domingo, 27 de junho de 2010

Meu encontro com um SOBREVIVENTE DO HOLOCAUSTO


Tudo começou numa ida despretensiosa na biblioteca de uma das minhas escolas. São aqueles tempos de janela entre as aulas que todos nós torcemos para não ter, mas sempre aparece no horário.
Olho aqui, algo interessante ali e numa passada vi um livro de nome sugestivo – “O sobrevivente”. Ali estavam as memórias de um judeu que passou pelo Holocausto, ou seja, verdadeiramente ‘sobreviveu’ anos pelos guetos, por campos de concentração (inclusive Auschwitz), pela Marcha da Morte e pelo pós-guerra. Interessantíssimo! Vou pegar emprestado.
Não sei quantas horas se passaram entre o início e o fim da leitura, só sei que foi tudo num só dia. Eu não conseguia parar de ler. Algo inexplicável, raras foram as vezes em que desci da minha fleuma e sofri junto com uma pessoa. Segurei o choro em alguns momentos. Em muitos outros, as lágrimas caíam por dentro do meu corpo (se acreditasse, diria dentro da minha alma).
Terminei de ler transformado. Eu, um historiador, jamais havia parado pra pensar no sofrimento daquelas pessoas. Os documentos, as teses, as teorias que vemos na faculdade e depois dela são todos tão frios. São tantas atrocidades e bizarrices que estudamos ao longo da história que achamos que os 6 milhões de judeus mortos pelo nazismo pelo “crime” de ser judeu fazem parte das estatísticas da Segunda Guerra Mundial, assim como o nosso mundo já se contentou em ver dezenas de mortes numa tira escondida do jornal. PERDEMOS A NOÇÃO DA IMPORTÂNCIA DA VIDA!
O Sr Laks, em uma de suas frases que nunca me esquecerei, diz: “a vida é muito cara!”. Eu acrescentaria: “Ela não tem preço!”.
A leitura do livro me modificou, tive vontade de ler e ver tudo relacionado ao Holocausto. Fiz uma pequena pesquisa em livros didáticos (façam também) e percebi que muitos deles apenas comentam o episódio. Poucos dão o destaque que ele merece.
Não estamos falando sobre a Alemanha, o nazismo, Hitler. Estamos falando sobre uma sociedade que se diz civilizada (conceito ridículo) e foi capaz de fazer/assistir o capítulo mais grotesco da história da humanidade.
Voltando para o objetivo deste texto, decidi que ao menos os meus alunos iriam dar a devida importância ao tema. Com base em “O Sobrevivente”, construí uma peça de teatro. Em breve colocarei a peça na íntegra por aqui também...
No início deste ano, fiz o desafio de montar a peça para os alunos. Tive que selecionar, pois muitos se interessaram. No final das contas me arrependi, poderia ter aproveitado todos. Nestas horas não se pode desperdiçar o desejo de aprender do aluno.
No meio deste turbilhão de coisas me veio a ideia de convidar alguém na escola para falar no dia da apresentação do teatro. Mas quem? Um sobrevivente do Holocausto! Mas quem? Sei lá, como se acha um sobrevivente do Holocausto por aí, não tinha noção. Entrei em vários sites e blogs sobre o tema e enviei diversas mensagens sobre o que estava precisando. Uma professora chamada Silvia Lerner entrou em contato e me deu o telefone de quem? Do Aleksander Laks, o ‘culpado’ por tudo isso.
Quando vi o telefone pensei e treinei 587 vezes o que ia falar. Peguei no aparelho e desisti. Tomei coragem. Quanta besteira a minha, mal sabia que do outro lado da linha havia uma pessoa de simplicidade ímpar, que desde o primeiro momento se mostrou interessado em me ajudar e até agradecia a oportunidade de dar seu testemunho. Imaginem só, ele agradecia. Não sabia o quanto eu esperava por isso, o quão importante é o seu relato para tantos dos seus ouvintes.
Ver as fotos das palestras
Acho que vou ter que pular muitas partes para este texto não virar um testamento. Do ponto de vista dos meus alunos ele já se transformou nisso a partir do segundo parágrafo. Mas vamos lá.
Marcamos o dia, pensei que fosse dar tempo de apresentar a peça pra ele, mas não deu. Pena! Ao mesmo tempo, seria uma tamanha responsabilidade.
Não preciso nem dizer o quanto fiquei ansioso. Minha esposa que o diga! A única coisa que pensava e torcia era para tudo dar certo. Tive a ajuda de muitas pessoas, a indiferença de outras (certamente por não compreenderem o significado daquele testemunho) e 100% das minhas atenções e energias.
Foram dois dos dias mais intensos e elétricos da minha vida.
O Sr Laks chegou na manhã do dia 08 de junho. A primeira palestra iria começar às 14:00hs. Planejamos então almoçar juntos. Meus diretores e um amigo do Estado foram também.
Ao chegar no hotel para buscar e levá-lo no restaurante fui surpreendido com a recepcionista me pedindo para subir. Tive todo tempo do mundo para pensar no que falar, mas aqueles segundos no elevador foram suficientes para esquecer tudo.
A acompanhante dele, Sheila, muito simpática, me atendeu e no fundo do apartamento eu o avistei. Entrei e ao cumprimentá-lo só consegui dizer que era uma grande honra conhecê-lo. A partir dali, eu, tímido e anti-social, passaria horas e horas conversando, brincando, aprendendo e me emocionando com o Sr. Laks.
Depois do almoço fomos para a primeira palestra. Chegamos e toda a estrutura já estava montada. O colégio do Estado havia me dado toda a estrutura. Um lugar ótimo, alunos empolgados e curiosos.
Mais de 2 horas de fala e não se ouvia ninguém conversando, todos ficaram atentos com aquele testemunho de vida. Hoje em dia, é muito difícil conseguir esta façanha com os jovens. Mas quem não fica comovido com a história de um vencedor, de um “sobrevivente da vida”.
Muitos alunos procuraram o Sr Aleksander depois, conversaram, tiraram fotos. Bem bacana! Um pouco depois ele me perguntou o que havia achado da palestra, minha opinião como historiador e amigo. Como não achar tudo aquilo maravilhoso, um documento intenso, a história viva. Foi muito bom!
Marcamos de jantar mais tarde. Chamei alguns amigos para ir comigo. Mais uma vez foi tudo ótimo. Conversamos muito e nos divertimos também. Aliás, poucas são as pessoas que conheço que tem o bom humor e a energia do Sr Laks. Tudo vira motivo de brincadeira. Como pode uma pessoa que passou por tudo que ele passou, já com 82 anos, e encontrar tanta disposição, ter tanta alegria em viver. Umas das coisas que mais comentei e ouvi foi exatamente neste sentido. Era uma pessoa que teria todos os direitos de ser amargurado, ranzinza, mal-humorado. Passamos por coisas no dia a dia que nos deixa assim, não é mesmo!? Ele não, o Sr Aleksander demonstra um carinho com as pessoas, uma vontade de viver e espalhar a sua história “pra que não ocorra os mesmos erros do passado”, como gosta de falar.
Fui pra casa naquele dia em estado de êxtase. Havia dado tudo certo. Faltava mais uma manhã.
No dia seguinte, fui cedo para a escola e tivemos que colocar a mão na massa para aprontar tudo. Contamos com a colaboração dos funcionários e professores, aqueles que verdadeiramente se empenharam para que tudo aquilo desse certo.
Na hora marcada fui buscá-lo para a segunda palestra. Chegando no colégio ele foi muito bem recebido pelos professores. Enquanto isso, ainda preparávamos tudo numa corrida contra o tempo. Teríamos um empecilho em relação ao horário. Tudo deveria terminar às 11:40hs, depois disso atrapalha a saída dos ônibus, o almoço, a entrada das turmas do outro turno etc.
Por tudo isso, a palestra foi mais curta, mas apesar da primeira impressão os alunos se comportaram muito bem. No final o objetivo foi alcançado. Muitos se emocionaram e foram procurá-lo, tiramos muitas fotos e respiramos fundo com o pensamento de dever cumprido.
A volta pra casa estava marcado para às 14:00hs, um motorista contratado iria levá-lo. Corremos para almoçar com ele. Uma amiga professora, minha esposa e filhos foram juntos. Num tom bem descontraído, de despedida mesmo, batemos papo e descansamos. Foram dois dias bem puxados. Eu estava exausto!
Naqueles últimos minutos juntos, estava tão feliz por tudo dar certo que nem ensaiei a despedida. No abraço final antes de partir, só consegui dizer que foram momentos inesquecíveis pra mim. Neste momento em que escrevo, meu corpo se arrepia, meus olhos se enchem de lágrimas. Deu tudo certo! Deu tudo certo!
No fim das contas, acho que fui muito mais um fã do que um professor recebendo um convidado. Posso ter errado em algumas coisas, mas a minha intenção era a melhor possível. Hoje, passados uma semana destes fatos, ainda com a memória fresca das emoções, queria deixar somente mais algumas palavras em especial para o Sr Aleksander Laks.
Obrigado! Obrigado por ter escrito um livro tão emocionante! Obrigado por ter me inspirado! Obrigado por ter aceito o meu pedido! Obrigado pelos momentos agradáveis ao seu lado! Obrigado por me ensinar a viver plenamente e a perdoar! Obrigado por me fazer um homem melhor! Jamais me esquecerei destes dois dias! Obrigado! Obrigado!

2 comentários:

Regina Milone disse...

Puxa, Luiz...
Só de ler esse seu belo texto me arrepiei e fiquei com os olhos cheios d'água... Imagino como você ficou, nos dois dias que relatou aqui!
Que bela história... Que ser humano incrível!
E você, meu amigo, com a sua sensibilidade, ainda conseguiu emocionar e interessar seus próprios alunos! Eles sabem quando algo é tão especial e verdadeiro que transcende qualquer desejo de fazer bagunça na sala. Não me surpreende que tenham se comportado tão bem. Que presente você pôde lhes proporcionar!
Parabéns!!!!!!
Obrigada por compartilhar essa maravilha, essa sequência de encontros tão significativos...
Um abraço,
Regina Milone.

Sidiney Rodrigues disse...

Parabéns Professor! Convida o professor de Artes pra ajudar aí na construção da Peça. ;-)

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