judeus. O aparato educacional foi direcionado para multiplicar esta rejeição.82
A luta contra o judaísmo ganhou contornos apocalípticos, uma batalha entre o bem e o mal. Hitler via o Diabo com um trejeito judeu e dizia que Cristo, ariano para os nazistas, foi o primeiro antissemita.83 Para o Füher, lutar contra o judaísmo era realizar obra de Deus.84
Apesar desta conotação religiosa, a questão racial, na expressão utilizada por Richard Overy, ganhou status de “biologia política”, sendo necessário limpar o corpo da nação alemã das ameaças biológicas.85 Os nazistas se transformaram em verdadeiros “soldados biológicos”. 86 Este foi o caminho que levou à desumanização dos judeus.
Ao utilizar uma linguagem médica para justificar o ódio aos judeus, o nazismo pegava emprestado algumas noções da eugenia e conferia um caráter científico à questão judaica. A sociedade alemã era vista como o corpo e como tal sujeito à vários tipos de doenças. Para manter este organismo saudável era preciso eliminar o perigo do contágio diante de “parasitas”, “bacilos”, “vermes”, “tumores cancerosos”, “bactérias” etc. Nenhum grupo foi tão identificado com estes nomes do que os judeus.87 Nas palavras de Saul Friedlaender, “a identificação do judeu com a contaminação representou o móvel autêntico e fundamental para sua aniquilação.”88 Não havia escolha: era preciso eliminá-los, pois como bem observou Bauman, mesmo fora da Alemanha “os judeus continuariam a produzir erosão e desintegração da lógica natural do universo.89
Para Hitler, o grande papel do Estado era a sua conservação racial.90 O judaísmo é visto como “fermento de decomposição dos povos e raças e, em sentido mais vasto, de ruína da cultura humana.”91 No Mein Kampf, são inúmeras as referências ao judeu como seres desprovidos de humanidade. Seguindo a analogia com o corpo, ele diz: “quem abrisse o tumor haveria de encontrar, protegido contra as surpresas da luz, algum judeuzinho. Isso é tão fatal como a existência de vermes nos corpos putrefatos.” Em seguida, os judeus são culpados pela Peste Negra medieval e visto como seres “portadores de bacilos da pior espécie”. Mais adiante, Hitler avança nesta visão ao dizer que o judeu “é e será sempre o parasita típico, um bicho, que, tal como um micróbio nocivo, se propaga cada vez mais, assim que se encontra em condições propícias (...) o povo, que o hospeda, vai se exterminando mais ou menos rapidamente.” Ainda podemos ver outras referências como “uma verdadeira sanguessuga” e “piolheira judaica” nesta obra que se tornou um manual para os nazistas.92 Já durante a Segunda Guerra, o Füher afirmou que “o combate que travamos é da mesma natureza que o combate travado no século passado por Pasteur e por Koch.”93
A noção de higiene racial não era difundida apenas pelo líder nazista. Vários outros membros importantes também faziam referência à necessidade da Alemanha fazer um favor ao mundo, como diria o Ministro da Propaganda Goebbels: “Nossa tarefa aqui é cirúrgica, incisões drásticas, senão algum dia a Europa perecerá da doença judia.”94 Em outra oportunidade ele disse: “não podemos tolerar as bactérias, os vermes e a peste. O asseio e a higiene nos obrigam a torná-los inofensivos, exterminando-os.”95 Pode-se até pensar que tais textos fazem parte da manipulação nazista. Mas os mesmos argumentos eram expostos no âmbito pessoal e não somente nos discursos públicos. O mesmo ministro fez registro em seus diários lembrando dos judeus como “eczema peçonhento no corpo de nossa nação enferma” e afirmou: “os judeus podem nos destruir se nós não nos defendermos contra eles. É uma luta de vida ou morte entre a raça ariana e o bacilo judeu.”96
Outro ministro de Hitler, Himmler, teria dito que o antissemitismo é a mesma coisa que a eliminação de piolhos, desembaraçar-se das pulgas não é uma questão de filosofia, é uma questão de higiene.”97
Talvez o mais radical dentre os oficiais nazistas tenha sido Julius Streicher, que publicava o jornal antissemita “Der Stümer” e escreveu o famoso livro infantil “O Cogumelo venenoso” (o judeu, evidentemente, era o personagem principal da obra). Ele dizia que “um único coito de um judeu e de uma ariana basta para envenenar o sangue desta.” Proibições como a de aceitar leite de mães judias ou compartilhar fontes de água, até mesmo para tomar banho numa piscina, demonstravam o medo que se possuía de uma contaminação. Chegou-se à situações no mínimo bizarras, como de uma resolução na Baviera que proibia o cruzamento com gados comprados de judeus afim de evitar uma epidemia.98
O próprio Zyclon B, utilizado nas câmaras de gás, era um produto fabricado para matar insetos parasitas. Este processo de desumanização dos judeus explica, em parte, a ausência de bloqueios morais e éticos na utilização destes indivíduos como ratos de laboratório em experiências bizarras. Uma passagem do depoimento de Rudolf Höss, comandante de Auschwitz, durante o Tribunal de Nuremberg99, é salutar para compreendermos como funcionava a moral do nazista. Se defendendo da acusação de furtar pertences dos judeus que entravam naquele campo, Höss afirmou: “Mas isso teria sido contra os meus princípios (...) não teria sido honesto.”100 Claro! Assassino de judeus com muito orgulho, mas ladrão não, aí já é demais.
Retirar a humanidade dos judeus foi uma das tarefas fundamentais para o projeto de morte sistemática deste povo. E, ao que tudo parece, os nazistas tiveram sucesso nesta operação. Relatos de sobreviventes mostram como foi dura esta realidade. Uma delas, que não passou pelos Campos101, escreveu em suas memórias: “Durante a guerra aprendi uma verdade que geralmente preferimos não enunciar: que a coisa mais brutal da crueldade é que ela desumaniza suas vítimas antes de destruí-las. E que a luta mais árdua de todas é permanecer humano em condições desumanas.”102
Em Auschwitz, os prisioneiros se transformavam em números, que eram tatuados em seus braços de modo semelhante ao que se faz com o gado. Militares alemães se referiam aos judeus como peças. Primo Levi, químico e judeu italiano, que passou por este campo e deixou obras memoráveis de suas experiências, conta a história de um Kapo103 que foi repreendido quando se referiu aos prisioneiros como “homens”. Ele conta ainda que no Campo, “alimentar-se” se indicava com a palavra fressen, verbo que em bom alemão só se aplica aos animais. Levi continua falando que todas as humilhações (falta de higiene, nudez, alimentação) por quais eles passavam, mesmo que indiretamente os transformavam em bichos. 104
CONCLUSÃO
O final desta história todos já conhecem. O Holocausto ceifou a vida de cerca de seis milhões de judeus, representando 65% da população judaica na Europa e 30% do mundo.105 Alguns discordam do cálculo, exigindo o rigor dos gélidos números. Será que importa alguma coisa dizer que em vez de seis foram quatro milhões? Parece uma discussão sem sentido, que não leva a lugar algum.
O que parece importante é, por exemplo, compreender como é possível uma pessoa superar todo este sofrimento e retomar a vida que foi, boa parte dela, mutilada nos Campos. Os efeitos psicológicos nos sobreviventes não entram nas estatísticas dos revisionistas, mas as palavras de Primo Levi revelam uma dura realidade: “Quem sofreu o tormento não poderá mais ambientar-se no mundo, a miséria do aniquilamento jamais se extingue. A confiança na humanidade, já abalada pelo primeiro tapa no rosto, demolida posteriormente pela tortura, não se readquire mais.”106
Em uma época em que o neonazismo é uma triste realidade, quando temos jovens desenhando a suástica sem ter a mínima noção do que ela representou para o mundo, urge uma reflexão: será que lembramos o suficiente? Para responder recorro a Bauman, que faz uma crítica fundamental da nossa sociedade. Ficaríamos felizes se pudéssemos provar que o Holocausto foi orquestrado por maníacos assassinos, ou ainda se pudermos continuar considerando a Shoah como um evento dos alemães e dos judeus. Diferente disso, este evento tem muito a dizer sobre a nossa sociedade, foi ela que permitiu o Holocausto, esta mesma coletividade moderna, civilizada e racional. Fugir disto é uma espécie de “autocura” da sociedade.107
Não foi nossa intenção neste trabalho afirmar que o antissemitismo explica, por si só, o Holocausto. Aliás, deixamos claro desde o início a dificuldade em tratar deste tema. Antes, consideramos que o antissemitismo e o processo de desumanização dos judeus foi um dos fatores que nos fazem compreendê-lo. Aquela tentativa de esclarecimento que, ao nosso ver, chega mais perto da realidade é a defendida por Sarah Gordon. Esta autora apresenta uma soma de fatores: a) um antissemitismo radical; b) um estado Totalitário que tivesse como ideário este ódio aos judeus; c) um aparato burocrático impecável para executar os desejos deste estado; d) uma situação de emergência, como de fato a Segunda Guerra proporcionou; e) adesão ou indiferença da população em relação ao extermínio.108 Esta seria, apesar de não gostar desta expressão, a “fórmula” do Holocausto.
No início deste estudo, fiz referência a um sobrevivente que teria me inspirado na escolha deste tema. Trata-se de Aleksander Laks, um judeu que faz questão de dizer que é brasileiro, apesar de “por acaso” ter nascido na Polônia. Em seu livro109, ele conta a sua história e deixa algumas lições. Uma delas não está no corpo do texto, mas pode ser lida para quem pede uma dedicatória, como este que vos escreve. É com ela que encerro, na torcida de ter contribuído, mesmo que de forma minúscula, para o desejo de Laks.
Espero que o meu passado não seja o futuro de ninguém
REFERÊNCIAS
1 Bacharel e licenciado em História; Especialista em História Contemporânea.
2 Referimos-nos aos revisionistas ou negacionistas, de quem falaremos mais adiante.
3 Shoah, palavra hebraica que significa “destruição, ruína, catástrofe”, é como os judeus preferem se referir ao Holocausto, já que esta última expressão, de origem grega, significa “sacrifício a Deus”, o que levaria a uma interpretação específica sobre este evento. Paul Celan não usava nenhuma das duas palavras, preferindo a expressão “was geschah” (“aquilo que aconteceu”). Ver CAVALCANTI, Ania. O universo concentracionário nazista de 1933 a 1945 e a implementação da “Solução Final” da Questão Judaica, 1941-1945. Aula do curso "Panorama Histórico do Holocausto", USP, agosto de 2008. Disponível em:
4 BLOCH, Marc. Apologia da História ou ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001, p.125-128.
5 ROSENFIELD, Denis. O Mal e a Razão. In: FUKS, Saul (org.). Tribunal da História: julgando as controvérsias da história judaica. Rio de Janeiro: Relume: Centro de História e Cultura Judaica, 2005, pp. 210-211.
6 LESSA, Renato. Pensar a Shoáh. In: FUKS, Saul (org.). Op. Cit., p. 229. O documentário dirigido por Lanzmann, com mais de 9 horas de duração, é o Shoah (1985).
7 CYTRYNOWICZ, Roney. As formas de lembrar e a história do Holocausto. In: MILMAN, Luis; VIZENTINI, Paulo Fagundes (orgs). Neonazismo, Negacionismo e Extremismo Político. Porto Alegre: Editora da Universidade – UFRGS, 2000. Disponível em:
8 Apud HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos. O breve século XX: 1914-1991. Companhia das Letras. São Paulo, 1995, p. 113.
9 CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e políticas no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006, pp. 181-182.
10 Apud CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Holocausto: História e Memória, p. 28; In Nunca Mais – educando para a cidadania e a democracia. 1ª jornada interdisciplinar Intolerância e Holocausto: como estudar e ensinar. Rio de Janeiro. Secretaria do Estado do Rio de Janeiro, 2010.
11 FONTETTE, François de. História do Antissemitismo. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1989. A lei rabínica tradicional entende como judeu aquele que é nascido de mãe judaica ou convertido legitimamente ao judaísmo. Vide BARON, Salo W.. História e Historiografia do povo judeu. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974, p. 121.
12 O eufemismo “Solução Final” teria sido a decisão tomada na Conferência de Wannsee (janeiro de 1942) determinando o extermínio em massa de todos os judeus presentes nos territórios ocupados pela Alemanha. Ver FONTETTE, François de. Op. Cit., p. 108.
13 Chamaremos de nazistas, no nosso estudo, apenas os membros do partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP).
14 No estudo “The Holocaust and the Crisis”, Apud BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Jorge Zahar. Rio de Janeiro, 1998, pp.38/39.
15 Ficou conhecido, junto com outras pessoas, como “caçador de nazistas”, procurando e juntando provas para levar os executores do Holocausto para a justiça. Escreveu trabalhos sobre as crianças no Holocausto.
16 Apud CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Op. Cit.
17 HILBERG, Raul. The Destruction of the European Jews.
18 Apud BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., p.81.
19 BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit.
20 Sobre a distinção entre historiadores intencionalistas e funcionalistas, ver BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., p. 129.
21 Apud BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., p. 23.
22 Sobre a primeira experiência, ver Stanley MILGRAN. The Individual in a Social World. Quanto à segunda, ver Curtis Banks & Philip Zimbardo. Interpersonal Dynamics in a Simulated Prision. Ambos em BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., pp. 181-190; 194-195.
23 Além dos prisioneiros de guerra, ciganos, Testemunhas de Jeová, homossexuais, doentes mentais e físicos estão presentes na lista dos que foram mortos pelo governo nazista. Os revisionistas ou negacionistas possuem uma grande aceitação entre os neonazistas e os “inimigos de Israel”, como alguns países islâmicos. A internet é o principal veículo de divulgação dessas ideias no Ocidente, já que em muitos países a legislação proíbe este tipo de conteúdo, geralmente antissemita. Uma obra completa para este tema é MILMAN, Luis; VIZENTINI, Paulo Fagundes (orgs). Op. Cit. Sobre as críticas de um suposto uso político e econômico do Holocausto, ver FINKELSTEIN, N.G.. A Indústria do Holocausto. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 2001. Disponível em
24 HOBSBAWN, Eric. Op. Cit., p. 13.
25 "A Onda" [ The wave] – Dur.: 45 minutos – Direção: Alex Grasshof - País: EUA - Ano: 1981
26 SARTRE, Jean Paul. Reflexões sobre o racismo. Rio de Janeiro: Difel, 1979, p. 8.
27 NOVINSKY, Anita. O racismo e a questão judaica. In Lilian.K.M. Schwarcz e R.S.Queiroz (org.) Raça e Diversidade. São Paulo, Edusp/Estação Ciência, 1996. Disponível em:
28 JOHNSON, Allan G. Dicionário de Sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, p. 27.
29 ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: Anti-semitismo, instrumento de poder. Rio de janeiro: Documentário, 1975, pp. 24 e 26.
30 FONTETTE, François de. Op. Cit. pp. 9-10.
31 Apud NOVINSKY, Anita. Op. Cit.
32 SARTRE, Jean Paul. Op. Cit., p. 58.
33 Ver GEIGER, Paulo. Antissemitismo. In: Nunca Mais. Educando para a cidadania e a democracia. Op. Cit.
34 FONTETTE, François de. Op. Cit., p. 21; 24; 30-31.
35 Acusação pela morte de Jesus. Muitos usam como base a passagem de Mateus 27,25: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos”, teria dito o povo judeu após “condenar” Jesus e absolver Barrabás.
36 Dizia-se que os judeus, por exemplo, chicoteavam a hóstia, até que ela sangrasse (sic).
37 O sumiço de crianças num povoado era logo “solucionado” com a acusação de que os pequenos eram sacrificados em rituais religiosos pelos judeus.
38 MARGULIES, Marcos. Do racismo ao Sionismo: uma análise conceitual. Rio de Janeiro: Editora Documentário, 1976, pp. 69-70.
39 Palavra de origem russa que define um organizado, embora aparentemente espontâneo, ataque de multidão à determinada coletividade judaica, com saques, violência e massacre. Ver ARENDT, Hannah. Op. Cit., p. 106.
40 A imagem que surgiu na Idade Média pelos motivos expostos não teria o porquê de se manter até hoje. No entanto, a tradição criou o estereótipo, que se torna mais forte do que o objeto real. Vide GEIGER, Paulo. Op. Cit, p. 43.
41 Idem Ibidem, p. 45.
42 A conclusão de Anna Zuk, da Universidade de Lublin, se baseia no estudo da sociedade polonesa do século XVIII. Apud BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., pp. 62-63.
43 ZAGNI, Rodrigo Medina. As Profundezas do Intangível: Relações entre o antissemitismo religioso e o antissemitismo "científico" na justificativa nazista para a Shoah. Aula inaugural do curso "Panorama Histórico do Holocausto", USP, 02/08/2008. Disponível em:
44 BARON, Salo W. Op. Cit., p. 62.
45 Idem Ibidem, p. 137.
46 Afirmativa baseada em BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., p. 43. Por sua vez, o autor citado menciona uma obra chamada “Distúrbios sociais e antissemitismo”, de AKERMAN E JAHODA.
47 Uma referência à tradição de casamentos entre judeus.
48 Um dos defensores desta ideia é o psicólogo Kevin McDonald, nas obras “Um povo que habita sozinho” e na monografia “ Compreendendo a influência judaica”. Apud BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., pp. 40-41.
49 BARON, Salo W. Op. Cit., p. 130.
50 ARENDT, Hannah. Op. Cit. p. 95.
51 BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., pp. 79-80.
52 MAGNOLI, Demétrio. Uma gota de sangue: história do pensamento racial. São Paulo: Contexto, 2009, p. 36.
53 POLIAKOV, Leon. O Mito Ariano. São Paulo: Perspectiva, 1974, p.260.
54 O próprio Darwin colocava em dúvidas a uniformidade racial tanto dos arianos como dos semitas. Idem Ibidem, p. 242.
55 MAGNOLI, Demétrio. Op. Cit., p. 21.
56 ZAGNI, Rodrigo Medina. Op. Cit.
57 MAGNOLI, Demétrio. Op. Cit., p.24.
58 FONTETTE, François de. Op. Cit., pp.72-73.
59 GUERRA, Andréa Trevas Maciel. Do holocausto nazista à nova eugenia no século XXI. Cienc. Cult., jan./mar. 2006, vol.58, no.1, p.4-5. ISSN 0009-6725. Disponível em:
60 LEWIN, Helena. A eugenia a serviço do antissemitismo: o caso Brasil. In: LEWIN, Helena (coord.) Judaísmo e globalização: espaços e temporalidades. Rio de Janeiro: 7 letras, 2010, pp.351-352.
61 POLIAKOV, Leon. Op. Cit., p.288.
62 Apud Idem Ibidem, pp.264; 275.
63 MARGULIES, Marcos. Op. Cit., p. 80.
64 ARENDT, Hannah. Op. Cit. pp.121;65-66.
65 CARNEIRO. Maria Luiza Tucci. Holocausto: crime contra a humanidade. São Paulo: Editora Ática, 2007, p.20.
66 Trata-se do estudo feito por Klemens Felden e citado por CARNEIRO. Maria Luiza Tucci. Op. Cit., p.18.
67 Idem Ibidem.
68 Esta obra chegou a ter 114 edições em 1 ano. Ver FONTETTE, François de. Op. Cit., p.75.
69 Para uma descrição completa do processo Dreyfus, ver ARENDT, Hannah. Op. Cit. Capítulo 4.
70 BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., pp. 73-74.
71 O Sionismo não era algo homogêneo, existindo várias nuances que permanecem até hoje. Ver MARGULIES, Marcos. Op. Cit., pp. 92-121. No século XIX, o sionismo é basicamente secular. Ver ARMSTRONG, Karen. Jerusalém: uma cidade, três religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p.416.
72 Já na década de 1880, quando Nathan Birnbaim usa pela primeira vez o termo “sionismo” e dois anos depois acontece o Primeiro Congresso Sionista, estima-se que havia de 10 a 24 mil judeus na Palestina. Ver SMITH, Dan. O atlas do Oriente Médio: conflitos e soluções. São Paulo: Publifolha, 2008, p. 36.
73 Interpretação baseada em JOHNSON, Allan G. Op. Cit., p.25.
74 KONDER, Leandro. Introdução ao Fascismo. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1977, p. 11.
75 Informações retiradas de STACKELBERG, Roderic. A Alemanha de Hitler. Origens, interpretações, legados. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2002, p. 201; DAVIDSON, Eugene. A Alemanha no banco dos réus. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970, p.396; OVERY, Richard. Os Ditadores: a Rússia de Stalin e a Alemanha de Hitler. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009, pp.44,138,147.
76 Certa vez, disse ao colega e ministro Speer: “Até agora, só um alemão foi recebido assim antes de mim: Lutero.” Ver SPEER, Albert. Por dentro do III Reich: os anos de glória. Rio de Janeiro: Editora artenova, 1971, p. 66.
77 CARVALHO, Pedro Conceição. O Fascismo e o Nazismo. CIARI – Centro de Investigação e Análise em Relações Internacionais. Universidade Lusófona. 2007. Disponível em:
78 Albert Speer escreveu em seu livro: “Não escolhi o NSDAP e sim aproximei-me de Hitler, cuja figura me impressionou (...) Hitler apoderou-se de mim, antes de eu ter compreendido o alcance do seu movimento.” SPEER, Albert. Op. Cit., p. 21.
79 Fala-se em “teorias psicológicas” para explicar esta espécie de neurose de Hitler. Uma delas diz “que ele culpava o médico judeu de sua mãe por ela não conseguir se recuperar do câncer.” Evidentemente, por falta de fontes, seguimos ignorando esta hipótese. Vide STACKELBERG, Roderic. Op. Cit., p. 128.
80 Reunião de duas leis: “Lei de proteção do Sangue e da Honra alemã” e a “Lei de Cidadania do Reich”. Para uma visão completa das leis antissemitas no período nazista, ver SCHILLING, Voltaire. A política da morte do Nazismo. In: MILMAN, Luis; VIZENTINI, Paulo Fagundes (orgs). Op. Cit. Após o maior pogrom da Alemanha nazista – A Noite dos Cristais -, 3 homens que estupraram moças judias foram presos, não pela violência em si mas por ter se contaminado com a sub-raça judia. Vide OVERY, Richard. Op. Cit., p. 168.
81 BENSOUSSAN, Georges. História da Shoah. Biblioteca Virtual de literatura universal em galego, 2005. Disponível em:
82 MARQUES, Adhemar; BERUTTI, Flávio; FARIA, Ricardo. História Contemporânea através de textos. São Paulo: Contexto, 1994, p. 150.
83 No Brasil, o maior especialista desta propaganda audiovisual nazista é Wagner Pinheiro Pereira. Vide Nazismo: Política de massas e ideologia. In: Nunca Mais. Educando para a cidadania e a democracia. Op. Cit. e O Terceiro Reich em cena: história e memória audiovisual do nazismo e do Holocausto. In: LEWIN, Helena (coord.). Op. Cit.
84 Todas as ligações religiosas do nazismo foram brilhantemente estudadas em STEIGMANN-GALL, Richard. O Santo Reich: Concepções Nazistas do Cristianismo. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2004.
85 HITLER, Adolf. Minha Luta. São Paulo: Centauro, 2001, p. 53.
86 OVERY, Richard. Op. Cit., p. 194.
87 CYTRYNOWICZ, Roney. As formas de lembrar e a história do Holocausto. In: MILMAN, Luis; VIZENTINI, Paulo Fagundes (orgs). Neonazismo, Negacionismo e Extremismo Político. Porto Alegre: Editora da Universidade – UFRGS, 2000. Disponível em:
88 OVERY, Richard. Op. Cit., p. 262.
89 FRIEDLAENDER, Saul. O significado Histórico do Holocausto. In: Holocausto: um tema em debate. Análise Shalom. (n.3). São Paulo, Editora Shalom, 1979, p. 244.
90 BAUMAN, Zygmunt. Op. Cit., p. 90.
91 HITLER, Adolf. Op. Cit., pp. 75; 300; 307.
92 Idem Ibidem, p. 334.
93 O livro de Hitler de modo a torná-lo acessível a todos. Chegou a vender 9 milhões de exemplares e era distribuído aos alemães recém-casados. As referências citadas podem ser encontradas em Idem Ibidem, pp. 47-48; 226; 230; 297.
94 Apud POLIAKOV, Leon. Op. Cit., p. 305.
95 OVERY, Richard. Op. Cit., p. 263.
96 FONTETTE, François de. Op. Cit., p.84.
97 GOLDHAGEN, Erich. Pragmatismo, Função e Fé no anti-semitismo nazista. In: Holocausto: um tema em debate. Op. Cit., p. 230.
98 Apud Holocausto: um tema em debate. Op. Cit., pp. 25-26.
99 FONTETTE, François de. Op. Cit., pp.82; 91.
100 Após o fim da Segunda Guerra, um Tribunal Internacional se reuniu e julgou dezenas de nazistas e seus colaboradores. Recebeu este nome por se reunir na cidade alemã de Nuremberg.
101 OVERY, Richard. Op. Cit., p. 313.
102 Sempre utilizamos a palavra “Campo” como modelo genérico, uma vez que existiam inúmeros tipos. Uma especialista neste assunto é Ania Cavalcante. Vide Os Campos de Concentração – Konzentrationslager – KZ: fundamento do sistema nazista. In: Nunca Mais. Educando para a cidadania e a democracia. Op. Cit. e O universo concentracionário nazista de 1933 a 1945 e a implementação da “Solução Final” da Questão Judaica, Op. Cit.
103 BAUMAN, Janina. O Inverno na Manhã: uma jovem no gueto de Varsóvia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005, p. 8.
104 Prisioneiros que trabalhavam para os nazistas dentro dos Campos.
105 LEVI, Primo. É Isto um Homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988, pp. 14; 25; e, do mesmo autor, Os Afogados e os Sobreviventes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990, pp. 53-54; 58.
106 CAVALCANTI, Ania. O universo concentracionário nazista de 1933 a 1945 e a implementação da Solução Final” da Questão Judaica. Op. Cit.
107 LEVI, Primo. Os Afogados e os Sobreviventes. Op. Cit., p.10.
108 Idem Ibidem, pp.12; 16; 106.
109 Apud Idem Ibidem, p.118.
110 LAKS, Aleksander. O Sobrevivente. Rio de Janeiro: Record, 2000.
BIBLIOGRAFIA
- ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: Anti-semitismo, instrumento de poder. Rio de janeiro: Documentário, 1975.
- BARON, Salo W.. História e Historiografia do povo judeu. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974.
- BAUMAN, Janina. O Inverno na Manhã: uma jovem no gueto de Varsóvia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
- BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
- BENSOUSSAN, Georges. História da Shoah. Biblioteca Virtual de literatura universal em galego, 2005. Disponível em:
- BLOCH, Marc. Apologia da História ou ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
- CARNEIRO. Maria Luiza Tucci. Holocausto: crime contra a humanidade. São Paulo: Editora Ática, 2007.
- CARVALHO, José Murilo de. Forças Armadas e políticas no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.
- CARVALHO, Pedro Conceição. O Fascismo e o Nazismo. CIARI – Centro de Investigação e Análise em Relações Internacionais. Universidade Lusófona. 2007. Disponível em:
- CAVALCANTI, Ania. O universo concentracionário nazista de 1933 a 1945 e a implementação da “Solução Final” da Questão Judaica, 1941-1945. Aula do curso "Panorama Histórico do Holocausto", USP, agosto de 2008. Disponível em:
- CHELIKANI, Rao V. B. J. Reflexões sobre a tolerância. Rio de Janeiro: Garamond, 1999.
- DAVIDSON, Eugene. A Alemanha no banco dos réus. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.
- FAINGOLD, Reuven. O Holocausto e a negação do holocausto. Disponível em:
- FERRO, Marc. O século XX explicado aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir, 2008.
- FINKELSTEIN, N.G.. A Indústria do Holocausto. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 2001. Disponível em
- FONTETTE, François de. História do Anti-semitismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989.
- FRANK, Anne. O Diário de Anne Frank. Rio de Janeiro: Record,15ª edição. s/d.
- FUKS, Saul (org.). Tribunal da História: julgando as controvérsias da história judaica. Rio de Janeiro: Relume: Centro de História e Cultura Judaica, 2005.
- GUERRA, Andréa Trevas Maciel. Do holocausto nazista à nova eugenia no século XXI. Cienc. Cult., jan./mar. 2006, vol.58, no.1, p.4-5. ISSN 0009-6725. Disponível em:
- HITLER, Adolf. Minha Luta. São Paulo: Centauro, 2001.
- HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos - o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
- Holocausto: um tema em debate. Análise Shalom. (n.3). São Paulo, Editora Shalom, 1979.
- KONDER, Leandro. Introdução ao Fascismo. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1977.
- JOHNSON, Allan G.. Dicionário de Sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
- LAKS, Aleksander. O Sobrevivente. Rio de Janeiro: Record, 2000.
- LEVI, Primo. A trégua. São Paulo:Companhia das Letras, 2010.
- ________. É Isto um Homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988.
- ________. Os Afogados e os Sobreviventes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
- LEWIN, Helena (coord.) Identidade e Cidadania:como se expressa o judaísmo brasileiro. Rio de Janeiro: Programa de Estudos Judaicos, 2005.
- __________. Judaísmo e globalização: espaços e temporalidades. Rio de Janeiro: 7 letras, 2010.
- MAGNOLI, Demétrio. Uma gota de sangue: história do pensamento racial. São Paulo: Contexto, 2009.
- MARGULIES, Marcos. Do racismo ao Sionismo: uma análise conceitual. Rio de Janeiro: Editora Documentário, 1976.
- MARQUES, Adhemar; BERUTTI, Flávio; FARIA, Ricardo. História Contemporânea através de textos. São Paulo: Contexto, 1994.
- MARX, Karl. A Questão Judaica. Lusofia: Press. Trad. Artur Morão. 1989. Disponível em:
- MILMAN, Luis; VIZENTINI, Paulo Fagundes (orgs). Neonazismo, Negacionismo e Extremismo Político. Porto Alegre: Editora da Universidade – UFRGS, 2000. Disponível em:
- __________. O Holocausto: verdade e preconceito. Revista Espaço Acadêmico. Nº. 43. Disponível em:
- NETO, Odilon Caldeira. Memória e Justiça. o negacionismo e a falsificação da história. Antíteses, vol. 2, n. 4, jul.-dez. de 2009, pp. 1097-1123. Disponível em:
- Nunca Mais. Educando para a cidadania e a democracia. 1ª jornada interdisciplinar Intolerância e Holocausto: como estudar e ensinar. Rio de Janeiro: Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro, 2010.
- OVERY, Richard. Os Ditadores: a Rússia de Stalin e a Alemanha de Hitler. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.
- PARADA, Maurício. Cultura e Poder em Estados Totalitários: considerações sobre uma história cultural do fascismo. Mneme – Revista Virtual de Humanidades, n. 10, v. 5, abr./jun.2004. Disponível em:
- POLIAKOV, Leon. O Mito Ariano. São Paulo: Perspectiva, 1974.
- SARTRE, Jean Paul. Reflexões sobre o racismo. Rio de Janeiro: Difel, 1979.
- SCHWARCZ, Lilian.K.M. ; QUEIROZ, R.S. (org.) Raça e Diversidade. São Paulo, Edusp/Estação Ciência, 1996. Disponível em:
- SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Enciclopédia de Guerras e Revoluções do século XX. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
- STACKELBERG, Roderic. A Alemanha de Hitler. Origens, interpretações, legados. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2002.
- SPEER, Albert. Por dentro do III Reich: os anos de glória. Rio de Janeiro: Editora artenova, 1971.
- SPIEGELMAN, Art. Maus: a história de um sobrevivente. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
- STEIGMANN-GALL, Richard. O Santo Reich: Concepções Nazistas do Cristianismo. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2004.
- ZAGNI, Rodrigo Medina. As Profundezas do Intangível: Relações entre o antissemitismo religioso e o antissemitismo "científico" na justificativa nazista para a Shoah. Aula inaugural do curso "Panorama Histórico do Holocausto", USP, 02/08/2008. Disponível em:
sábado, 30 de julho de 2011
Corrupção no Brasil é histórica
Vocês devem estar acompanhando as notícias de Brasília envolvendo o Ministério dos Transportes, Dnit, PR, Pagot, enfim, todos juntos neste mar de lama da corrupção. Então eu pergunto: qual é a novidade?
A corrupção no Brasil é histórica e parece fincar raízes tanto no setor público como nas relações privadas.
O jornalista Eduardo Bueno, no seu livro “A Coroa, A Cruz e A Espada” (4º livro da coleção Terra Brasilis), mostrou em dois exemplos como se formou tais práticas no Brasil, ambas ocorridas na ocasião da implantação do Governo Geral, em 1549, primeira instituição efetivamente pública em nossas terras. Primeiro, o escolhido para a tarefa de ouvidor-geral (com a função de defesa da terra, cobrança de impostos e aplicação da justiça) foi um desembargador chamado Pero Borges - um “ficha-suja”, diríamos hoje. Este homem havia sido corregedor de Justiça em Elvas, no Alentejo, e condenado a restituir o Tesouro o valor de 114.064 reais (equivalente a um ano do seu salário) pelos desvios provenientes de algumas obras para um aqueduto. Portanto, pense bem, o primeiro líder da justiça do Brasil foi um homem recém condenado por corrupção!
Os contratos aditivos na área de transportes e os orçamentos milionários dos estádios de futebol já encontravam paralelos no Brasil há mais de 4 séculos. Na construção de Salvador, escolhida para ser a cidade sede do Governo Geral, superfaturamento já era fato corriqueiro. Empreiteiros loteavam as obras entre si e combinavam os lances antecipadamente, inflacionando o custo da obras e dando as devidas comissões para leiloeiros e fiscais.
Apesar de muitos especialistas negarem, é fato que a corrupção no Brasil está em todos os lugares (o que não implica afirmar que todas as pessoas a praticam). Os políticos saem da nossa sociedade, são frutos dela e o que eles fazem não é diferente daquela cervejinha na blitz ou o gatonet na sua TV.
Pessimistas, como eu, diriam que a solução é... completamente desconhecida e talvez não exista.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
MELHORAR O SALÁRIO DO PROFESSOR PRA QUÊ?
Não, este não é um texto acadêmico!
Considere como mais um desabafo de um professor da rede pública.
Hoje, ao abrir o jornal O Globo, li aquilo que considero uma das coisas mais nojentas que fazem com a minha classe. Um cidadão chamado Gustavo Ioschpe que se diz “especialista” em educação e jura que está numa “batalha pela educação brasileira” (aquele mesmo que acompanhou as reportagens do Jornal Nacional no mês passado) vomitou a máxima de que aumentar a remuneração do professor não interfere numa melhora da qualidade da educação.
Bom, vamos por partes. Já, já eu comento sobre isso.
Antes, é preciso lamentar que a “respeitadíssima” (sic) Globo (incluindo aí a TV e o jornal) convide alguém formado em Ciência Política e com mestrado em economia para falar de educação. E mais, de família rica, este indivíduo estudou em duas das universidades mais caras dos Estados Unidos. Resumindo, a “educação real” não faz parte do cotidiano deste rapaz. Uma das suas conclusões, “a indisciplina em sala de aula é culpa de uma aula ruim” (como se vê, o “brilhante” Julio Groppa não vomita sozinho), é resultado das suas vivências como aluno. Experimente jogar o nome desta criatura no google e (se tiver estômago) ler alguns dos seus artigos para entender porque a revista Não-Veja o contratou como colunista.
Voltando ao que interessa, a questão é mais simples do que se pensa: quando um médico pede um aumento alguém diz que melhorar o salário dele não vai salvar mais vidas? Se um policial fizer o mesmo, vão dizer que isso não acaba com a violência? Se for um engenheiro, que as obras não vão ser mais eficientes? Enfim, se alguém souber a resposta por favor me diga, porque o professor tem que justificar o aumento dos seus ganhos? Então se nenhuma pesquisa comprovar uma relação clara entre isso e melhores índices de aprendizagem do aluno, pronto, adeus aumento. A nossa classe ganha em média quase a metade do que outras profissões com nível superior. O salário do professor deve aumentar porque ele ganha mal, simples assim.
Sinceramente, já estou cansado desta conversa de botequim. Não vou me alongar muito, pois ainda quero aproveitar o meu único dia de folga antes de encarar uma semana dando aulas em quatro escolas. Termino com um desafio bem simples, Sr Gustavo Ioschpe, “especialista” em educação, coloque-se no meu lugar, vivendo a minha realidade, ganhando o que ganho e não te dou um mês para você se arrepender de tudo o que disse e escreveu na vida sobre educação. E, por favor, Globo, “especialista” em educação é o professor de sala de aula.
sábado, 16 de abril de 2011
Você tem medo de muçulmanos?
Existem algumas coisas que me incomodaram profundamente nas últimas semanas. Primeiro, ter visto uma declaração completamente estúpida do cantor Lulu Santos, no programa da Hebe Camargo, a respeito de uma reportagem sobre a convivência entre uma brasileira e uma árabe. Depois, a confirmação de que no dia 11/04, entraria em vigor na França a lei que proíbe as mulheres islâmicas de usarem a burca em locais públicos. Em seguida, ter ouvido de um comentarista na TV que a queima do Corão por um pastor norte-americano não representa uma falta de respeito com os muçulmanos. Por último, a tentativa de alguns meios de comunicação de associar o atirador psicótico que matou 12 adolescentes em uma escola de Realengo com a religião de Maomé. São quatro eventos completamente independentes, mas que se ligam em um aspecto: o preconceito contra tudo que é árabe-islâmico. No primeiro caso, o quadro do programa da RedeTV até me pareceu interessante. Tratava-se de uma troca de experiências entre uma mulher carioca em visita a um país islâmico (não me lembro qual) e vice versa. Assisti ao segundo. A mulher muçulmana, seguida da sua mãe e com toda a vestimenta típica da sua cultura, percorreu a Lapa carioca e o sambódromo, além de conhecer a igreja da Candelária. Já era de se esperar que o estranhamento seria enorme e que houvesse uma crítica das mulheres aos costumes “mundanos” do povo brasileiro (bebidas alcoólicas, bundas e peitos pulando etc). Nada muito diferente do que a carioca havia feito quando visitara o país islâmico (como deu pra perceber em alguns flashes do programa anterior). Nos comentários, Hebe e Lulu Santos foram extremamente grosseiros com a cultura muçulmana, com o segundo chegando a falar que a repulsa da mãe da menina olhar o que acontecia no sambódromo se devia a um desejo subconsciente e reprimido de se entregar aos prazeres da vida. A conclusão de ambos: “essas mulheres são profundamente infelizes!” No dia em que escrevo estas linhas, andar de burca nas ruas de Paris dará multa e até cadeia ao infrator. A justificativa: o Estado é laico e como a rua é pública não pode haver qualquer manifestação religiosa. Ok! Vamos seguir o raciocínio... proíbe-se também os crucifixos, as camisas com imagens de Jesus ou santos católicos, os kipás dos judeus, enfim, porque somente a referência ao costume religiosos muçulmana? Lembremos que o país que outrora pregara valores revolucionários em 1789 é um dos mais xenófobos da Europa. Já o cientista político Carlos Novaes defendeu, e sofreu severas críticas por isso, que o ato de hostilizar símbolos religiosos não é uma falta de respeito, em referência a um pastor evangélico da Flórida (EUA) que havia queimado um exemplar do Corão. Está certo que Novaes citou inclusive o caso do pastor da Igreja Universal que chutou uma santa católica em um culto, mas o assunto em pauta era a reação do mundo islâmico à atitude do pastor “sem noção”. Será que se fosse o inverso, um muçulmano queimando uma Bíblia, o cientista político manteria sua opinião? Por fim, desde o fatídico dia do atentado em Realengo que percebo a tentativa de alguns jornalistas de associar o atirador com a religião islâmica, numa espécie de versão tupiniquim para o homem-bomba muçulmano. Não importa se a polícia achar algo escrito deste psicopata em supostas relações com grupos de radicais islâmicos. A verdade tem que ser dita: este homem não tem a mínima ideia do que seja o islamismo. Sua carta de despedida nos dá a certeza que sua visão religiosa é um emaranhado de ideias desconexas. A conotação deste atentado não é religiosa nem de longe. Isto tudo me faz lembrar de um estudioso chamado Eduardo Said, que escreveu a obra “Orientalismo”. Ele defende que o antissemitismo judaico foi transferido para o antissemitismo árabe após o Holocausto, uma vez que o mundo se chocou com as atrocidades nazistas (lembrando, tanto judeu quanto árabe são semitas). Se procurarmos as charges antijudaicas de outrora e compararmos com as representações dos árabes muçulmanos de hoje encontraremos poucas diferenças. O perigo, a “praga” do mundo mudou de endereço. É claro que nem todo árabe é muçulmano, mas para o mundo ocidental-cristão isso pouco importa – “não é o povo do homem-bomba”, diria um de nós. Afinal, ainda não tem gente que afirma que japonês é tudo igual? Na nossa visão, eles são os estranhos. E o que eu não compreendo, pela diferença, passa a ser perseguido. Assim nasce o preconceito. Sei não, um de nós está paranóico e eu espero, sinceramente, que seja eu.
Continue lendo >>